As armas secretas – Julio Cortázar

Capa de As armas secretasSeriam possíveis várias teses de doutorado, pós-doutorado, pós-pós-doutorado, jovem doutor, médio doutor, bolsista produtividade…, sobre As armas secretas de Julio Cortázar. Os cinco contos que compõem o livro (Cartas de mamãe, Os bons serviços, As babas do diabo, O perseguidor, As armas secretas) são uma demonstração de riqueza literária, do poder da literatura.

Cartas de mamãe já abre o livro com um chute no peito. Um filho, que mora com a esposa em Paris, troca cartas regularmente com a mãe argentina, e em uma dessas cartas, um comentário descolado da realidade faz com que ele passe a duvidar da sanidade materna. Vamos acompanhando página a página essa dúvida da sanidade se estender, não só pela família, mas pelo próprio leitor.

Depois dele, Os bons serviços pode parecer até um pouco morno. Mas ele é tão envolvente que no fim, acabamos torcendo por um ou outro personagem. Começando com a contratação de uma viúva para vigiar os cachorros enquanto uma festa acontece, terminamos com um velório e mais uma contratação.

Nessa hora a gente para, respira e começa o contomaismaravilhosodetodosostemposeagora, As babas do diabo. Sei que o preferido de muita gente, e inclusive do próprio Cortázar, é O perseguidor, mas o que o autor sabe sobre sua própria obra, não é mesmo? As babas do diabo é sensacional. Como ele serviu de inspiração para o filme Blow Up, muita gente já deve saber mais ou menos do que se trata. Um fotógrafo (que aqui está fazendo as vezes de todos os que trabalham com a criação, seja literária, visual etc.) captura uma cena aparentemente simples com sua máquina. Os personagens dessa cena acabam sendo menos simples do que ele imaginava a princípio, mas é só quando ele chega em sua casa e revela a foto que o conto te joga na parede. Conforme o fotógrafo amplia partes da fotografia, ele vai descobrindo, ou montando, possibilidades do acontecimento. Junto com ele, o leitor vai montando as possibilidades da própria representação. É fantástico!

Cortázar, Paris - 1958

Cortázar, Paris – 1958

Logo depois em O perseguidor, o conto mais longo do livro, que foi até lançado pela Cosac em uma edição separada, somos apresentados a um saxofonista e seu biógrafo e amigo. É o próprio biógrafo que narra os acontecimentos, e pela visão dele somos capazes de pensar sobre o que acontece no conto mas também somos capazes de duvidar da sua narração.

Esse fenômeno de dúvida do narrador, do narrador não confiável – e não por ser morto, mas justamente por ser vivo e escritor –, aparece em todos os contos. Não é possível para o leitor aceitar as proposições do narrador, somos constantemente convidados a duvidar e a traçar o nosso conto. Essa sensação explode tanto em As babas do diabo como em As armas secretas. No último conto, Cortázar nos afronta com pelo menos 3 tipos de confiabilidade: a do narrador, a da personagem principal e a de seus amigos “expectadores”. São três pessoas que veem os mesmos momentos, apesar de vê-los de forma diferente.

Já sabemos que não é aconselhável que se espere de Cortázar um final fechado e tradicional. O “conto sem final” não foi de modo algum algo inventado por ele1, já imagino pelo menos um par de pessoas dizendo “mas o Tchekhov…”, mas com o escritor argentino senti esse final aberto muito mais cheio de possibilidades. Não é um deixar sem saber o que irá acontecer, mas é um deixar sem saber o que aconteceu.

Se você ainda está aqui lendo esse texto, pare. Vá até a livraria mais próxima e compre o livro. A bestbolso lançou um vira-vira com ele e Todos os fogos o fogo para quem estiver procurando alguma coisa mais baratinha. Vá. Vale.

Título: As armas secretas
Título original: Las armas secretas
Tradutor: Eric Nepomuceno
Editora: José Olympio
Ano: 2001 – 3ª edição
Ano de publicação do original: 1959

Para ler mais:

1Mas e daí? Essa procura da origem dá em nada.
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18 pensamentos sobre “As armas secretas – Julio Cortázar

  1. Cortázar é um dos grandes escritores sul- americanos e mestre na literatura fantástica, onde sempre propõe um novo olhar em seus contos para antigos temas. Luara, gostaria de saber se vc se “adaptou” bem ao Kobo touch. Digo “adaptar-se” porque recentemente, eu comprei um e achei uma grande decepção, principalmente pelo tamanho da tela que eu achei bem pequeno e para mim fica difícil de ler e também porque tem que ficar “carregando”. Acabei devolvendo para a Cultura. E vc está gostando do seu, acha que está tendo vantagem em substituir o livro de papel pelo formato e-book, ou ainda é melhor optar pelo livro no formato antigo, pelo menos assim vc não corre o risco de dar um “branco” nas páginas e livro não sumir. Bom é isso. Abraço.

    • Eu gosto bastante do meu sim. Adoro o fato dele ser pequeno e a bateria dura muito (nem lembro qual foi a última vez que carreguei) com o wifi desligado.
      Pena você não ter gostado!
      :)

  2. Recomendo também Ficções de Borges…esse livro é mágico…espetacular….daqueles que você pensa anos e anos sobre o mesmo conto e tem a absoluta certeza de que não o compreendeu completamente!

  3. Luara, essa geração de contistas latino-americanos é realmente brilhante. Como você gostou deste Cortázar e é entusiasta da ficção-científica, recomendo “A Invenção de Morel” – Bioy Casares, publicado naquela coleção magnífica da CosacNaify chamada Prosa do Observatório.

  4. Cortázar é um dos meus escritores favoritos, Histórias de cronópios e de famas é o meu livro eterno de cabeceira, porém nunca li As armas secretas, preciso corrigir essa falha urgentemente. Belo site e ótimo post. Abraços!

  5. Cortázar é um autor que nunca li, apesar de todas as recomendações. Às vezes fico meio perdida, sem saber por onde começar. Mas acho que acabei de decidir!
    bjo

  6. Ai que delícia ler Cortázar, não? ; )
    Pretendo ler outros livros dele antes de Armas Secretas; mas agora fiquei ainda mais empolgada para voltar a ler literatura latinoamericana! ; )
    Comprei uma biografia sobre ele, te falei?
    Beijos!

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