Christopher Isherwood and his kind: minha declaração de amor

[IMPORTANTE:

SE VOCÊ AINDA NÃO LEU NADA DE CHRISTOPHER ISHERWOOD POR FAVOR NÃO VEJA O FILME “Direito de amar”. LEIA PRIMEIRO O LIVRO “Um homem só”, OK?]

Christopher Isherwood

Esse ano descobri dois dos meus escritores favoritos. É muito gostoso chegar no meio de um livro e descobrir que era aquilo mesmo que você esperava, mesmo sem saber. Hoje resolvi escrever sobre um deles, o inglês Christopher Isherwood.

Já fazia um tempo que estava de olho no filme, Direito de amar, com Colin Firth e Julianne Moore, mas um amigo me indicou no começo do ano e resolvi ver. Cheguei a alugar na locadora e tudo, mas quando li a sinopse vi que tinha sido baseado no livro “Um homem só” de Christopher Isherwood. E como desde Reparação eu sempre quero ler o livro antes resolvi esperar.

Devolvi o filme na locadora e fui atrás do livro. Encontrei na Estante Virtual e esperei chegar sem maiores pretensões. Qual não foi minha surpresa quando comecei a ler o livro e fui me envolvendo tanto que não conseguia deixá-lo de lado. Não foi um livro que li rápido, em um dia ou coisa assim, mas não por falta de interesse. Foi aquele livro que li devagar, com atenção, por puro medo de acabar rápido demais e ficar órfã.

O livro é lindo. Sério. É de uma simplicidade e franqueza que espantam! É um livro apaixonado, mas ao mesmo tempo sóbrio. Com uma maneira própria de demonstrar amor e dor. Por que sim, é um livro que trata da dor. Isherwood narra a vida de seu personagem após perder seu companheiro de vida. A morte do grande amor e tocar a vida, esse é o tema do livro. Sim, é um amor homossexual na Califórnia da década de 60, mas ele está mais próximo de nossa década de 2010′ que muita Nora Roberts por aí.

Vou assumir, tenho algum problema com livros que dizem respeito exclusivamente a casos de amor. Tenho medo de a qualquer momento eles ficarem piegas demais, sabe? Mas essa sensação não me deixou apreensiva em nenhum momento da leitura de “Um homem só”.

Mas qual não foi minha decepção quando fui ver o filme? Credo! Direito de amar é uma das coisas mais bregas já produzidas pelo cinema!!

Direito de Amar

E o pior, ele tenta ser “poético”. É triste de ver! Um jogo de cores barato muda as cenas conforme a “apetite sexual” do protagonista, Colin Firth. Quando a excitação aumenta as cenas ficam mais vermelhas, quando ele está triste tudo fica mais azul/cinza. É muito, muito, muito ruim! Ou pelo menos foi isso que eu achei, fui esperando a placidez chocante e amorosa de Isherwood e encontrei uma junção de clichês.

Por isso indico a todos: leiam o livro primeiro!

Mas meu amor por Isherwood não parou por aí. Sou historiadora de formação e letrista por vontade momentânea, então meu gosto pelo passado ainda reclama seu lugar em minhas preferências. Não pude deixar de notar a época em que Isherwood viveu em Berlim, de 1929 a 1933. Fiquei muito interessada em seus livros “Adeus a Berlim” e “Os destinos do Sr. Norris” onde sua estadia na cidade é relatada através do discurso ficcional. Li os dois de bom coração. Me apaixonei por seus personagens, Sally e o Sr. Norris são emblemáticos como poucos!

Nesse meio tempo descobri outro filme baseado em sua obra, o Christopher and his kind, com Matt Smith (sim! Nosso Doctor Who de cada dia aparece aqui também!) no papel principal. Essa obra é sua autobiografia, conta sua vida em Berlin, seus amores e decepções. Confesso que ainda não li o livro, mas os dois livros de ficção que tratam do período são ótimos. Resolvi ver o filme mesmo assim.

Christopher and his kind - um filme da BBC

O Christopher and his kind da BBC me irritou muito menos que Direito de Amar. Foi um filme feito para televisão, sem grandes orçamentos e jogadas de marketing, mas um filme honesto. Como não li a autobiografia não posso julgar com precisão, mas o filme ainda me pareceu um pouco mais “interpretativo” do que os escritos de Isherwood.

A grande vantagem que vi em ler os livros sobre Berlin no pré-guerra foi a sensação de misturar-se na multidão. Em nenhum momento dos livros tive a intenção que estava observando aqueles fatos do futuro, sabendo quais seriam suas consequências e quais erros nos levariam até eles. Foi como se durante a leitura eu estivesse realmente em Berlin e não na Berlin-que-está-vendo-o-nazismo-sair-vitorioso, mas uma Berlin que ainda não sabia qual seria seu futuro, uma Berlin que estava apostando, cada pedaço dela em um dado, mas sem saber qual número sairia no final. Agora o filme não me deu essa sensação. Me pareceu que o tempo todo a ideia era mostrar como a ascensão do nazismo mexeu com a vida das pessoas, como ela era a ponta da lança. Fiquei pensando: quando movimentos políticos acontecem não são as relações mais humanas e pessoais que se modificam? Não são elas que temem? Justamente por não saber do futuro o acontecimento é tão perturbador.

Cena de "Christopher and his kind"

Mas mesmo com essa impressão o filme passa bem melhor que Direito de Amar. Muito melhor! Concordo (com o coração pesado) com um comentário que li sobre o filme, talvez Matt Smith não tenha sido a melhor escolha para o papel. Aquele ar goofy que me encanta em Doctor Who não sumiu ao interpretar Isherwood. E não consigo pensar em nada mais inapropriado ao papel.

Quando fui pesquisar as imagens para esse post encontrei o trailer do filme Chris & Don, que mostra o relacionamento de Isherwood com Don Bachardy. Isherwood é também conhecido por sua contribuição ao movimento gay, e esse filme parece mostrar um pouquinho de como isso aconteceu. Já coloquei na minha lista de espera.

No final, isso tudo foi para falar um pouco da minha descoberta. Sim, Isherwood entrou para a minha prateleira de preferidos. Bem do ladinho da Virginia Woolf e da Sylvia Plath. Acho que a Inglaterra exerce algo sobre mim, não?

Christopher Isherwood e seu companheiro americano Don Bachardy

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13 pensamentos sobre “Christopher Isherwood and his kind: minha declaração de amor

  1. Acabei de descobrir esse autor também, queria saber mais sobre as história e fiquei preocupado que fossem livros voltados para o erotismo, algo como os cinquenta tons de cinza. Seu post me tranquiliza muito nesse sentido. :)

    “Foi aquele livro que li devagar, com atenção, por puro medo de acabar rápido demais e ficar órfã.” > Um absurdo de beleza nessa frase sua! ;D

    Abraços

  2. Olá, gostaria de saber se saberia me indicar onde poderia encontrar os livros deste escritor, Li algumas sinopses e vi alguns trailers de filmes e me interessei muito, se souber algum site de compra online ficaria grato…

    • Bom Leonardo, eu gostei mais do livro. Na verdade eu não gostei do filme. Como disse, achei que ele foi “demais”, enquanto o livro foi de uma tristeza dura e bonita. Mas fico feliz que tenha gostado do livro! :)

  3. Bom, primeiro assisti o filme e achei lindo. A perda, a dor da separação, a vontade de morrer. Depois li o livro e adorei também e no livro a vontade de morrer não era tão forte como no filme, talvez por ser filme isso fica mais explícito. Mas por mais que toquem na mesma coisa são opostos, eu acho. Eu gostei dos dois e acho que Colin Firth está excelente no filme.

  4. Lendo posts antigos…

    Sabe que eu não li nadinha de nada do Christopher Isherwood. Vergonha. Mas eu vi Direito de Amar e gostei tanto do filme, adorei a atuação do Colin Firth (ou foi só porque eu amo esse homem?). Mas eis minha grata surpresa ao saber que tem um filme com o Matt Smith!!! OMFG!!!! Ok, passou.

    Resumindo, só vi Direito de amar, gostei, e fiquei com tanta, mas tanta vontade de ler o livro (e de ver o filme com o Matt Smith :) )

  5. Pingback: Minha primeira experiência no Festival do Rio | Isaac Sabe!

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