Cidade Aberta – Teju Cole

 Meu primeiro contato com Teju Cole foi através dessa reportagem. Gostei da ideia de alguém que escreve sobre a Nova York que não conhecemos (na verdade eu não conheço nenhuma mesmo), que não apareça no Seinfeld ou no Sex and the City. Gosto de quem escreve sobre cidades, talvez pela minha relação nômade com todas as cidades do coração, acabo me interessando por quem consegue ter um amor verdadeiro por uma cidade só.

Comecei a ler Cidade Aberta assim. Queria conhecer uma cidade pelos olhos de outra pessoa, mas também queria ler sobre uma cidade que foi escolhida para ser Heimat. Tanto autor quanto narrador são nascidos na Nigéria, ambos escolhem os Estados Unidos como nova casa, eles se transferem. Mas existem coisas intransferíveis? É possível pertencer completamente a outro lugar? Outro país? Deixar de ser outro?

O livro, muito bem escrito, vai descrevendo a vida de Julius Olatubosun, um médico residente em psiquiatria no Columbia Presbyterian Hospital. Filho de pai nigeriano e mãe alemã, ele vive sozinho na cidade e, em suas cada vez mais longas caminhadas, descobrimos um pouco de sua relação com o mundo.Todo percurso das caminhadas é descrito, as ruas que passa, as esquinas que vira, os metrôs que toma, tudo aparece com precisão no livro. Aqui faço um mea culpa para dizer que talvez o não conhecimento da cidade tenha atrapalhado a leitura do livro. Não consegui me relacionar com essas esquinas nova iorquinas, não consegui fazer nenhuma imagem na minha cabeça que representasse onde o personagem estava. Acredito que em um livro onde a cidade e a identidade estejam em questão, isso é problemático.

Durante a entrevista da Flip (Cole foi convidado esse ano) e em algumas reportagens vi Cidade Aberta associado a uma “história do 11 de setembro”. Não foi isso que senti ao ler o livro. Senti, antes, que se trata de uma história da cidade, de seus habitantes e agregados. Claro, a história da cidade estará sempre marcada pelo 11 de setembro, ele faz parte de sua constituição, mas não vi o livro como um “modo silencioso de se falar sobre o atentado”. Cole também fala da recepção de estrangeiros na Europa de um jeito bem franco. É interessante pensar como o “continente metropolitano” trata suas “colônias”. Mas, mesmo assim, o foco continua sendo os Estados Unidos.

No decorrer do livro Julius viaja e se comunica com diversas pessoas de diversos lugares, mas com uma coisa em comum: pessoas que escolheram seu lar, que escolheram qual seria seu país natal. Entretanto nenhum deles deixou de ser estrangeiro, pelo menos foi assim que percebi. A escolha de um outro lugar faz, com certeza, uma coisa: te tira da sua origem, você não pertence mais ao lugar 1 assim que escolhe, mas não sei se ela é capaz de te colocar no lugar 2. A escolha quebra laços sem obrigatoriamente constituir outros.

Desde o começo da leitura o livro me pareceu “feito” demais. Isso, obviamente, tem a ver com a minha ideia romântica de literatura como gênio (indomável, desculpem a brincadeirinha), como catarse, como algo que flui “naturalmente”. Eu sei o quanto isso parece ridículo, a literatura é um trabalho, e um trabalho árduo. Mas não consigo me livrar da ideia de que alguns livros parecem mais “naturais” ou “fluidos” que outros.

Quando acabei o livro, aceitei a possibilidade da (i)migração, mas acabei pensando mais no pertencimento “real”: as pessoas realmente se sentem parte ou só é mais confortável pensar assim?

Naquela fuga sônica, eu me lembrava de Santo Agostinho e de seu assombro com Santo Ambrósio, que gozava da reputação de ter descoberto um meio de ler sem pronunciar as palavras em voz alta. Parece mesmo uma coisa estranha – e me surpreende tanto agora quanto antes – que possamos compreender palavras sem pronunciá-las. Para Agostinho, a mehor maneira de sentir o peso e a vida interior das frases era dizendo-as em voz alta, mas desde então muita coisa mudou em nossa noção de leitura. Aprendemos há muito tempo que a visão de um homem falando sozinho é sinal de excentricidade ou de loucura; não estamos mais nem um pouco habituados à nossa própria voz, a não ser na conversa ou na segurança da multidão que grita. Mas um livro sugere conversa: uma pessoa fala para outra, e o som audível é, ou devia ser, natural numa troca desse tipo.

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Naquela sala, onde sempre parecia fluir uma delicada e fresca luz do norte, ele estava rodeado de arte, colecionada durante toda sua vida. Meia dúzia de máscaras da Polinésia, expostas logo acima de sua caeça, formavam um halo grande e escuro. No canto, estava a figura ancestral da Papua em tamanho natural, com detalhes entalhados individualmente e uma saia de palha que mal conseguia esconder seu pênis ereto. Ao se referir àquela figura, o professor Saito disse certa vez: Adoro monstros imaginários, mas fico apavorado com os monstros reais.

Título: Cidade Aberta

Título original: Open City

Autor: Teju Cole

Tradutor: Rubens Figueiredo

Editora: Companhia das Letras

Ano: 2012

320 páginas

PS: Não pude deixar de lembrar do Harry Potter (ele moldou minha infância, gente) no Chapéu Seletor, ele escolhe ser Grifinória mesmo possuindo algo de Sonserina.

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17 pensamentos sobre “Cidade Aberta – Teju Cole

  1. Oi Luara!!!
    Tenho uma mania engraçada qdo leio livros que abordam determinados lugares. Se há nomes de cidades, ruas, etc; eu os pesquiso na internet, vejo fotos, para poder me “transportar” melhor para o ambiente…rs. Assim fica mais fácil me identificar dentro da história. E penso: e se algum dia puder visitar esse lugar de verdade? Já pensou que mágico seria? Me sentiria dentro do livro! Imagine isso!
    Bjs! Te acompanho sempre!
    Patrícia

  2. Oi, Luara!

    Conheci há pouco tempo seu canal no YouTube e, por consequência, o seu blog. E suas resenhas são deliciosas de ler! Bem como você descreve acima, sinto que seus textos transcorrem naturalmente e a leitura flui. Parabéns pelo blog, pelos videos, pelos textos.

  3. Lu, você já leu algo do David Foster Wallace, Jonathan Franzen ou Javier Marías? Estou apaixonada pelos três. Talvez você já tenha falado de algum deles aqui e eu não tenha visto. Comprei esse novo do Javier hoje e já estou na página 100. É muito bom. Merece o Nobel, na minha humilde opinião. E da Inês Pedrosa, você gosta?
    Beijos!

  4. Tou louca pra ler esse livro. Passei 28 anos vivendo no mesmo local, minha cidade natal – 20 desses no mesmo apartamento -, e hoje me vejo em São Paulo, com um sotaque fortíssimo do Nordeste. Venho me sentindo um alien, mas feliz da vida. Teju é o próximo da lista. Adorei o review. Não conheço NY e acho que vou ter o mesmo problema de identificação que você teve.

    bjus

  5. Olá, Luara. O livro deve ser interessante, mas eu não me empolgo com literatura realista, ainda mais aquela visa reproduzir a realidade como ela é. Sobre “Serena” tive uma impressão semelhante: o Mcwean escreve bem, mas este livro não me empolgou como “Reparação”. Achei que ele repetiu o recurso narrativo deste último, e além dissso, esse negócio de metaficção já deu, mesmo porque a metaficção não se resume a ser um exércicio literário, como é o caso de ” O homem do castelo alto”, do seu muso Phillip K. Dick(por falar nele vc está lendo Realidades Adaptadas”. No momento, estou interessando no Haruki Murakami. Gostaria de sabe se vc chegou a ler “Norwegian Wood” e quais foram suas impressões sobre este livro. Um abraço, Alessandro

    • O McEwan não está na minha lista de favoritos viu… Certeza!
      Comprei o “realidades adaptadas”, mas ainda não comecei a ler… Você já?
      Do Murakami eu só li o “Minha querida Sputnik”, e gostei. Não foi amor, mas gostei. Devo ler o 1Q84 quando sair (acho que em dezembro)…

      • Oi Luara. Eu não li “realidades adaptadas”, mas está na minha lista, assim como “Ubik”. Fique curioso com 1Q84 do Murakami, que está provando polêmica: uns gostam, outros não (dá uma olhada nos vídeos do you tube sobre os comentários). De qualquer forma, me parece um livro bastante diferente dos demais, até do que ele escreveu. A narrativa se alterna entre dois personagens: um homem e uma mulher que têm vidas bastante inusitadas, digamos assim. Me parece que a objetiva que detém os direitos de publicação vai lançar o primeiro volume (é uma trilogia) em novembro. Estou na torcida para que 1Q84 seja no mínimo interessante e isso parece ser e muito. Abraço.

  6. Gostei da ideia de conhecer outra cidade pelos olhos do imigrante, principalmente aquelas partes que não são muito turísticas. A solidão, o não pertencimento… interessante.
    bjo

  7. Dica anotada, já que eu me interesso quase involuntariamente por esse tema, porque faz parte da minha realidade. E eu gostei dos trechos do livro que vc reproduziu no post.

    No meu caso, eu nao escolhi tao espontaneamente meine Heimat, por isso é mais difícil ainda pra mim cortar os lacos com o país onde eu nasci. Ao mesmo tempo, quando vou ao Brasil, me pego me sentindo “estranha” (ou estrangeira) com relacao a alguns aspectos. As vezes penso que quando a gente imigra, a gente acaba por nao pertencer totalmente a mais nenhum lugar. Quando estou aqui sinto saudades de lá, quando estou lá sinto falta das coisas daqui.

    • É isso mesmo! A gente vive na saudade, quando está em qualquer lugar… Isso é estranho! Rs
      Mas no livro, não senti que ele fala muito sobre saudade, é mais ele e a cidade, sabe?

  8. Luara,existe um livro chamado “Um século em Nova York : espetáculos em Times Square”, do Marshall Berman, pela Companhia. Ele comenta sobre Nova York e as imagens construídas da cidade. Não parece, mas é bem gostoso de ler! Acho que você pode se interessar. Beijos ;)

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