Como ser mulher – Caitlin Moran

Minhas expectativas costumam frustrar minhas leituras. Isso já aconteceu com Minha querida Sputnik e Não me abandone jamais. Acabo esperando do livro a resposta pra uma pergunta que nem mesmo formulei. É chato, mas acontece.

Com Como ser mulher a expectativa não veio galopante. Comprei o livro porque queria uma leitura “de ônibus”, achei que encontraria um chick-lit engraçadinho (desculpem, não conhecia Moran antes do livro) e só. Acho que essa falta de expectativa contribuiu muito para minha leitura. Escolhi o livro do selo (Paralela, novo braço da Companhia das Letras) que publicou Toda Sua, um romance erótico na onda de 50 tons de cinza, não esperava nada sério dele. O fato de não ter lido a orelha do livro também ajudou. Reproduzo o texto aqui:

“Nesta mistura de livro de memórias e manifesto feminista, todas podemos reconhecer coisas que fizemos, pensamos e dissemos – mas nunca de maneira tão eloquente quanto Caitlin Moran faz aqui. Best-seller absoluto na Inglaterra, Como ser mulher é leitura obrigatória não apenas para o suposto sexo frágil, mas para todos os maridos, namorados, irmãos, pais, tios, amigos e colegas de trabalho que gostariam de entender um pouquinho melhor o que realmente se passa na cabeça das mulheres.”

Se eu tivesse prestado mais atenção a esse texto, talvez tivesse ficado com a pulga atrás da orelha:

(1)  Best-seller, manifesto feminista, Inglaterra – conclusão lógica-luara: AS PESSOAS COMPRAM LIVROS FEMINISTAS NA INGLATERRA! POSSO MUDAR PRA LÁ HOJE?

(2)    Best-seller, suposto sexo frágil, todas podemos reconhecer: ele seria publicado em fascículos na Cosmopolitan.

(3)    Todas podemos reconhecer, leitura obrigatória, todos os…: ah! Vá!

Mas não, não li a orelha e comecei a leitura isenta dessas pré-conceitos orelhistícos. (Mas assumo que no meio do livro fui correndo pro google ver o que estavam escrevendo sobre ele).

Antes de qualquer elogio que possa aparecer, preciso fazer um comentário: Moran utiliza alguns exemplos (que deveriam gerar um comic relief) que julgo inaceitáveis. Um deles é uma comparação a uma criança vietnamita coberta de napalm (sim, você leu isso), e outro em relação ao holocausto. Não dá. Não pode. Não funciona. Não é certo.

Pronto, posto.

Agora posso dizer que a maneira que Moran escreve é muito diferente do que estou acostumada. Ela “conversa” com quem está lendo de um jeito muito próximo. Mas não essa informalidade dos blogs e dos vídeos, é diferente, não consegui encontrar formas de explicar. Essa escrita não me conquistou, mas também não me deixou com sono.

Chegamos agora ao miolo da questão: um manifesto feminista. Esbravejei muito quando li isso. “Manifesto feminista é o car*&%$!” “Tratar questões de forma superficial não se justifica por ser um manifesto!” “Cadê a bibliografia???” etc. etc. etc.

Mas depois que a raiva passou, fiquei pensando: quantas pessoas se sentiriam incomodadas ao ler esse livro? Afinal de contas ele fala de depilação feminina (feio Papo de Homem, muito feio), aborto, trabalho, desigualdade salarial, gordura, padrões de beleza, relação com o próprio corpo… Muitas! Muitas pessoas que eu conheço se sentiriam ofendidas por esses assuntos! No fim das contas: será que um livro “superficial” assim é tão ruim?

Não estamos com a próxima teórica do feminismo em mãos. Estamos lendo uma jornalista (mais interessada em música, pelo que me pareceu) que se preocupa com temas femininos. Temas como igualdade salarial, direito sobre o próprio corpo, mídia, padrões etc. Como isso pode ser negativo?

Depois de pensar por aí, decidi que o livro não é ruim. Só não é o que estão vendendo (manifesto feminista my ass!). Ele é um livro de abertura, de dúvidas, de memórias. Muitas memórias. Estamos lendo sobre a vida de Moran e sobre a relação dela com o feminismo dela. E isso é bom! Isso mostra que existem feminismoS, que é sempre um plural.

Gostei de ter lido esse livro, mas já encomendei meu exemplar do A mulher eunuco (li o meu na internet, em 2006) porque mereço relembrar.

Alguns trechos:

Sobre pornografia feminina:

“Em um mundo onde é possível conseguir um rim, um Picasso no mercado negro ou uma passagem para fazer uma viagem ao espaço, por que é impossível achar sexo de verdade? Uma foda de verdade entre pessoas que realmente querem se comer? Uma garota com uma roupa que eu respeite pelo menos um pouco, divertindo-se até não poder mais? Eu tenho dinheiro. Estou disposta a pagar. Sou uma mulher de 35 anos e só quero uma indústria pornográfica internacional multibilionária em que eu possa ver uma mulher gozar.” p. 34

Sobre literatura escrita por mulheres:

“Não posso deixar de notar que a maior parte das mulheres que fazem frente aos homens parece ser infeliz [citadas: Dorothy Parker e Sylvia Plath] e ter certa propensão a morrer jovem. […] Mas quando olho para a destruição delas – desespero, aversão a si própria, baixa autoestima, frustração e repetidas faltas de oportunidade, de espaço, de compreensão, de apoio ou de contexto –, me parece que estão todas morrendo da mesma coisa: de estar encalhada no século errado.” p. 59

Ficou curioso? Dá pra ler um pedaço aqui.

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Sim, estou curiosíssima para ver o que a Lola vai achar do livro.

E esse tumblr é o melhor dos últimos tempos.

Título: Como ser mulher

Título original: HOW TO BE A WOMAN

Tradução: Ana Ban

Capa: Alessandra Kalko

Páginas: 240

Lançamento: 08/08/2012

Selo: Paralela (Companhia das Letras)

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12 pensamentos sobre “Como ser mulher – Caitlin Moran

  1. Pingback: Vídeos do mês: outubro « Isaac Sabe!

  2. Oi, Luara! Descobri seu blog hoje e acho que vou deixar de ler meus livros para ler suas resenhas e ver seus vídeos! hahaha Olha, eu acho que orelha de livro é sempre uma coisa meio “previsões astrológicas”, às vezes dá certo, às vezes não, mas a gente sempre lê nosso signo no jornal antes de sair de casa e, quando não lê, fica pensando que deveria ter lido…. Oquêi, viajei legal. Quanto ao negócio do “manifesto”, é mais uma banalização de palavras que são/foram importantes, que nem a palavra “revolução”. Já viu esse tumblr http://umaverdadeirarevolucao.tumblr.com/? muito bom ;)

  3. Bom… apesar de me considerar feminista… não sou muito chegada em leituras feministas! Quando ví esse livro, já torci o nariz prá ele… Mesmo depois de ler sua resenha e ficar sabendo que ele não é um manifesto feminista, como estão falando por aí, não tenho ainda vontade de ler… pensando bem, acho que não sou tão feminista assim, né?! Sei lá… rsrs Bjo! Isa (Lidolendo)

  4. Gostei de ver esse livro por aqui. Eu já fiquei desconfiada com a capa, ao ler a orelha então… fugi. Não me arrependo. Mas, como você disse, é válido para levantar as questões.
    bjo

  5. Olá.

    Li a amostra e concordo com você. A leitura é gostosa e interessante, o livro parece ser legal. Mas vendê-lo como um tipo de “feminismo fast-food” é um pouco preocupante.

    Bom post, eu gostei.

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