O homem do castelo alto – Philip K. Dick

Livro: O homem do castelo alto

Título original: The man in the high castle

Autor: Philip K. Dick

Editora: Aleph (aquela linda!)

Tradutor: Fábio Fernandes

Páginas: 300

Ano:  1ª. edição em inglês 1962, edição Aleph 2009.

Sinopse oficial: Neste livro que é considerado por muito o melhor trabalho do autor, Dick apresenta um cenário sombrio: a Segunda Guerra Mundial foi vencida pelos Nazistas. O mundo vive sob o domínio da Alemanha e do Japão. Os negros são escravos. Os judeus se escondem sob identidades falsas para não serem completamente exterminados. É nesse contexto que se desenvolvem os dramas de vários personagens. Ao apresentar uma versão alternativa da história, Dick levanta a grande questão: “O que é a realidade, afinal?”

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Em O homem do castelo alto temos uma visão de futuro (e de ficção científica) diferente. Alemanha, Japão e Itália venceram a Segunda Guerra Mundial. O Partei nazista comanda boa parte do mundo juntamente com a SS, a Wehrmacht e a Abwehr. A parte restante é comandada por um Japão menos tecnologica e economicamente desenvolvido. Uma espécie de Guerra Fria se instaura, mas com uma Alemanha mais forte que os EUA e um Japão mais fraco que a URSS.

Os EUA são agora os Estados Americanos do Pacífico, divididos entre Japão e Alemanha. E é na parte nipônica que encontraremos nossos personagens principais: Robert Childan, americano comerciante de arte nativa; Sr. Nobusuke Tagomi, funcionário de alta patente do governo japonês; Frank Frink, judeu americano que mudou de nome para se livrar da política de deportação do Reich; Juliana Frink, sua ex-esposa residente nas rochosas; Sr. Baynes, sueco envolvido na produção de moldes de plástico; e mais alguns que vão aparecendo pelo caminho do livro, mas que são legais de se descobrir.

A trama se desenvolve com blocos de informação: o leitor vai sendo apresentado a cada um dos personagens, um espaço em branco na página indica a mudança de perspectiva, e dentro de cada capítulo (são 15 ao todo) mais de um personagem expõe seus problemas e dúvidas.

A descrição não é parte forte do livro (o que pode parecer estranho ao se tratar de um futuro não conhecido), o leitor só conhece o local a partir da interação dos personagens com o espaço. Não podemos, antes disso, formar uma imagem deste futuro, ele vai sendo construído junto com leitor e personagem. Não me lembro se outros livros de ficção científica me trouxeram essa sensação, mas não senti falta da descrição, aquilo que me foi fornecido pelo personagem foi meu limite de imaginar.

No início a leitura ficou um pouco dispersa. É realmente muito difícil imaginar um mundo onde a suástica estampa tecidos na legalidade, mas depois que consegui uma mínima correspondência mental com esse mundo, a leitura fluiu. Também tive um pouco de dificuldade para me adaptar aos personagens, seus nomes, suas funções e nacionalidades me escapavam o tempo todo. Mas, novamente, depois de avançado um pouco na leitura, tudo ficou mais claro.

Sim, é um livro que indicaria a outras pessoas (principalmente para quem se interessa por relação ficção e realidade, mas aí tudo que Dick escreveu é importante) mas com a ressalva de se esforçar um pouco para ultrapassar as primeiras páginas e personagens. Mas também, essa minha falta de “concentração” pode só ser fruto do fim de ano aliado ao fim do semestre. Quem sabe.

Agora, vale ressaltar o trabalho LINDO a editora Aleph. A capa é de um papel super bom, as páginas também com papel de gramatura boa, diagramação super confortável. Realmente me chamou atenção!

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Trechos:

– O que é “historicidade”? – ela perguntou.

– É quando uma coisa contém história. Ouça. Um desses dois isqueiros estava no bolso de Franklin D. Roosevelt quando ele foi assassinado. O outro não estava. Um tem uma tremenda historicidade. Tanto quanto qualquer outro objeto já teve. E o outro não tem nada. Dá pra sentir? – Deu-lhe uma cutucada. – Não dá. Não dá para saber qual é qual. Não há nenhuma “presença plásmica mística”, nenhuma “aura” em torno deles.

– Puxa – disse a garota, impressionada. – É mesmo verdade? Que ele estava com um desses no bolso naquele dia?

– Claro. Eu sei qual dos dois era. Você vê aonde quero chegar? É uma grande trapaça; e estão todos se enganando. Quero dizer, um revólver sobrevive a uma batalha famosa como a de Meuse-Argonne, e é a mesma coisa que nada, a não ser que você saiba. Está tudo aqui – bateu com a ponta do dedo na cabeça. – Está na mente, não no revólver. (pps. 77/8)

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Estudando o broche, Paul continuou: – É fácil compreender esse tipo de reação. Temos aqui um pedaço de metal derretido até ficar disforme. Não representa nada. Nenhum desenho, nenhuma intenção. É apenas amorfo. Poder-se-ia dizer que é um mero conteúdo, despido de forma.

Childan assentiu.

– Contudo – prosseguiu Paul -, há vários dias que o venho examinando e, sem a menor razão lógica, sinto uma certa atração emocional. Por que isso acontece? Eu me pergunto. Nem mesmo se trata da projeção da minha psique nesta peça, como se faz nos testes psicológicos alemães. Continuo não vendo forma nenhuma. Mas de alguma maneira este objeto partilha do Tao. Está vendo? – Fez sinal a Childan para que se aproximasse. – Ele está equilibrado. As forças no interior desta peças estão estabilizadas. Em repouso. Por assim dizer, este objeto está em paz com o universo. Separou-se dele e assim conseguiu atingir a homoeostase.

Childan assentiu, examinando a peça. Mas não estava entendendo nada.

– Ele não tem wabi – disse Paul – nem poderia ter. Mas… – tocou o broche com a unha. – Robert, este objeto tem wu.

– Creio que tem razão – respondeu Childan, tentando recordar o que era wu; não era uma palavra japonesa, era chinesa. Sabedoria, calculou. Ou compreensão. De qualquer maneira, era altamente positivo.

– As mãos do artífice – disse Paul – tinham wu e deixaram que o wu se infiltrasse na peça. Talvez ele próprio saiba apenas que esta peça satisfaz. Ela está completa, Robert. Contemplando-a, nós mesmos ganhamos mais wu. Experimentamos a tranquilidade associada não com a arte, mas com coisas sagradas. Recordo um santuário em Hiroshima onde se podia ver a tíbia de um santo medieval. Contudo, isto é um artefato e aquilo era uma relíquia. Isto está vivo no agora, enquanto aquilo apenas permaneceu. Através desta meditação, que iniciei com intensidade desde a última vez que você esteve aqui, acabei identificando o valor que este objeto possui, em oposição à historicidade. Fiquei profundamente comovido, como você pode ver. (p. 201)

[A PARTIR DE AGORA O TEXTO CONTERÁ SPOILERS, SE VOCÊ AINDA NÃO LEU O LIVRO POR FAVOR, NÃO LEIA! POR MAIS QUE NÃO SE IMPORTE EM SABER PARTES DA TRAMA EU NÃO RECOMENDO A LEITURA]

Depois que acabei de ler o livro, o coloquei na mesa de cabeceira e fiquei pensando. Existe alguma forma de trabalhar a questão da ficção e da realidade que não passe pela literatura? Como sou professora de história de formação isso me pegou muito. Será possível tratar deste tema na história?

Como nos dois trechos que coloquei acima: não é a historicidade que traz a contemplação, é a arte. A arte traz o completo e Philip Dick joga isso na nossa cara o tempo todo. Ele satiriza a eficiência nazista (através de um personagem que exalta tal eficiência, é ótimo), o apego à explicação (p. 185) e coloca a arte, a contemplação, a completude em outro patamar.

Claro que devemos levar em consideração o caráter religioso do livro, assim como no texto final do tradutor, Philip Dick encontrou Deus em algum momento da sua vida. Mas nem por um momento deixou de duvidar. Às vezes sinto vontade de partilhar dessa certeza religiosa, dessa completude.

Agora, ao tratar todo o livro como uma “não-realidade” (quando Juliana descobre pelo I Ching que o livro O Gafanhoto torna-se pesado era a realidade) Philip Dick não destrói a obra, ele não apela para uma ficção que só é possível no sonho. Pelo contrário, ele nos diz que a única possibilidade de realidade (como todo, completo e compreensível) está na ficção, todo o resto é incontrolável.

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11 pensamentos sobre “O homem do castelo alto – Philip K. Dick

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  4. Estou meio atrasado nesta postagem, porém acabei de ler exatamente agora o livro em questão ( e por ter acabado de ler o final você deve imaginar o motivo de eu ter procurado algo sobre este final ) E agradeço pela explicação de sua visão que foi uma das mais aceitáveis para mim! (Digo isto pois escolhi o meu final e você praticamente concordou comigo) Vou fazer agora no meu blog uma resenha e agradeço pela sua visão que me ajudou muito!
    Abraços Luara :)

  5. Sua resenha me deu vontade de ler o livro (e lá vai mais um para minha lista que não para de crescer…)
    E dá para parar de postar tanto link legal? Assim meu trabalho não rende…rs
    bjo

  6. Me segurei muito pra não ler os spoilers, porque realmente não me importo muito de saber algumas coisas do livro… mas me interessei tanto por ele a partir do que você falou que resolvi esperar um pouco e me deixar surpreender… adoro temas relacionados à Segunda Guerra Mundial e já parei pra pensar várias vezes sobre como o mundo seria se o nazismo tivesse triunfado… acho que será bem interessante ver essa perspectiva escrita e traduzida em personagens e suas histórias *-*

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