Daytripper – Fábio Moon e Gabriel Bá

Um dos melhores comentários que recebi aqui no blog foi de uma menina chamada Mylena. Foi no “Onde se escondem os filmes para adultos?” e ela disse mais ou menos isso:

Mas Luara, essas dúvidas, que você coloca como únicas (dessa idade intermediária horrenda) são na verdade de todo mundo. Não importa quantos anos você tenha, você não vai saber o que fazer.

E não é que ela tinha razão? Descobri isso lendo Daytripper ontem. Passei a parte da manhã trabalhando fora de casa, fiz uma entrevista de emprego depois do almoço, voltei pra casa e li textos da dissertação. Quando vi que ainda eram seis horas da tarde e o sol do Rio de Janeiro não estava disposto a ir embora resolvi ler Daytripper. Minha intenção era pelo menos começar essa Graphic Novel que todo mundo tem elogiado. Só parei quando acabei.

Primeiro de tudo, o livro é lindo. Os desenhos são lindos. As cores são lindas. Tudo faz com que você se sinta cada vez mais ligado à trama. Não posso contar muita coisa sem estragar a surpresa, mas Brás (personagem principal) é um jornalista com aspirações de escritor. Mais uma vez aparecem os problemas de quem trabalha com escrita. E foi apaixonante.

A leitura é rápida, mas pede que seja feita de novo, logo que você fecha o livro. Tive a impressão de que às vezes estava presa demais às palavras e outras presa demais aos desenhos. Foi difícil prestar a devida atenção aos dois. Por isso, quero reler Daytripper daqui um tempo, tenho certeza que não me arrependerei.

Todo o livro foi, para mim, sobre dúvidas e escolhas. A cada momento Brás (um escritor de obituários, veja bem) escolhe e sofre. Nunca fui boa com escolhas, costumo dizer que se alguém pudesse fazer as escolhas da vida por mim tudo seria mais fácil, sou boa com o dia-a-dia, com o viver depois da escolha, mas não com o ato de escolher. Sempre a via que deixei de lado acaba parecendo mais interessante em algum momento. Mas com Brás nós podemos ver aonde essas escolhas levam.

No final do livro os irmão escrevem:

Com o pé calcado na realidade, o mais difícil não seria criar algo que parecesse real. Não, o difícil foi criar um mundo que você sentisse ser real. Cada referência, cada foto, cada cor e cada personagem, tudo foi construído de forma a reproduzir sentimentos. A sensação de que você está vivo, alegre, solitário, amedrontado ou apaixonado. Queríamos aquela sensação de que a vida está acontecendo aqui, bem à nossa frente, e a estamos vivendo. E como vivemos. E às vezes morremos para provar que vivemos.

E conseguiram… E conseguiram…

Publicado originalmente em inglês, mas os escritores, dois irmãos, moram em São Paulo, foi traduzida e publicado pela Vertigo/Panini.

.

Título: Daytripper

Autores: Fábio Moon e Gabriel Bá

Ano: 2010 (inglês) e 2011 (português)

Editora: Vertigo/Panini

Páginas:  258

 .

[SPOILERS]

Pronto, agora que você já leu o livro podemos ser mais francos. Ele não é lindo?

Enfim, passei a concordar com o comentário da Mylena pois cada vez que Brás morre é um pedaço da vida dele que morre. Quando ele morre no nascimento do filho é como se só o Brás-pai pudesse sobreviver. Como se cada morte fosse uma mudança, e como morte/mudança é dolorida, sofrida e cruel.

Parei para pensar quantas vezes eu morri, quantas vezes mudei e sofri. Foram algumas, mas nenhuma indolor. Acredito que agora, com o fim (interminável fim) do mestrado seja uma das vezes que está doendo mais. Mas não é sempre a última dor que dói mais? Acho que sim. Tendemos a esquecer como as outras também foram desgastantes.

Quando lemos Daytripper somos lembrados de que doeu, sempre doeu, mas que sempre conseguimos passar por elas. Meio quebrados, meio mortos, meio desorientados, ao meio. Cada parte do Brás que morreu deixou espaço para um outro, um outro amor, um outro filho, um outro romance. E pensar nisso quando se está morrendo é reconfortante de algum modo.

.

.

.

.

.

.

.

Anúncios

8 pensamentos sobre “Daytripper – Fábio Moon e Gabriel Bá

  1. Pingback: Daytripper – Fábio Moon e Gabriel Bá « Ficções do Interlúnio

  2. Pingback: Desafio Literário 2012 « Isaac Sabe!

  3. Ok, li o comecinho e parei com a resenha. O namorado comprou no fim de semana, leu e amou. Eu estou morrendo de vontade de ler e com essa resenha não vou conseguir me aguentar guria!

    Assim que chegar na casa do namorado agarro a dita GN e não paro até ler tudo.

    Beijos

  4. Fiquei muito muito tentada em ler os spoilers, mas resisti, porque quero muito ler esse livro, a um bom tempo, mas não sabia que já havia sido traduzido :x
    Tenho a impressão de que vou me identificar com o personagem principal (quero fazer jornalismo, e tenho uma certa tendência a querer ser escritora também)

    Ps: Fiquei feliz de saber que meu comentário foi bom assim *-*

  5. A Mylena tem toda razão, nunca, em nenhum momento da vida, seja com quantos anos for, voce não sabe se fez a escolha certa… mas o gosto da vida talvez seja esse também, o de saber que existem outras opções e que, a qualquer hora, qualquer momento podemos mudar a direção das nossas vidas, claro que levando em consideração que para cada ação sempre existirá uma reação…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s