Ubik – Philip K. Dick

cover84Uma das coisas que mais gosto quando estou lendo ficção científica é o começo do livro. Ser jogada em um ambiente com o qual não temos nenhuma familiaridade é incrível! Já nas primeiras páginas dos livros de FC somos levados a pensar: a linguagem que usamos é assim tão natural? Nossas roupas? Nossos eletrodomésticos? Nossos jornais? Claro, depois de um tempo você vai encontrando semelhanças (ou vai construindo equivalências) entre o mundo do livro e o seu, mas em um primeiro momento você questiona quase toda sua naturalização.

Só isso, pra mim, já é muito. Vamos ler o primeiro parágrafo de Ubik.

Amigos, é hora da limpeza. Estamos com descontos em todos os nossos Ubiks eletrônicos e silenciosos, poupando-lhes muito dinheiro. Sim, entramos em liquidação total. E lembrem-se: cada Ubik do nosso lote foi usado apenas conforme as instruções.

Às 3h30 da madrugada de 5 de junho de 1992, o maior telepata do Sistema Sol sumiu do mapa nos escritórios da Runciter e Associados em Nova York. Os vidfones começaram a tocar. A organização Runciter havia perdido demais a localização dos psis de Holli nos últimos dois meses. O novo desaparecimento era inaceitável.

Você sabe data e local, mas é impossível compreender o que realmente está acontecendo. É esse sentimento de desamparo que me atrai. Não espere entendimento total, não espere facilidade, espere ser tragado para o livro.

Comecei a ler Ubik sem nunca ter lido nenhum resumo, nenhuma resenha, nem a orelha do livro. Sabia que alguma coisa sobre vida depois da morte estava envolvida, mas só. Se pudesse dar um conselho para quem quer ler o livro, seria esse: não leia nada sobre Ubik, leia primeiro o livro. Pare de ler esse post e o guarde nos favoritos até depois da leitura. Sério. Não farei nenhuma revelação sobre o enredo, juro, mas mesmo assim acho legal colocar a cara pra bater.

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Agora que você já leu o livro posso ser um pouco mais sincera. O livro me conquistou. Não estou dizendo que seja um livro perfeito. Aliás, dificilmente os livros que nos atraem de verdade são perfeitos, perfeição é para crítica, não para o leitor.

Li as primeiras 150 páginas de uma vez. Me dei uma semana de férias após a defesa do mestrado (e durante a Rio+20) e tinha tempo. Parei no meio do livro porque estava levando uma surra. Fiquei confusa, não entendi os saltos temporais. Fechei o livro, joguei Bejeweled e dormi. No outro dia terminei o livro. Essa pausa da bateria foi fundamental.

Terminei o livro com a sensação de “mano, PKD é meu herói”. Depois que o livro foi “esfriando” na minha cabeça comecei a pensar em pontos negativos, mas ainda assim acho um livraço!

O ponto “negativo” do livro, pra mim, são os personagens pouco marcantes. Por que Joe Chip? Ele, como personagem, me “pegou” em algum momento? Não. O mais importante no livro foi a trama, a história, os acontecimentos, o desenrolar. Isso não é necessariamente ruim, mas é um ponto a ser observado. Parei para pensar nos outros livros que li de PKD, sem personagens icônicos. Em O homem do castelo alto o livro “O gafanhoto torna-se pesado” é o personagem mais marcante! Em O caçador de androides eu não sei se o personagem ficou na lembrança ou se foi o Harrison Ford (o personagem do filme e do livro se misturam na minha memória, mesmo que a história de um e de outro não). Enfim, não sei se  essa é uma característica de PKD.

E isso é bem diferente de quando penso em A mão esquerda da escuridão, Genly vem à minha cabeça. Claro que o planeta Inverno também aparece como personagem importante. Mas as características de Genly também.

Acho que em Ubik existe tanto a ser dito que cada personagem se transforma em um “emissário” da história. Suas características somem um pouco em meio a grandeza dos acontecimentos. Isso não faz, de modo algum, que o livro seja menos interessante. É um soco no estômago. Mas confesso que não desbancou Le Guin do meu coração.

Dizem por aí que Ubik virará filme. Bem, esperemos. Ou melhor, esperemos para que o futuro diretor seja mais Ridley Scott de Blade Runner que Ridley Scott de Prometheus (shame on you Ridley, shame on you).

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Título: Ubik

Título original: Ubik

Autor: Philip K. Dick

Tradutor: Ludimila Hashimoto

Ano: 1969 (inglês) e 2009 (português)

Editora: Aleph, aquela linda

Páginas:  238

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14 pensamentos sobre “Ubik – Philip K. Dick

  1. Acabei de ler agora, Luara. Concordo com você, os personagens poderiam ter causado um envolvimento maior. Senti falta de uma relação mais sincera entre eles também, por exemplo no caso de Wendy e Chip. Fiquei até chocada quando ele assume o que sente por ela, pois a relação é completamente distante. Talvez seja proposital, talvez tenha sido uma estratégia de colocar a questão existencial acima das questões cotidianas. Um aviso de que as relações são realmente frágeis (Bauman feelings) diante de um mundo ideal – no sentido de mundo das ideias mesmo. De toda forma, o livro é sensacional. De novo, obrigada pela dica.

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  6. Olá Luara, uma pergunta para vc. Pode parecer muito boba, ou obter uma resposta ainda bem curta e seca, mas lá vai: indicar/recomendar ou não estes livros fabulosos que vc já comentou nos vídeos “Mistura Geral” para meus alunos menores de 18 anos, diante de nosso estatuto da Criança e do Adolescente, e diante desta censura “adaptante” da literatura circulante brasileira? Já que na Europa e em países leitores as crianças e jovens tem acesso e leem autores vários independente de idade. O que fazer nesses colégios de ensino fundamental que pregam um falso puritanismo? E com relação aos pais puritanos desses alunos?

    • Marcos, realmente não percebo essa “censura” que você fala. Poderia me explicar?
      Quanto aos alunos, na minha opinião, a última decisão tem que ser dos pais. Se eles falarem “não”, eu acato na hora!
      Era essa sua dúvida???

      • Luara, a questão é a seguinte, você acha correto essas adaptações infanto-juvenis? E a proibição de livros como “A Sombra do Vento” para alunos de 9º ano, só por conter alguns palavrões e alguns episódios picantes (que não são eróticos como “50 tons de cinza” por exemplo)? Foi o que sofri em um determinando colégio em Recife, que não era colégio de freira!

      • Olha, nunca li nenhuma dessas adaptações. Mas fiquei sabendo que existem alguns quadrinhos bem bacanas! Acho que é o caso de examinar um por um…
        Quanto à proibição de livros, acho que deve existir um consenso entre escola, professores e pais. É importante conversar no começo do ano sobre os livros que serão lidos. Pelo menos é o que eu faço. Agora, se ainda assim nada se resolver, acho que cabe à direção ficar com o “pepino”. A direção, pra mim, representa o perfil da escola, e os pais e professores devem que se identificar com esse perfil (se for uma escola particular, claro).
        O que você acha?

  7. Pingback: O que andei lendo (e comprando) « Isaac Sabe!

  8. Acho muito interessante essa sensação de estranhamento que a Ficção Científica provoca, de certa forma, pondo em cheque nossa concepção de real e do possível. Alimenta a imaginação, mas problematiza – nem que seja um pouquinho – as convenções que a sociedade criou para manter a ordem.
    Quanto a personagens pouco marcantes, também acho que isso fique a critério das intenções do autor. Uma narrativa avassaladora pode ser constituída de outros elementos e adoro quando um livro rompe com meus hábitos de leitura e mostra outros caminhos narrativos.
    Abraços,

    • Também acho ótimo descobrir novos lados… Mas me questiono se esse não é o estilo do PKD, pelo menos até agora foi o que encontrei nos livros deles, uma história que “engole” o personagem sabe?

  9. Estou fazendo exatamente isso (é algo que faço de uma maneira geral), não li muita coisa sobre Ubik pois quero ler em breve (depois volto pra ler teu comentário). Esse sentimento de desamparo estou tendo com o Neuromancer agora. =) Bj!

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