#DL2012: Minha querida Sputnik – Haruki Murakami

minha-querida-sputnikMinha primeira impressão de Minha querida Sputnik não foi das melhores. Pensei logo de cara: “Um livro sobre escritores? Que original!”

Mesmo assim continuei a leitura. Já abandonei diversos livros, mas esse é um recurso de último caso, na maioria das vezes vou tentando até me sentir atraída pela história. Acho que a atração aconteceu por volta da página 30, permanecendo até o fim do livro.

+1: pontos positivos

A maneira como todo o livro foi escrito me deixou encantada! Tinha vontade de continuar lendo mesmo quando estava com muito sono (normalmente leio antes de dormir). No ônibus (outro lugar frequente de leitura) quase descia no ponto errado, de tanta vontade de continuar lendo.

Já disse algumas vezes isso no blog, não quero ser escritora. Nunca foi minha pretensão. Para falar bem a verdade não sei o que quero ser, só sei o que estou sendo enquanto a vida caminha, e acho que não há nada de errado nisso. Mesmo assim, devo admitir que me aproximei do narrador, um professor primário que decide escrever a história de sua amiga Sumire, de suas dúvidas e vontades. Vale frisar: não acredito que para se aproximar de um personagem seja preciso se identificar com tudo que ele faz, como já disse em outro post, a possibilidade de se colocar em um lugar que não é regularmente seu é um dos pontos fortes da literatura.

Outra característica que me agradou muito foi ler sobre o Japão. O último escritor japonês que li (Kazuo Ishiguro) mora na Inglaterra há tempos e seus romances têm o toque inglês que estamos acostumados. Com Murakami o Japão apareceu sem paliativos. Claro, não acredito que tenha vivenciado uma “experiência genuinamente japonesa” com esse livro, mas me senti de alguma forma mais próxima do que alguma vez já fui.

Não quero desmerecer a escrita de Ishiguro, Um artista do mundo flutuante foi um dos livros mais legais que já li! Pude conhecer e perceber várias facetas do Japão que me eram completamente desconhecidas. Mas mesmo nesse romance em solo japonês, Ishiguro me parece ter um toque de Europa, de Inglaterra, um toque de proximidade que não sinto frequentemente com o Japão.

Voltando ao Murakami, que afinal de contas é o motivo da escrita desse post, posso dizer que em uma impressão geral eu gostei do romance. Mas como nem tudo são flores, vamos às partes nem tão alegres.

-1: pontos negativos

Devo admitir primeiro que li esse livro com grande expectativa. Depois do Isherwood estou procurando um novo autor para me apaixonar. Durante algum tempo, achei que Haruki Murakami fosse o nome para o serviço. Sei que quando lemos um livro sobre o qual temos grandes expectativas, a chance de decepção é grande. Mas também sei que é inevitável formar algumas ideias de sobre como aquele livro irá te afetar.

Dito isto posso começar a explicar que ser apresentada, logo de início, a uma aspirante a escritora me deixou um pouco irritada. Ler sobre escritores e sobre o ato de escrever é muito legal, mas acredito que o tema esteja tomando proporções grandes demais. A literatura nos dá a possibilidade de interagir em cotidianos que não são nossos, certo? Mas qual seria então o motivo para que o leitor sempre quisesse ser “possibilitado” a ser escritor? Claro, existem obras incríveis que nos levam a pensar a literatura em suas possibilidades (como o conto do Henry James, “O desenho do tapete”), mas será que não podemos também ser padeiros, pescadores, pintores, professores ou puxadores? Acredito que sim.

Expresso esse primeiro ponto de “irritância” posso afirmar com toda certeza: não sei por que o romance não me arrebatou. Se fossemos fazer uma listinha de quesitos que um livro deve ter para agradar a Luara, teríamos:

(X) Ser gostoso de ler.

(X) Ser bem escrito.

(X) Me deixar intrigada com a leitura.

(X) Me fazer pensar sobre alguma coisa fora do universo da trama do livro.

(X) Ter um desenvolvimento legal.

(X) Apresentar personagens interessantes.

(X) Ter boas descrições (podendo ser longas ou curtas, tanto faz).

(X) Me deixar, em qualquer momento e por qualquer motivo, surpresa.

(  ) Me arrebatar.

Minha querida Sputnik “cumpriu” quase todos os papéis, mas não me arrebatou.

Acho que aqui entra o botãozinho mágico e pessoal da literatura: o gosto. Não digo que não gostei do livro, mas ele não me fez querer comprar 20 cópias e distribuí-las nos pontos de ônibus da cidade. E infelizmente, era isso que eu esperava desse livro.

Acho que, afinal de contas, a maior culpada por essa falta de arrebatamento foi minha mania que esperar demais das coisas. Se tivesse lido o livro só pela sua capa bonita e edição caprichada, talvez tivesse gostado mais.

Não desistirei totalmente do Murakami, já comprei Norwegian Wood e lerei em breve. Vamos ver se agora, com as expectativas no lugar, consigo me entregar mais.

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PS: Tem uma perfumaria em Taubaté (minha cidade natal) que se chama “Sumirê”. Foi impossível não ler o nome da personagem como o da perfumaria durante o romance! ;)

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24 pensamentos sobre “#DL2012: Minha querida Sputnik – Haruki Murakami

  1. Pingback: O sentido de um fim – Julian Barnes | ao rés do chão

  2. Bom acho que sou meio fan do Murakami, li Norwegian Wood quando saiu no Brasil e adorei o livro, depois de alguns anos li ” La fine del mondo e il paese delle meraviglie” que eu também adorei mas me deixou intrigado, ele não parecia de nenhuma maneira ter sido escrito pela mesma pessoa que tinha escrito Norwegian Wood (por sinal uma de minhas músicas preferidas ever). Na sequencia li Le passage de la nuit, 2x, a segunda vez em italiano (After Dark, países diferentes + títulos diferentes= leitor comprando dobrado) e passei a seguir uma sugestão pega lá no Meia-palavra, comecei a ler Murakami escutando as músicas que ele cita no livro. Continuei achando que não era o mesmo escritor, agora dos dois livros anteriores.
    Les amants du Sputnick foi meu quarto Murakami, gostei também e a sensação de estranheza com o autor enfim acabou passando.
    Li também La Course au mouton sauvage que foi até agora o que menos gostei e estou brigando com a preguiça para enfrentar Kafka sur le rivage.
    Antes que eu me esqueça:
    1- parabéns, muito bom seu blog e seus videos.
    2- de mais uma chance para o Murakami, ele merece.
    3- acho Norwegian Wood um livro muito tocante, mas ele é completamente diferente do restante da obra do Murakami

  3. Pingback: Livro: Como ser mulher – Caitlin Moran « Isaac Sabe!

  4. Oi Luara!!
    gostei muito do seu post, terminei de ler “minha querida sputnik” esses dias atras, também fiquei meio decepcionada com a historia, mesmo tendo gostado muito, eu moro em taubaté e como você mesma comentou no post acima sempre que lia o nome de Sumire me lembrava da perfumaria hahahah.

    Parabens pela pagina, gostei muito mesmo :)

    bjus

  5. Resenha ótima, com argumentos instigantes, mas enquanto a lia até o fim, só conseguia pensar: “Uau! Ela consegue ler em ônibus!” Taí, uma competência de leitura que muito invejo. Bjs!

    • hahahahaha! Eu consigo! Mas o livro tem que permitir também sabe? O tal “Vício Inerente” que estou lendo agora é um dos que entra em bloqueio assim que subo no ônibus!

  6. Eu tenho tido um interesse maior por estes livros de escritores japoneses publicados por aqui pela Alfaguara. E praticamente todo esse meu interesse está se dando pelo Desafio Literário, o qual trouxe esse mês mais títulos envolvendo a temática, uma vez que antes eu só lembrava de imediato do tão falado “Nunca me abandone jamais” – e assim mesmo por conta da adaptação. O livro parece ser bem interessante. Vai para a lista :)

    Beijos,

    Victor

  7. Olá!
    Ainda não li nenhum livro do Murakami, mas tenho alguns na lista. Pelo que tenho lido na internet, muita gente não gosta de Minha querida Sputinik, mas fez avaliações positivas sobre os outros livros do autor. Quem sabe no próximo você seja arrebatada?
    Aliás, tem um filme do Norwegian Wood, de um diretor vietnamita. Não sei se vc curte ler o livro e ver o filme, mas fica a dica ;)
    bjo

    • vc tem razão Michelle… Eu até já comprei o Norwegian Wood, mas confesso que fiquei um pouco assustada com o tamanho! rs

      Certeza que depois de ler vou ver o filme! Obrigada pela dica!

      • Gente, eu adoro o Norwegian. Li três vezes. Mas vi o filme e não gostei.
        Acho que até vale ver, mas o livro é infinitamente melhor.

        Só que eu fico um pouco na dúvida se o Norwegian é realmente bom eu se eu gosto tanto por alguma identificação que rolou, sabe? Às vezes o livro te toca de um jeito e ele nem é bom, mas você gosta. hahahahaha

        Se você ler, faz um post pra eu saber uma outra opinião. =)

        Eu gostei do Minha querida, mas faz algum tempo que li, então não lembro tão bem. Não foi tão apaixonante, não tanto quanto o Norwegian foi para mim, mas valeu a leitura.

        Eu gosto do Murakami, mas não acho ele tão genial. Não é assim um grande clássico, ou escritor super inovador na forma e no conteúdo e tal. Mas há algumas coisas que aparecem nos livros dele que gosto bastante, então sempre acabo lendo mais um.

        O que eu gosto nos livros dele é que tem uma sensibilidade bonita para falar dos relacionamentos, gosto do jeito que ele escreve e também de ver a juventude do Japão nos livros, acho interessante essa coisa da cultura pop que está bem presente, entre outras coisas.

        O engraçado é que eu não lembrava do livro tanto como a história de uma personagem que quer ser escritora, eu lembrava mais da coisa do relacionamento e das mudanças e amadurecimento da personagem, não só como alguém que quer escrever, mas na vida mesmo.

        =)

  8. Oi Lu!
    Ai, tô nervosa que meu livro não chega nunca!! Quero ler logo. Eu não tenho muitas expectativas, não sei se vou gostar, mas confesso que escolhi esse título justamente pelo personagem escritor hehehe. Se a gente pode ser o que quiser ser na ficção, quero ser escritora hahahaha Mas só na ficção!
    Adorei a resenha e a comparação entre os dois autores.
    Beijocas!

  9. Olá Luara!
    Muito bom esse post! Não conheço o autor, me interessei.
    Concordo com vc que não necessariamente precisamos nos identificar totalmente com um personagem para nos sentirmos próximos dele, eu costumo me identificar muito com personagens e situações totalmente diferentes da minha.
    Não sei se foi esse o caso, mas quando tenho muita expectativa com algum livro ou filme, acabo me frustrando um pouco…
    Ah, aqui em SP tb tem Sumirê!!!!

  10. Oi, Luara. Olha, falando em universo japonês, peço que investigue o escritor Iasunari Kawabata (não sei se escrevi correto e não fui me certificar da grafia). Eu li ‘O País das Neves’ e achei lindo. Ele é um escritor totalmente japonês, sem interferência ocidental. Pesquise. Vale muito a pena! Beijos!

  11. Oi, Luara!
    Ja faz uns três anos que li esse livro e gostei, achei muito bom! Foi meu primeiro contato com a literatura de Murakami – e confesso que me senti muito mais perto do Japão, um país que tenho loucura pra conhecer.
    Do Ishiguro eu gosto tb, mas li apenas “Não me abandone Jamais”, vc conhece? E como esse romance é ambientado na Inglaterra, nem percebi que estava lendo um autor japonês.
    Eu concordo com vc, um livro precisa mesmo arrebatar o leitor, e o melhor é começar a leitura sem muita expectativa pra não ficar decepcionada depois.
    Boa resenha!!
    Bjo

  12. Legal, Luara! Ultimamente tem aparecido muitos autores que escrevem para escritores, isso me irritou um pouco em Doutor Pasavento, do Vila-Matas. O que você falou no post bate um pouco com o que senti lendo esse livro. De qualquer forma tenho curiosidade com o Murakami, espero ler alguma coisa dele em breve. Beijinho! =)

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