Qual seria nosso kemmer? A mão esquerda da escuridão de Ursula K. Le Guin

Ursula K. Le Guin

Acabei de ler meu primeiro livro da autora americana Ursula Kroeber Le Guin, “A mão esquerda da escuridão“. No começo não entendi a definição de Michael Moorcock (“Tão profundo e original na criação como O Senhor dos Anéis”), mas acho que agora sim. Começar a ler esse livro me custou um pouco de disciplina, assim como com Tolkien. Até a página 80 mais ou menos a leitura estava estranha, eu não conseguia me concentrar, parecia que não ia pra frente, mas depois, meio que por mágica, a coisa deslanchou. Não consegui esperar para saber qual seria o próximo movimento na empreitada de Genly Ai, e assim li mais 200 páginas em um domingo de insônia.

O final dessa aventura só veio hoje, numa segunda-feira chuvosa no Rio de Janeiro e em um dia de fim de primavera em Inverno. Tomei chá, chorei, mudei de posição e terminei a leitura. Mas não vamos nos inspirar em Machado e vamos começar pelo começo.

Logo na introdução Ursula K. Le Guin me ganhou (veja bem, ela e não o livro). Queria reproduzir aqui toda ela, quem sabe um dia eu transcreva e coloque o link aqui, mas por enquanto vou só comentar. Na introdução muito sobre o que eu penso ser a ficção científica ficou mais claro pra mim, já achava aquilo, mas ela escreveu do jeitinho que eu queria pensar. Quem escreve ficção científica não está apto a fazer previsões sobre o futuro, no máximo pensa naquilo que está acontecendo com seu tempo.

Escrito em 1969 “A mão esquerda da escuridão” começa assim:

“Farei meu relatório como se contasse uma história, pois quando criança aprendi, em meu planeta natal, que a Verdade é uma questão de imaginação. O fato mais concreto pode fraquejar ou triunfar no estilo da narrativa: como a jóia orgânica singular de nossos mares, cujo brilho aumenta quando determinada mulher a usa e, usada por outra, torna-se opaca e perde o valor. Fatos não são mais sólidos, coerentes, perfeitos e reais do que pérolas. Mas ambos são sensíveis.”

E realmente, o livro é sólido como uma pedra.

Agora preciso voltar um pouquinho antes de entrar no meio da história. O último livro que li foi “Fahrenheit 451” de Ray Bradbury, e me doeu admitir que não gostei. Achei a premissa fantástica, um futuro em que os bombeiros queimam livros ao invés de apagar incêndios, mas não me convenceu. Contudo, na edição que eu tenho logo após o romance temos alguns artigos escritos pelo próprio Bradbury como que em resposta a algumas críticas. Uma das críticas diz respeito à falta de personagens femininas e da impossibilidade de apresentar o romance como peça em uma universidade americana, segundo o reitor o grupo feminista da universidade cairia em peso sobre seu pescoço.

As respostas de Bradbury não são infundadas ou desprovidas de lógica. Ele não quer que a literatura seja limitada por qualquer grupo. Entendo a resposta. Mas ao ler o livro de Ursula Le Guin achei aquilo que me fez falta em Bradbury, a menção a feminilidade. É tão comum não termos mulheres como grandes diretoras de cinema, como grandes nomes de tal ou qual era, como mães de algum gênero, que quando vemos a discussão sobre os gêneros em um romance pensamos: cara, é isso!

E com “A mão esquerda da escuridão” senti isso. Sendo “isso” alguma sensação de comunicação de minhas dúvidas, meus pensamentos, de quem sabe uma coletividade de dúvidas.

No meio da história, quando o livro já tinha me ganhado, percebi que estava lá dentro, no meio de tudo, a discussão sobre homens, mulheres, sexualidades, escolhas… Talvez seja uma boa ideia tentar explicar um pouquinho do plot do livro pra seguir em frente.

Genly Ai é um enviado do Ekumen, como li no meiapalavra “uma espécia de ONU” interplanetária, ao planeta Gethen (conhecido como Inverno). Sua missão é oferecer ao planeta a possibilidade de fazer parte da união de 84 planetas habitados pelos humanos. Essa união não é um reinado, uma república ou qualquer coisa do tipo, é somente uma união que visa o comércio de bens materiais, tecnologias e teorias. Cada planeta permanece com suas leis quando entra para o Ekumen, mas passa a fazer parte de uma união onde pode trocar informações.

O planeta de Gethen é habitado por humanos hermafroditas, essa seria a explicação mais próxima ao que temos no planeta Terra. Mas na verdade os habitantes de Inverno não são nem homens nem mulheres, mas podem ser um ou outro dependendo de como reagem ao Kemmer (algo próximo ao cio dos mamíferos). O livro é a narrativa, escrita em diversas vozes, da missão de Genly Ai.

Bem, é toda essa diferença em relação aos gêneros que faz a discussão sobre a feminilidade estar sempre presente no livro. Mas, de novo, não em forma de militância, mas de descoberta.

Ao fim, o livro é bonito, mas duro. Não encontro nele descrições fáceis que te levam a imaginar, mas descrições duras que nos levam a forçar a imaginação. E não é um esforço maravilhoso se forçar a imaginar algo diferente?

Sei que muitos podem pensar: “é só uma crise de feminismo xiita boba”, mas a discussão sobre a feminilidade passa pelos nossos dias o tempo todo. Aparecer no romance, seja na ficção científica ou em qualquer outra, não é um favor nem uma militância, é um pensar sobre nossa situação. Aquilo que está sempre ali, mas não sabemos como.

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12 pensamentos sobre “Qual seria nosso kemmer? A mão esquerda da escuridão de Ursula K. Le Guin

  1. Oi Luara! Eu amei o livro e com certeza entrou pra minha lista dos melhores de 2014. Tbm tive dificuldade com o início do livro, achei mais estranho do que o normal, considerando o universo de FC. Mas da metade pra frente, eu tive o “Click” e a história me pegou de vez! E mesmo assim, demorei quase 4 semanas para ler aquelas poucas páginas. Achei pesado, denso, e me envolvi demais com os personagens. Mas o que mais me chamou atenção nem foi a história em si, foram os pontos levantados pela autora sobre sexualidade! E o livro é da década de 60! Ou seja, uma mulher escrevendo FC já não é muito comum, muito menos na década de 60 e ainda abordando temas tão delicados e ainda por cima, da forma como foi feito, tipo, se é pra quebrar tabu, vamos chutar o pau da barraca logo rsrs… minha nossa! Realmente leitura top!! Gostei demais mesmo! Com certeza lerei mais coisas dessa autora. Beijinho!!! Isa – LidoLendo

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  5. Fiquei com vontade (muita!!!) de ler. no início do seu texto pensei no Ray =)
    Aí você vai e me joga ele na cara, ótimo!

    Li o livro há muito tempo. Vou reler prestando mais atenção nesse lance das mulheres, na época não notei.

    Quanto ao que você resenhou, ganhou-me por isso aqui: “não em forma de militância, mas de descoberta.” O feminismo que gosto.

    Lindo texto.
    =)

    • Fico muito feliz que tenha gostado do texto! :)
      Ainda estou engatinhando nessa vida de blog…

      Mas depois que você ler o livro de novo me diz se não rola um incomodo-zinho com esse papel feminino…

  6. Esse foi um ano no qual decidi ler “distopias” – esses livros que prenunciam o futuro baseando-se no presente – e, invariavelmente, de uma maneira singular, desacreditando no mesmo.
    Bradbury é, literariamente, uma merda. Primeiro que de-tes-to autores americanos (que tratam mais de lugares, dinheiro e quantidade do que humanos) e segundo que a intenção da história é, de fato, muito boa para uma narrativa tão ausente e repleta de falhas.
    Já esse livro que você narrou no post, achei um tanto quanto 1984, de George Orwell, que também li esse ano e considerei muito bom, além de ter a figura feminina presente, que também faltara no clássico de Huxley (apesar deste ser infinitamente melhor do que Bradbury).
    Abraços.

    • Nina você me fez pensar! rs.. Logo que li seu comentário pensei: “mas ah! Eu gosto de escritores americanos! Tipo o… a…” E demorou um tempo pra me aparecer algum! Primeiro me veio a Sylvia Plath (que mora realmente no meu coração), mas tudo bem, ela não é genuinamente americana, rola aquele pezinho na Inglaterra… Meu coração só se acalmou quando pensei no Fitzgerald. Não, realmente não tenho um problema crônico com escritores americanos, mas depois do seu comentário acabei percebendo que a empatia acontece em menos casos do que imaginava…

  7. Lu,

    gostei muito do seu post. Mesmo. Não dá para discutir sobre o livro, pela razão óbvia de que não o li, mas achei ótima a ideia: dureza da descrição e a imaginação. Dá o que pensar.
    Beijo.

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