Plagiário, à maneira de todos os historiadores – Bruno Franco Medeiros

plagiarioEsse livro me traz tanta felicidade que nem sei por onde começar. Plagiário, à maneira de todos os historiadores é o livro que surgiu da dissertação de mestrado (que esteve mais para tese de doutorado, veja bem) de Bruno Franco Medeiros na USP.

Copiando um trecho do prefácio, assinado pelo prof. Valdei Araujo: “O primeiro livro de Bruno Medeiros traduz com precisão o momento importante que atravessa a história da historiografia no Brasil. Partindo de uma afirmação consagrada e não questionada desde o século XIX – Beauchamp, um plagiário –, o estudo de Medeiros reconstrói um  complexo universo de problemas historiográficos, políticos e culturais que a hegemonização deste juízo escondia. Seu livro mostra bem as vantagens de se escrever história não perdendo de vista as múltiplas conexões entre os eventos. Isso só pode ser feito a partir de uma compreensão densa de modelos explicativos, teoricamente orientados, dessas conexões. Assim, o empírico não corre o risco de aparecer com uma espécie de brilho que, no lugar de nos abrir para realidade, apenas ofusca e cega.”

Com a instituição da História como disciplina autônoma no século XIX no Ocidente, passamos a ver uma luta entre formas de interpretação da vida social e política. O discurso religioso deixa de exercer o papel de guia central para o conhecimento, e, com isso, o homem passa a decidir sobre os caminhos do conhecimento. Vários foram os sistemas e formas de se narrar a história desde então, e não deixa de ser válido o estudo de como cada um entende o passado e sua relação com o presente.

Uma ideia mais científica da história (e aqui, por científica entendo um modelo mais próximo das ciências duras, com métodos rigorosos e controles de comprovação) passa também a ganhar corpo. Com ela, vemos um elogio ao documento, ao arquivo, às fontes como detentores do “conhecimento correto”. Por algum tempo, esse foi o tipo de conhecimento considerado “produtivo”, “correto” e “científico” para a história. Com isso, outras formas de relação com o passado e com a escrita do mesmo foram sendo deixadas de lado. Até o ponto em que elas deixaram de ser mencionadas, e deixou-se de pensar sobre as possibilidades da escrita histórica.

Plagiário nos mostra não só uma história do conceito de plágio, mas também uma história de uma forma de escrita, que envolve a história e a independência do Brasil, a Revolução Francesa, e as possibilidades do discurso historiográfico nos séculos XVIII e XIX.

Na década de 1840 tivemos uma polêmica mais densa do que a que vivemos hoje, talvez uma farsa daquele debate. Movido por uma visão política e manipulado por interesses editoriais/financeiros, o General Abreu e Lima publicava em 1843 um “Compêndio da História do Brasil” que era anunciado pelos editores como a primeira história nacional escrita por um brasileiro. Quando saiu do prelo, um jovem e ambicioso pesquisador, que seria no futuro o autor de nossa primeira história nacional em sentido moderno, Francisco Adolfo de Varnhagen, escreveu uma resenha demolidora demonstrando ser a “história” de Abreu e Lima na maior parte um mero plágio, uma simples tradução da História do Brasil de Alphonse Beauchamp. O próprio livro de Beauchamp havia sido denunciado como um plágio da pesquisa do historiador inglês Robert Southey. Hoje sabemos por pesquisas recentes que todo aquele embate significava a emergência de uma historiografia autoral, fundada em pesquisa original, na organização dos grandes arquivos nacionais e em novos padrões de direitos autorais e de responsabilidade científica. Aqui.

A história, o papel editorial na produção do conhecimento, a emergência da ideia de autor e o plágio são alguns dos temas desse livro. Um livro indispensável para se entender os rumos contemporâneos da escrita da história, da produtividade acadêmica e da relação do historiador com o passado.

Autor:   Bruno Franco Medeiros
Editora: Paco Editorial
Ano de Lançamento: 2013
Número de páginas: 192

Ele pode ser comprado nesse link da Livraria da Paco.

Sumário:

Parte 1:

  • Capítulo 1: O desafio de escrever história contemporânea
  • Capítulo 2: Leituras do passado colonial americano na crise dos impérios ibéricos: do Império Português ao Império do Brasil
  • Capítulo 3: Que história escrever para o Império do Brasil: polêmicas e disputas por uma história verdadeira

Parte 2:

  • Capítulo 1: Discussões sobre o plágio na França no início do século XIX
  • Capítulo 2: Alphonse de Beauchamp e sua apologia da história
  • Capítulo 3: História, falsidade, romance: a verdade em primeiro lugar, o estilo depois
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3 pensamentos sobre “Plagiário, à maneira de todos os historiadores – Bruno Franco Medeiros

  1. Pingback: Leituras e compras: março 2013 | ao rés do chão

  2. Oi Luara, no vídeo de 13/01/2013 você deu dicas de distopias YA,e lembrei de dois que li há pouco tempo e que acho que tem bastante a ver, mas não tenho certeza se eles se encaixam em YA ou infanto-juvenil, isso me confunde um pouco.
    São eles “Feios” e “Destino”, ambos trilogias, apesar de que “Feios” tem um quarto livro depois da trilogia, gostei muito dessas histórias, são boas pra refletir, principalmente para adolescentes como seus alunos.
    Você já leu algum deles?

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