O colecionador – John Fowles

The-Collector-John-Fowles-2John Fowles (1926-2005) nasceu na Inglaterra, onde foi professor até a publicação de seu primeiro romance O colecionador, 1963. O romance vendeu tão bem que Fowles deixou o magistério para se dedicar à escrita. Segundo a fonte super confiável que é a Wikipedia, os editores britânicos olharam o livro como um empolgante thriller, enquanto os norte-americanos viam nele uma forte dose de existencialismo. Se fosse escolher, ficava com a opinião norte-americana.

O colecionador traz a história de Frederick Clegg e Miranda, um funcionário público inglês que coleciona borboletas em seu tempo livre, e uma estudante de arte de classe média. A narrativa começa pela voz de Frederick, logo somos apresentados à sua complicada família: uma tia que o acolheu quando ficou órfão e despreza qualquer forma de “sujeira”, um tio que o inicia em sua coleção de borboletas, e uma prima cadeirante. Clegg tem uma paixão secreta pela vizinha, Miranda, mas sua pouca habilidade social e o medo de uma possível rejeição não permitem que ele se apresente. A diferença entre a classe social dos dois é sempre lembrada durante a narrativa, não existe possibilidade de conversa entre eles, os interesses e possibilidades são tão diversos que nenhuma comunicação pode existir.

Isso muda quando Frederick ganha uma significativa quantia de dinheiro em uma aposta. Ele passa a ser uma pessoa rica, muito mais rico que Miranda, e se vê livre da família (todos se mudam para Austrália, onde vivem outros parentes). As portas estariam abertas para Frederick tentar conquistar Miranda, mas é outra ideia que começa a passar pela sua cabeça: ele compra uma casa de campo, reforma o porão (uma antiga capela, simbólico trancar alguém em uma antiga igreja) transformando-o em um quarto, e sequestra Miranda.

No primeiro momento, todos os passos são descritos por Frederick. Ele coleciona Miranda, assim como suas borboletas, com o método mais “limpo”, “puro” e “respeitoso” possível. Ele não a toca, não a obriga a nada – pelo menos de início – e se oferece para comprar tudo que ela precisar, desde que permaneça ali, ao alcance da sua observação. Todos os diálogos dessa parte da narrativa são escritos sem o uso de aspas ou travessão, é o raptor que nos dá a visão dos acontecimentos. O que muda quando, na segunda parte, lemos o diário de Miranda, os mesmos diálogos são “reproduzidos” por ela, com aspas.

Sim, o livro nos conta a mesma história duas vezes, com dois narradores diferentes. Claro que descobrimos trechos e perspectivas diferentes em cada parte, mas o enredo principal já está exposto quando chegamos aos diários de Miranda. E é simplesmente sensacional do ponto da escrita. Fowles não perde a mão, é excelente como Frederick e igualmente bom como Miranda. Incrível.

Existe ainda uma terceira parte, que dá o final – grotesco – ao livro. Mas acho prudente, para não anuviar a vista de nenhum leitor com (mais) spoilers, não contar. É uma parte bem curta, e que serve mesmo para jogar o sal na terra, desolar o leitor.

Quando acabei o livro, fui procurar algumas resenhas pela internet. Vi muita coisa estranha escrita em português – muitas pessoas dizendo que a personagem Miranda era “irritantemente superior” ou “esnobe”. Gostaria fazer um pedido para quem fosse ler o livro pela primeira vez: leia a primeira parte e escreva o que você pensa sobre Miranda, depois leia a segunda e compare. Miranda mudou quando passei da primeira para segunda parte, mas também mudou durante seu diário. A luta constante para permanecer humana ficou muito clara. Em alguns momentos as opiniões dela são deveras desagradáveis, mas ela consegue repensar. Para se manter sã em cativeiro, o que mais ela faria?

A humanidade, a luta pela sobrevivência e o preço de ambas são os principais pontos de discussão do livro. Mais de uma vez Miranda diz que Frederick a coleciona como a uma borboleta, mais de uma vez Frederick responde que a ama, mais de uma vez nos vemos detestando a racionalidade. Frederick é racional, ele monta todo o esquema da casa e do rapto, ele se convence todo o tempo que seus motivos são “puros” e “limpos”[1]. Miranda é a que enlouquece, que mostra a paixão como a única ferramenta de sanidade, a loucura, a fuga como a única ferramenta de humanidade.

Confesso que, em algumas passagens, a voz de Miranda me chegou à imaginação como aquela amiga chata da faculdade (a sabe-tudo) mas ela foi humana, cheia de problemas, defeitos, ego e passado. O passado de Frederick é a voz de sua tia dizendo como as mulheres podem se aproveitar dele e como a casa deve estar “limpa” e “em ordem”. E Frederick dá ordem ao mundo, ele cataloga, coleciona, inspeciona espécimes e se liga a eles, mas não é capaz de fazer isso e deixá-los livres, a vida é errante e suja demais para ele.

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Existe um filme baseado nesse livro, mas não consegui encontrar. Se alguém souber, por favor avise!

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Também vi um episódio de Criminal Minds com o livro no enredo, o último da primeira temporada, “The Fisher King”, que tem continuação no primeiro da segunda temporada. A parte do livro está aqui.

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Trechos:

Frederick: “What you do blurs over what you did before” p. 13.

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Miranda: “I am one in a row of specimens. It’s when I try to flutter out of line that he hates me. I’m meant to be dead, pinned, always the same, always beautiful. He knows that part of my beauty is being alive, but it’s the dead me he wants. He wants me living-but-dead. I felt it terribly strong today. That my being alive and changing and have a separate mind and having moods and all that was becoming a nuisance.

He is solid; immovable, iron-willed. He showed me one day what he called his killing-bottle. I’m imprisoned in it. Fluttering against the glass. Because I can see through it I still think I can escape. I have hope. But it’s all an illusion.

A thick round wall of glass.” p. 159.

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Miranda sobre a escrita: “It’s the very opposite of drawing. You draw a line and you know at once whether it’s a good or a bad line. But you write and it seems true and then you read it again later.” p. 85.

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Miranda: “The floor’s very soft and springy. I’ve broken all the ugly ashtrays and pots. Ugly ornaments don’t deserve to exist. I’m superior to him. I know this sounds wickedly conceited. But I am. And so it’s Ladymont and Boadicaea and noblesse oblige all over again. I feel I’ve got to show him how decent human beings live and behave. He is ugliness. But you can’t smash human ugliness.” P. 86.

PS: Li esse livro no Kobo, em inglês, mas existe uma edição em português que pode ser achada em sebos com facilidade.

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[1] Frederick só se descontrola quando sua racionalidade para de funcionar, quando Miranda está tão distante do que ele planejou quanto possível, quando Miranda se mostra nua, disposta a dar e receber paixão, mesmo que por um preço. Ele não consegue lidar com a sujeira, o pó, o toque da paixão e da humanidade.

[ATUALIZADO]: Esse livro foi escolhido para o mês de março no fórum Entre pontos e vírgulas.

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14 pensamentos sobre “O colecionador – John Fowles

  1. Olá, Luara. Se vc gostou de John Fowles, eu sugiro que leia “A mulher do tenente francês”, que assim como O colecionador se tornou filme, com Meryl Streep no papel principal. Eu li e gosto muito do livro, principalmente, do modo de narração, com o narrador intruso onisciente, que ás vezes faz uso de sua voz para falar das dificuldades do processo de criação literária. Além disso, o romance tem dois finais diferentes e aí vc escolhe aquele que mais te agrada. A edição brasileira é da Alfaguara e está muito boa, com várias notas no final, onde as referências são explicadas. Bom é isso. Abraço.

  2. Eu fiquei sabendo do filme primeiro e fui atrás. Daí, claro, tomei conhecimento do livro, e comprei essa edição antiga no sebo, mas ainda não li. Gostei de ver que vocês escolheram esse título para o fórum. Vou acompanhar as discussões.
    Ah… e que bom que você está de volta!
    bjo

  3. Concordo com tudo o que voce disse:
    Enquanto eu ia lendo o livro eu ficava fazendo anotaçoes no celular e foi interessante lê-las depois de terminar o livro e perceber a transformação da minha percepção sobre a história! Muito bom o Livro! Muito Boa Resenha!

  4. Pingback: Leituras e compras: fevereiro 2013 | Ao rés do chão

  5. Oi, Lu! Estou querendo ler esse para o fórum desse mês, mas fiz uma troca no skoob e o livro nada de chegar. Acho que vou fazer como você e providenciar uma cópia digital. =)
    Beijinho!

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