O mapa e o território – Michel Houellebecq

(Todos os comentários com spoilers estão nas notas. Se você ainda não leu o livro e não quer saber detalhes sobre o enredo, não leia as notas de pé de página)

110_1544-Michel Houellebecq

Michel Houellebecq

Michel Houellebecq é um escritor contemporâneo francês, nascido em 1958. Seus romances mais conhecidos são Partículas Elementares (Editora Sulina, 1999) e Plataforma (Record, 2002). A crítica, normalmente, se divide entre aqueles que o chamam de “renovador” da literatura francesa, e aqueles que o classificam como simples “provocador”. Pendendo para um lado ou para o outro, Houellebecq ganhou o prêmio Goncourt (espécie de Jabuti da França) em 2010 com O mapa e o território (Record, 2012).

O mapa vai trazer como personagem principal Jed Martin, artista plástico que transita entre diferentes formas de arte e representação do mundo. É sua segunda onda artística que dá título ao romance: Jed Martin fotografa mapas Michelin da França e os expõem em uma galeria de arte sob o título “O mapa é maior que o território”. Mas não se engane e espere de Martin grandes reflexões acerca do mundo ao seu redor, ele é, antes de tudo, um personagem morno, passivo, estático até. Sua falta de relação com as pessoas (durante toda sua vida, deve ter conversado com 7 pessoas) pode, a princípio, justificar o uso excessivo que Houellebecq faz de estereótipos. Afinal, alguém que não se relaciona com as pessoas procura entende-las através de padrões fixos. Entretanto, esse exagero diminui ao decorrer da narrativa – mas não o suficiente para me deixar satisfeita, deixemos claro.

É a vida de Jed Martin que acompanhamos durante o romance. Desde sua formatura na Escola de Belas Artes até sua morte. Nesse período, acompanhamos seu namoro, relacionamento com o pai, com o galerista, a relações públicas e um escritor.

110_1549-8501093475-ngA própria narrativa não apresenta caráter muito inovador, até o meio do romance[1] quando encontramos algo pouco comum, mas também não revolucionário. A utilização de colagens da Wikipedia não atraiu minha atenção, passemos a diante. Michel Laub, em resenha publicada na Folha, chega a dizer que o texto de Houellebecq tem “alma”: “Por ‘alma’ entende-se uma abordagem que não adere à linguagem, às ideias e ao gosto dominantes em sua época. Houellebecq sempre conseguiu isso de forma paradoxal, com toques de ênfase, sarcasmo e agudez ensaística em meio à mão pesada dos enredos e a uma prosa entre o mecânico e o ‘informativo’, ambas características dos best-sellers.” (Fonte) Não acho que concorde com essa “alma” narrativa. Não seriam sarcasmo e agudez características que se esperam de uma obra atual? Acredito que, infelizmente, esperamos da obra literária uma “interpretação” sagaz (para fazer jus ao Rio de Janeiro) da realidade, esperamos que o texto nos “diga” algo, nos “conte” qual é a forma “sarcástica e aguda” de pensar. Penso que um texto que “não adere à linguagem, às ideias e ao gosto dominantes” atuais seja um texto duvidoso, um texto em que a experiência com a linguagem não mostre resultados imediatos, ou mesmo um texto em que o personagem não seja suficientemente “pronto”. Houellebecq nos entrega personagens, ações e interpretações “prontas”, e não vejo o caráter inovador disso.

Mas não quero passar a impressão que não gostei do livro, acredito que o que ele tenha de mais interessante seja seu tema: como produzimos arte? A discussão sobre a produção de bens industrializados (primeira “fase” de Jed Martin), discussão sobre a cartografia e fotografia (segunda fase) e sobre a própria pintura (terceira fase) são interessantes para um público leigo, como eu, mas não sei se podem ser classificadas como “inovadoras” por algum entendedor de arte plástica.

Outra característica que me agradou muito na escrita foi a falta de frases de efeito. Fora o nome da exposição de Jed Martin, não senti necessidade de grifar nenhuma passagem. Não existiu, durante a leitura, um momento em que eu pensasse “isso resume o livro”. Minha impressão foi que o texto fluiu muito mais assim, com uma naturalidade inesperada.

Tendo a concordar com a resenha do Michel Laub se formos comparar o romance a algum best-seller. Realmente o tema não me parece apropriado para um grande vendedor. É uma leitura agradável, que nos faz pensar em alguns temas da arte como leigos, e só.

Queria lembrar que li o livro em ebook e encontrei pouquíssimos erros de diagramação (o que, infelizmente, é raro).

  • Título: O mapa e o território
  • Título original: La carte et la territoire
  • Tradutor: André Telles
  • Editora: Record
  • Ano: 2012
  • Páginas: 400
Para saber mais:

[1] Quando o próprio Houellebecq aparece como personagem, Um personagem assassinado, vale ressaltar. O próprio autor morrendo? Uhm…

Anúncios

7 pensamentos sobre “O mapa e o território – Michel Houellebecq

  1. Ola Luara, muito interessante a sua resenha, eu achei muito estranho o narrador a todo momento falando do escritor, sem comentários o fato de ele descrever o seu próprio assassinato.
    Algo que me chamou a atençãona sua resenha foi com relação ao titulo da exposição, em francês é “La carte est plus intéressante que le territoire” , que justifica o interesse da Michelin na exposição.
    Já li Plateforme e estou lendo agora Les particules élémentaires, nosso caro escritor parece ser apaixonado por esses personagens quase limítrofes, que não conseguem, a não ser por curtos períodos, se relacionar com ninguém.
    Michel Houellebecq também têm por habito inserir pessoas reais e empresas em seus romances, nem sempre em situações elogiosas. Um grande escritor ou só um provocador, ainda não cheguei a uma conclusão.
    P.S. : em varias passagens de seus livros seus personagens falam do Brasil, dizer que os comentários feitos são preconceituosos é pouco.

  2. Olá,Luara. Gostaria de saber se acha que o Houellebecq ( etâ nome complicado, tive que copiar e colar) é um autor superestimado pela crítica. Já dei uma olhada nos livros deles, mas tudo me pareceu muito pretencioso. Será que ele não é daqueles casos, que é mais forma que conteúdo? Tenho uma certa birra da crítica literária atual, que valoriza mais os recursos narrativos, o estilo, do propriamente o desenvolvimento da trama? É o caso dele? Além disso, ele não é lá muito simpático como pessoa. Vi uma entrevista dele e me passou uma péssima impressão: arrogante, prepotente. Bom de qualquer forma é uma impressão, mas de qualquer forma gostaria de saber sua opinião: ele é um autor que merece ser conhecido, ou é mais uma invenção da crítica literária? Gostaria que vc falasse sobre isso. Abraço.

    • Olha, pra ser sincera, não achei ele muito inovador nos aspectos narrativos não. Achei bem normalzinho pra falar verdade. Mas foi um livro que me prendeu a atenção, só que não foi amor. Eu nem sabia que ele era tão falado até pesquisar um pouco pra fazer o post. Achei na média, nada além. Mas fiquei curiosa para ler os outros dois mais famosos dele e conferir o bafafá todo.

  3. Achei a capa desse livro linda, o nome também me atraiu, a ideia… mas me desanimou um pouco esse comentário sobre o protagonista morno… ler 400 páginas de uma história morna desanima, rsrsrs
    mas quem sabe um dia né?!

  4. Olá,
    gostei muito da sua resenha. Já havia visto algumas resenhas sobre esse livro mas ainda estava indecisa se iria ler. Mas agora estou curiosa. Assim que surgir a oportunidade de ler, ela será aproveitada. kkk’
    Adoro seu blog.
    até mais.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s