Noite do oráculo – Paul Auster


livro-noite-do-oraculo-paul-auster-14450-MLB207114116_8662-FNoite do oráculo
conta a história de Sidney Orr, um escritor tentando voltar a escrever após uma grave doença. Sidney é casado com Grace, uma designer que trabalha com elaboração de capas em uma editora. Enquanto Grace sai para o trabalho em Manhattan, Sidney passeia pelas ruas do Brooklyn. É em um desses passeios que ele encontrará a Paper Palace, uma pequena papelaria pertencente a um imigrante chinês.

Sid sai da papelaria com um novo caderno e um novo amigo: duas coisas que mudarão sua maneira de ver a vida nos próximos dias.

Ao escrever no novo caderno português de capa azul e páginas numeradas, Sid se embrenha em uma história sobre coincidências, o destino e o que podemos fazer com a nossa vida. Na história que escreve, o personagem principal é Bowen, editor de uma casa famosa que recebe um curioso e inédito manuscrito de sua escritora preferida e já falecida, chamado Noite do oráculo. Quem entrega o manuscrito é sua neta, por quem Bowen sente uma atração imediata.

Ok. Até aqui temos 3 livros: o livro que estamos lendo; o livro que Sid escreve; e o livro que Bowen recebe. Pode parecer confuso, mas a história vai ligando os três de maneira bem fluída.

Ao ler o livro, o tema que mais me chamou a atenção foi a forma como realidade e ficção podem estar conectadas. O que Sid escreve pode mudar sua vida? O livro que Bowen recebe pode refletir o momento que ele está vivendo? A ficção pode nos falar sobre nossa vida ou somos nós que impomos nossa vida sobre ela? Tendo a concordar com a última opção, mas o livro de Auster traz algumas formas interessantes de pensar a questão.

Confesso que comecei o livro com algum preconceito. Tinha lido essa entrevista com Rubens Figueiredo e esse trecho ficou na minha cabeça:

“O Paul Auster e a Susan Sontag, que eu já traduzi, são tratados nos Estados Unidos como o que poderíamos chamar de opinião de esquerda. Mas, ao ler com atenção os livros deles, você não encontra críticas a respeito da distribuição desigual de poder no mundo. O postulado desses autores pode ser entendido como “os Estados Unidos dominam e é bom que seja assim”. Traduzi um livro da Susan Sontag chamado América. Detestei traduzir a obra, a começar pelo título. Sempre que encontro a palavra América, traduzo para Estados Unidos. Mas neste caso, eu não podia fazer isso, porque era o título do livro.

[…]

Pegue um livro da Susan Sontag, do Paul Auster: onde está a história? Esses autores não são desinformados, não é uma questão de incapacidade, muito menos uma questão de caráter. São fatores objetivos que atuam sobre eles. Veja só, hoje em dia, um escritor inglês ou norte-americano começa a escrever um livro. Ele inicia um, dois parágrafos e avisa o agente literário. Logo, esse livro é vendido para vários países por dezenas de milhares de dólares. Os editores desse futuro livro não leram nada, e esse suposto livro ainda não existe. Mas o livro já está vendido. E, quando esse livro ficar pronto, haverá elogios em revistas norte-americanas e inglesas, cujo dono também é proprietário da empresa de comunicação que é responsável pela editora, pela livraria, pelo site. Tudo é uma empresa só. Aí, o escritor é beneficiário, como nunca se viu, de uma relação muito desigual de poder. Obviamente que esse jogo de forças afeta as obras na sua forma, no conteúdo. Sei que estou falando coisas pouco digeríveis, mas estou tranquilo.”

Fonte: Cândido.

Pode ser que isso tenha influenciado minha leitura, e provavelmente o fez. Mas em Noite do oráculo temos três personagens que imigram para os EUA: o dono da papelaria que sai da China odiando o país por conta da Revolução Cultural; uma empregada doméstica que sai do Haiti com a família para tentar uma vida melhor nos EUA, ela trabalha na casa de um escritor amigo de Sid e Grace, e quando não pode comparecer ao trabalho envia sua neta, estonteantemente bonita, em seu lugar; e por último uma prostituta ainda mais bonita, a Princesa Africana, que também sai do Haiti e chega aos EUA falando uma mistura de francês e inglês.

Esses personagens me pareceram caricatos demais. Mr. Chang, o dono da papelaria, entra na história como um senhor de fala arrastada, que não entende muito bem o inglês, e vai se transformando em uma pessoa que gira grande quantidade de dinheiro, investe em Chinatown e dá uma coça em Sid com seus golpes quase marciais. A Princesa Africana além de linda é uma expert do sexo que aparece com uma disponibilidade irrevogável para dar prazer. As duas mulheres que trabalham para John (o escritor amigo de Sid) entram mudas e saem caladas. Bem, no mínimo problemático.

Outro ponto que me irritou um pouco, as notas. São poucas, umas 18 durante o livro todo, mas não consegui entender o porquê delas não estarem no corpo do texto. Não era uma narrativa diferente, nem detalhes técnicos ou informações complementares. Elas poderiam ser incorporada ao texto sem maiores problemas.

Apesar dessas ressalvas o livro me prendeu. Ele é relativamente curto e flui bem. Não me deixou cansada ou impaciente. Agora quero arriscar o trilogia de Nova York para ver no que dá.

Título original: Oracle Night
Tradução: José Rubens Siqueira
Capa: João Baptista da Costa Aguiar
Páginas: 232
Lançamento EUA: 2003
Lançamento Brasil: 2004
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PS: Li esse livro no Kobo (ele estava em promoção na semana passada por 9,90) e a formatação estava 100% felicidade :)
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32 pensamentos sobre “Noite do oráculo – Paul Auster

  1. Adorei a resenha, Luara e estou com ele em e-book só esperando meu kobo chegar, rs. Fiquei mega interessada quando li a sinopse e agora, depois da sua resenha, com certeza a minha leitura será bem outra. Ah, tenho o torrent e a legenda do filme, se você quiser, me fala que te passo.

    Xerinhos!
    Patrícia – Alma do meu sonho-

  2. Pingback: Leituras e compras: fevereiro 2013 | Ao rés do chão

  3. Eu ganhei a Trilogia e li sem saber do que se tratava. Foi um espanto! Pega esse tema do livro dentro do livro e joga dentro de um caleidoscópio, chegando num ponto em que até o leitor não sabe muito bem quem é. Remete a alguns contos de Borges.

    O comentário do Rubens Figueiredo vale pra tudo que se faz nos EUA – literatura, cinema, TV, música, arte. É complicado. Esse ano eu estou tentando reduzir minhas leituras de homens-brancos-heterossexuais-anglófonos, principalmente porque eles já são hegemônicos e faz bem ouvir vozes diferentes. Mas gosto do Auster, e de outros, e não dá para simplesmente fechar os olhos.

  4. Não li nenhum livro do Paul Auster (embora queira conhecer o “A Trilogia de Nova York), mas gosto muito do filme “Cortina de Fumaça”, cujo roteiro é dele. Inclusive o personagem do William Hurt se chama Paul, é escritor e descreve uma cena que pertence a um conto do Auster.

    É um daqueles filmes com vários personagens se cruzando. Até existe um protagonista, mas todos têm os seus momentos.

  5. Infelizmente a literatura também pode ser uma máquina de fazer dinheiro, um simples instrumento comercial. Muito se fala sobre escritores que estão onde estão apenas porque conhecem pessoas influentes (donos de editoras e afins). É uma pena, quem mais perde são os leitores, pois, conforme o texto que você citou, essa máquina chamada mundo editorial pode transformar bons escritores em escritores preguiçosos…

    Beijos!

  6. Não conhecia esse autor, achei interessante isso de ”2 livros dentro de 1, que no final, dá 3”, hehe
    Quem sabe um dia o leio, quem sabe, mas admito que ler a entrevista me deixou com receio em lê-lo ‘-‘

    Beigos!

  7. Oi Luara!
    Do Paul Auster eu li “A Invenção da Solidão” e por ser um pouco autobiográfico e falar de uma relação muito íntima dele com o pai e o filho, acabei me envolvendo e achando um livro muito bom.
    Mas acho que essa colocação do Rubens Figueiredo é bastante pertinente à literatura que já está vendida por antecipação, não só a dos Estados Unidos, mas do mundo inteiro. Acabam sendo criados grandes escritores onde só existe uma literatura mediana.
    E eu sinto isso em muita coisa que eu leio de escritor norte americano, raras são às vezes em que vemos uma crítica contundente sobre o modo como a cultura deles domina o mundo. É exatamente isso: para eles é bom que seja assim e continue assim.
    Adorei a resenha ;)
    Beijo enorme,
    Tati

    • Também acho que é uma “onda” mais mundial que dos EUA, mas eles estão encabeçando a lista né? rs

      As vezes me sinto até um pouco culpada por ler muita literatura de língua inglesa, sabe? É o que a gente acaba tendo mais acesso, e vendo mais nas livrarias etc. Tenho que voltar ao meu projeto de ler mais autores brasileiros… Enfim!

      Que bom que gostou! Beijo :)

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