Serena – Ian McEwan

13355_ggUma das minhas frustrações literárias é não ter lido Reparação antes de ver o filme Desejo e Reparação. Se você ainda não cometeu esse erro peço que guarde o filme para depois do livro. Você concordará comigo que é o certo a fazer.

Pois bem, isso me deixou com uma implicância pessoal com McEwan. Eu tinha estragado um possível futuro romance com o escritor, e não me perdoaria com rapidez. Deixei passar Na praia, Amor sem fim não me foi muito bem recomendado pelo namorado, Amsterdam está na lista de livros que lerei um dia, e cheguei em Serena. Gostei da ideia de ter um lançamento mundial de peso no Brasil, achei interessante e me senti um pouquinho importante. Depois ainda li o texto da Camila Kehl no Livros Abertos. Resolvi que leria.

O começo do livro me prendeu. Acho que vale a pena reproduzir o primeiro parágrafo (que apareceu em quase todos os textos sobre o livro, é um jeito seguro de citar sem spoilers):

“Meu nome é Serena Frome (a pronúncia é Frum) e há quase quarenta anos fui enviada numa missão secreta do Serviço de Segurança britânico. Eu não voltei em segurança. Um ano e meio depois de entrar fui despedida, depois de ter caído em desgraça e acabado com a vida do meu namorado, embora ele certamente tenha tido um pouco a ver com sua própria queda”.

É um pouco difícil fechar o livro de um autor renomado que vai tratar de espionagem. Acho que Serena te pega já nas primeiras linhas.

Não quero estragar a surpresa de ninguém com o livro, vou só escrever minhas impressões (o que deve ser errado para alguns, ainda estou digerindo esse artigo, quem sabe escreva minhas opiniões e achismos sobre ele mais pra frente).

Logo depois de ser pega pelo livro me interessei por ver uma narradora feminina (Serena) sendo escrita por um homem (McEwan). Ele descreve pensamentos íntimos e temos poucos diálogos. Um exercício interessante para falar o mínimo. Serena me deixou com raiva, com implicância, com medo e no fundo com alguma identificação. Ela se apresentou como uma narradora da qual não é possível ser indiferente. Você pode até detestá-la mas não pode ser impassível a ela. Em alguns momentos durante a leitura fui possuída por um espírito de superioridade e odiei Serena. “Que mulher chata”, “que pessoa morna”, “que vida estranha”. Mas em outros períodos senti alguma identificação com a personagem (escolhi não transcrever trechos do romance, mais pra frente explico o porquê).

Já escrevi aqui no blog meu nariz torto para a meta-escritorização generalizada. De uns tempos para cá parece que todos os livros que pego são feitos para escritores. Fala-se sobre o ofício do escritor, sobre os dissabores editoriais, sobre o medo da recepção do público. Enfim, sobre o escritor. Reluto em chamar tal atitude de metaliteratura. Metaliteratura vai além disso. Ela não trata somente dos problemas e anseios do escritor, ela trata do que a literatura pode ser, do que ela causa, do papel que pode ocupar e, por que não, dos leitores. Livros sobre escritores podem, e tendem a ser, menos metaliterários que o necessário.

Dito isso volto ao livro. Serena mostra uma preocupação com a literatura, ela é um pouco mais ampla do que o binômio escritor-seusproblemas, mas ainda não me pareceu suficiente. Acho que encontrei a expressão certa, Serena não me pareceu suficiente.

Mais uma vez digo que a culpa pode ser minha. Esperei tanto para começar minha relação com McEwan que posso ter tirado a mágica da descoberta. Esperava um escritor que fosse mudar alguns dos meus preceitos, encontrei um escritor que escreve bem, muito bem.

A escrita de McEwan é extremamente prazerosa. Não me pareceu arrastada ou incompleta em nenhum momento. Mas não foi suficiente. Não ouvi sinos nem tive corações surgindo diante dos olhos. Foi um bom livro. E eu esperava mais.

Uma das melhores partes da leitura foi encontrar grandes frases. Frases que pulavam diante dos meus olhos, destoando da temperatura morna em que me encontrava. Essas frases no geral me pareciam deslocadas do restante do romance, mas acho que isso é natural quando se gosta de algum trecho. Parece que aquelas palavras são tão melhores que todo o resto que um marca-texto invisível já tinha grifado aquela passagem para você. Por isso resolvi não transcrever nenhum trecho do livro aqui. Seria injusto com os próximos leitores.

Como tinha prometido um texto sem spoilers (mesmo que o próprio McEwan tenha dado um spoiler violento em sua mesa da Flip) não vou contar o motivo, mas aconselho que se começar o livro vá até o fim. As últimas páginas valem a pena.

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[SPOILERS]

Vou deixar uma pergunta aqui embaixo para quem leu o livro. Depois da leitura venha dar uma olhada, ok?

Agora que você já leu o livro me diga se sua impressão é a mesa: McEwan se mostra melhor como Tom Healy do que como Serena? A impressão que tive foi que as últimas páginas foram melhores e mais fluídas. Você também achou isso? Respondam nos comentários, mas coloquem um aviso se a resposta estiver com spoilers, ok?

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17 pensamentos sobre “Serena – Ian McEwan

  1. Pingback: Serena – Ian McEwan « Ficções do Interlúnio

  2. Spoiler alert (Dalek voice)

    Sobre o meu Ivan queridinho. Eu falo McÍvan, o pessoal implica, mas já virou apelido, etc. O final de Serena me desapontou um pouco, porque geralmente o Ian é trágico, Serena não teve nada de trágico. Nem sei como ela não voltou salva da missão, ela pegou todos bofes que ela queria no livro. Acho que até poesia ela passou a se dar melhor. Ela saiu vencedora. Achei muito draminha pra prender leitor. Fora que os finais dos livros de Jonas, que tá na Bíblia, e de Hollywood, do Bukowski, tem um final parecido. Aí achei meio passado. Porque se o trunfo de toda a história foi que era um livro do do Tom, não me agradou. Sobre Trunfos: o final de Reparação é um pouco diferente do filme, viu? Acho que o Joe ficou com dó de quem não leu e mudou umas coisas. Não é muito berrante o que ele mudou, mas pra mim foi uma felicidade imensa quando vi que tinha algo a mais no fim do livro. <3 Mas os livros do Ian eu gosto de olhar sob ('tá certo, professora?) dois ângulos diferentes. O primeiro é da história em si, suas reviravoltas e tudo mais. O segundo é sobre os relações que as personagens estabelecem, a personalidade delas, etc. Acho que ele é muito feliz em estruturar personagens e relações. Ele é muito cru ao retratar tudo, embora às vezes ele exagere nos acontecimentos, ainda continuo achando muito verídico a elaboração de cada componente da história. Acabei de ler Amsterdão hoje de madrugada. O Ian disse que sem ele não haveria Reparação, ainda quero entender a razão. Acho que falar tanto do Ian me fez perder o foco do que eu queria realmente falar, então…

  3. Pingback: Vídeo: O que andei lendo e comprando « Isaac Sabe!

  4. Se você está com siricutico para ler, leia, mesmo que tenha visto o filme! Você não vai perder tempo, nem vai achar um livro ruim, porque é muito bem escrito e eu considero uma boa história, o livro é rico em detalhes e o filme abordou apenas superficialmente cada um dos personagens, que são peculiares e bem interessantes e o Mcwan guardou muitas coisas para o final…Que é diferente do filme! Daí já é um motivo para se ler o livro.

    Só não se esqueça que assim que você o ler, o poste aqui no blog, para saber a sua experiência com o Reparação.

    Beijo.

  5. Luara, acompanho sempre que dá seu blog!
    Habitualmente não comento, mas gosto muito do vejo e leio por aqui!
    Senti a necessidade de comentar sobre o Mcwan exatamente porque passei por duas situações contraditórias com ele…
    Comecei com Reparação dele e achei simplesmente lindo e muito bem escrito, apesar de efadonho no começo (mas acho todo começo de livro efadonho, uahsuau) mas depois que peguei o ritmo a leitura fluiu e achei um belo romance, com personagens interessantes, com todas os elogios possíveis, se tiver que ler um livro do Mcwan recomendaria sem pestanejar esse.
    Depois de algum tempo, comprei o amor sem fim e comecei a ler e… Não gostei, achei chato e meio bobo.
    Com relação ao Mcwan sempre ouvi bons comentários a respeito da sua obra, como o Na Praia e Sábado.
    Penso, que com a literatura tem que rolar a mesma química que na amizade e em relacionamentos, simplesmente não rola, as vezes…Confesso que torço um pouco o nariz para Machado de Assis, já li alguns de seus livros, para apreciar ou mesmo para tentar encontrar aquilo que as pessoas tanto gostam dele e simplesmente não rolou “quimica” entre nós uahsuahsuah…Indico, apenas que se você quiser muito ler o Mcwan vá de Reparação que acho que você vai gostar!
    É isso!

    Beijo e vida longa ao blog!

  6. Eu sou um perdido e ainda não vi “Desejo e Reparação”. Ainda tenho a chance de ler o livro antes do filme! ahaha E pretendo fazer isso em breve. O Ian McEwan é um autor que eu quero ler faz muito tempo, mas, infelizmente, ele está numa lista com vários outros escritores, então é difícil da vez dele chegar efetivamente. Contudo, vou fazer uma forcinha para ler “Reparação” ainda esse ano. Quem sabe lendo ele primeiro eu não gosto mais de “Serena”? Espero que sim :) Contudo, devo confessar que sua resenha me despertou bastante o interesse por esse novo livro do autor, talvez até mais do que esse primeiro que em mencionei. Obrigado mais uma vez pela ótima dica de leitura.

    Beijos,

    Victor

  7. Você é a segunda pessoa que vejo dizer que o final deste livro é o que realmente vale a pena. Sabe que isso me faz ficar com dois pés atrás? Porque uma leitura tem que ser boa durante e no fim, não tem? Se for só no final, podemos considerar uma boa obra, generalizando? rsrsrs Não sei… De qualquer forma, ainda quero começar por “Reparação”, mas esse “Serena” me intrigou… rs Bjos!

  8. Sobre Serena e McEwan: Nunca li nada dele. Tenho lá, guardado, o ‘A praia’, que dentre todos foi o que mais me chamou a atenção. Mas falta empolgação pra ler o bendito.
    Quanto a metalinguagem , tb estou cansada, mas mais especificamente do Vila-Matas. Li o ‘Bartleby & Cia’ e depois o ‘História abreviada da literatura portátil’, mas só pq ganhei no twitter e queria ver qualé (vi. era a mesma coisa. Não que não qualidades, ambos os livros, mas era, no fundo, mais do mesmo). Duvido q volte a pegar um exemplar do Vila-Matas. Tb acho que os escritores estão todos muito voltados para si, mas isso eu até entendo. Normalmente, hj em dia, boa parte deles é egocentrista. A literatura (e não acho q seja só jo Brasil) virou um espetáculo. Dão palestras, aparecem na TV, falam no rádio, possuem twitter e publicam em blogs… E aí chegamos ao artigo do sr. Fernando Monteiro.
    Compartilho com algumas das preocupações (por assim dizer) dele. Como p.ex. a questão da wikipédia e da informação que desinforma. Mas não acho correto uma pessoa que critica o tempo da ditadura querer instalá-la num veículo (a web) tão democratizado (não vamos entrar na questão de que muitos ainda não possuem acesso a internet) onde podem expressar suas impressões (ou exercerem sua criatividade – eu, como prof., por formação, não penso nem de longe que seja digno, num país como o nosso, boicotar qq tipo de iniciativa ou de exercício – ainda que medíocre pros acadêmicos – da dona de casa ou do adolescente que poetizam. A questão é justamente essa: o q é arte e QUEM determina o q é? Os acadêmicos? O autor? O público?). Não entendo como podem menosprezar a opinião de quem leu, de quem assistiu, de quem ouviu. Não é pra ser recebido por esse público que a obra é feita? Ou fazem tão-somente para a crítica? enfim, enfim… O que deixa uma ponta de indignação nesse texto de F.Monteiro é o tom arrogante com que ele expõe as questões, mas vc sabe, ele é escritor, então uma polemicazinha faz parte do show.

    Beijo e desculpa o comentário loooooongo.

    • Não precisa pedir desculpa não Aline!
      Eu fiquei muito irritada com o texto do Fernando Monteiro. O ar de superioridade que você descreveu é quase palpável. Enfim, triste.
      Estou pensando seriamente em escrever alguma coisa sobre essa “onda” de criticar tudo que é escrito na internet, como se isso fosse minar o trabalho de críticos “sérios” e “profissionais”. São duas coisas diferentes! ai ai…

  9. Achei linda a capa do livro! Mas não sei se fiquei com vontade de ler… já havia lido outras criticas sobre ele e até mesmo resenhas cheeeeeias de spoilers, mas mesmo assim, não me seduziu muito! Percebi sua dificuldade em escrever o texto e percebi tbm que sua relação com o livro não foi muito tranquila rsrs Adorei suas impressões!! Olha só Luara… o seu blog abre aqui no meu trabalhoooo!! É o único blog da face da terra que abre aqui no meu trabalho, acredita?? hahah Antes, não dava prá comentar, agora liberou tudo!! rsrs Beijinho prá vc!! (Isa – LidoLendo)

  10. Li por alto o texto que vc citou do Rascunho – aparentemente mais uma crítica aos blogs. E só queria dizer que se vc quiser continuar a escrever sobre seus achismos e opinioes pessoais, tudo bem por mim. É por isso que eu entro aqui, pra ler a opiniao da Luara, que lê numa velocidade que eu invejo ter, rs. E que com frequência lê os livros que estao no meu radar de interesse. Nao espero encontrar uma verdade absoluta e prometo nao voltar aqui reclamando se achar uma droga um livro que vc elogiou, haha.
    Voltando pro assunto do (ótimo) post:
    Também estou conhecendo o McEwan agora com Reparacao. Minha leitura nao fluiu continuamente mais por causa da língua mesmo – autor britânico e que tem afeicao pelo texto descritivo, meu inglês está levando uma surra, hehehe). Mas estou gostando da história e suficientemente apegada aos personagens que ele criou.

    • Obrigada Mimi!
      Fico realmente irritada com esses textos sobre crítica e internet. Enfim, quem sabe um dia eu escreva o que acho disso tudo!
      Depois me conta como foi Reparação? O inglês é muito foda? Nunca peguei nada dele em inglês pra ver…

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