Como curar um fanático – Amós Oz

Sabe quando você acaba de ler um livro e quer muito falar sobre ele mas não sabe como? Pois bem, tive essa sensação ao ler Contra o Fanatismo de Amós Oz. Antes de começar queria dizer uma coisa chata e generalizadora sobre o livro: todo mundo deveria lê-lo. Sei que nesse primeiro parágrafo já perdi metade dos meus 10 fiéis seguidores, mas acho isso de verdade.

O livro merece ser lido e relido por quem se interessa por política, por história, por literatura, por religião, pela humanidade. Ele é composto por três conferências proferidas na Europa em 2002, os títulos são: “Como curar um fanático?”, “Israel e Palestina: entre o certo e o certo” e “O antídoto da imaginação”. Todas essas conferências e o prefácio somam 105 páginas. A edição da Ediouro é bem bonita, com uma capa amarela e folhas de boa qualidade. Mas os textos… Ah, os textos…

Li o livro emprestado, e de início achei muito engraçado o dono só grifar passagens da primeira conferência. Já fui pensando logo “olha só, leu só o comecinho e fica botando banca por aí”! Ledo engano… Minha vontade ao começar a ler o livro era também marcar tudo, todos os parágrafos da primeira conferência eram interessantes. Quando o texto é assim, será que vale a pena grifar? Antes de terminar a leitura reli a primeira conferência e posso afirmar, cada vez que ler gostarei de um pedaço dela. Assim, acabei entendendo o dono do livro, tem horas que a leitura supera o grifo.

Minha relutância em escrever sobre o livro se deve principalmente ao meu desconhecimento quase infantil dos conflitos palestino-israelenses. Admito minha culpa e ignorância publicamente (assim como diversas outras que admiti e admitirei aqui no blog) mas reforço o pedido: leiam o livro, mesmo que não saibam nada sobre o conflito, mesmo que não entendam nada de política, mesmo que não gostem de literatura. Ele vale a pena.

Muitas passagens me fizeram pensar no papel da literatura e da história. Desisti de selecionar passagens da primeira conferência, acabei recorrendo às duas últimas e consegui, com dor no coração, selecionar algumas.

“Precisamos de um senso de justiça, mas precisamos também de senso comum, de imaginação, de uma capacidade profunda de imaginar o outro, às vezes de nos colocarmos na pele do outro. Precisamos da capacidade racional de nos comprometer e, às vezes, de fazer sacrifícios e concessões”. p. 53

“Os israelenses discutem, eu discuto. E ainda assim sou eu quem me levanto toda manhã, faço uma pequena caminhada no deserto, faço uma xícara de café, sento em minha escrivaninha e começo a perguntar-me: ‘Como me sentiria se fosse ela? Como seria estar na pele dele?’ – o que é o que se tem a fazer se se quer escrever até o mais simples dos diálogos: é preciso dividir não apenas sua lealdade, mas até seus sentimentos viscerais entre os diversos personagens. Creio que estou parafraseando D. H. Lawrence, que disse certa vez que, para escrever um romance, você tem que ser capas de referendar meia dúzia de sentimentos e opiniões diferentes, conflituosos e contraditórios, com o mesmo grau de convicção, veemência e empatia. Então, talvez eu seja um pouco mais bem equipado do que outras pessoas para entender, do meu ponto de vista judaico-israelense, como é o sentimento de ser um palestino deslocado, um árabe palestino cuja terra natal foi tomada por ‘alienígenas de outro planeta’.” p. 94

 “Nunca escrevi uma história ou romance com o intuito de simplesmente enviar uma mensagem política direta, tal como ‘parem de construir assentamentos nos territórios ocupados’ ou ‘reconheçam o direito dos palestinos a Jerusalém Oriental’. Nunca escrevo um romance alegórico a fim de dizer a meu povo ou a meu governo para fazer isso ou aquilo. Para isso, utilizo meus artigos. Se há uma mensagem metapolítica em meus romances, é sempre uma mensagem, de uma maneira ou de outra, de um compromisso, compromisso doloroso, e da necessidade de escolher a vida em lugar da morte, a imperfeição da vida em lugar das perfeições da morte gloriosa”. p. 98/9.

Espero não estragar as surpresas do livro com essas passagens. Uma das minhas escolhidas foi a última frase do livro, mas achei melhor não colocá-la aqui, não quis estragar o gran finale.

Depois desses trechos só posso dizer que pensar a literatura como a possibilidade de se colocar no lugar do outro me interessa muito. Parece-me um critério válido e interessante para analisar uma produção absurdamente extensa de livros. Como no vídeo de Chimamanda Ngozi Adichie, a autora de Hibisco Roxo, (se você ainda não viu o vídeo corre pra ver! E também tem resenha do livro dela aqui e aqui ó) nosso maior problema em entender o outro é pensá-lo como uma única história. Nenhum de nós é uma única história. Quantas vezes mudamos? Quantas vezes guardamos sentimentos contraditórios dentro de nós? Por que um grupo deveria ter a homogeneidade de uma só história, se nem nós, que somos um e somos vários, conseguimos nossa própria unidade?

O livro me encantou. E pretendo levar essa experiência de literatura como o lugar da pluralidade de pessoas pra vida.

“Era talvez meu hábito ‘profissional’ de colocar-me no lugar, ou na pele, dos outros. Isso não significa que sempre justifico esses outros, mas que tenho a capacidade de enxergar seus pontos de vista” p. 95.

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Título: Contra o Fanatismo

Autor: Amós Oz

Tradutora:  Denise Cabral de Oliveira

Editora: Ediouro

Páginas: 105

Ano: 2002 (inglês) e 2004 (português).

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PS: Gostaria de ler um livro assim escrito por um palestino, alguma indicação?

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21 pensamentos sobre “Como curar um fanático – Amós Oz

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  3. Olha, depois desse texto que erroneamente vc diz que não sabia como escrever, já que escreveu magnificamente até eu fiquei com vontade de ler esse também, sendo assim segue a seguinte frase:
    ” Filha, compra ele pra mamãe….”

  4. Como sempre eu venho aqui e um livro novo vai pra minha lista de querências, rsrsrs
    amei a resenha *-* nas primeiras linhas eu já estava procurando o livro nas livrarias virtuais :x

  5. Olá Luara!
    Impossível não ficar com vontade de ler esta obra depois de ler teu texto. Gosto muito do Amós, com certeza vou caçar um exemplar e passar ele na frente da extensa lista de leituras. Parabéns pela tua escrita, apesar de dizeres na introdução que não sabia como falar do livro, tu escrevestes um texto envolvente.
    até mais…

  6. Eu sempre penso que qualquer modo de fanatismo torna uma pessoa alienada e afetada. Me interessei muito pelo livro. Vou colocar na minha lista do skoob. Antes também vou pesquisar sobre o conflito.
    Beijos
    Bom Fim de semana!
    Adoro seu blog!

  7. Oi Luara! Adorei a resenha, fiquei com muita vontade de ler o livro.
    Bom… eu comprei os quadrinhos do Joe Sacco “Palestina” e “Notas sobre gaza” (um é da conrad e o outro é da compania das letras) e acho que são muito legais para saber mais um pouco desse tema… bjs

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