O sentido de um fim – Julian Barnes

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Capa da edição brasileira, versão da capa inglesa de Suzanne Dean.

Já falei algumas vezes sobre como minha própria expectativa pode frustrar a leitura de um livro. Isso aconteceu com Minha querida Sputinik, e não foi legal. Mas não acho que foi o que aconteceu com O sentido de um fim. Vi muitas pessoas, cuja opinião eu respeito e normalmente me identifico, elogiando o livro, mas mesmo assim não achei que seria uma das melhores leituras do ano. O problema foi que encontrei um livro preguiçoso.

Começando pelo começo, o livro é narrado por Anthony. Ele já está aposentado e vai relembrando passagens de sua vida. Dividido em duas partes, o livro se concentra principalmente nos acontecimentos de sua vida durante o fim da faculdade. Tony, sua namorada Veronica e seu amigo Adrian são os personagens principais. Enquanto Tony narra sua história, conhecemos um Adrian mecanicamente inteligente, e uma Veronica um tanto confusa. Todos têm aproximadamente a mesma idade, e estão se formando no auge da “libertação sexual”, a década de 1960.

Se tem uma coisa que realmente chamou minha atenção, foi o fato da década ser retratada de forma mais complexa do que uma liberdade sexual universal. Veronica não é, e não se sente, tão livre quanto Tony sobre seus desejos. As conquistas libertárias da década de 1960 não foram ignoradas, Barnes só mostrou que elas não foram possíveis para todos na Inglaterra. Ponto positivo para a multiplicidade.

Adrian é um personagem bem misterioso, se o compararmos aos outros dois principais. Enquanto conhecemos família e sentimentos de Veronica e Tony, não conhecemos nada sobre Adrian, temos que nos contentar com uma imagem idealizada que o próprio Tony faz dele. Mas tudo que essa imagem conseguiu me passar foi uma inteligência fria, vazia. Adrian é reconhecido por todos os personagens do livro como extremamente inteligente, mas não me convenceu. E é aqui que volto à questão de como o livro me pareceu preguiçoso.

Durante a leitura só conseguia pensar que o livro poderia ter sido melhor trabalhado. Veja bem, não sou escritora, não sou editora, não sou crítica, mas minha sensação como leitora foi que o livro poderia ter sido melhor se tivesse mais tempo de trabalho.

A questão central do livro pode ser entendida como um embate entre memória e “história”. Anthony tenta o tempo todo se lembrar do que era, de como era, do que o passado dele foi. Várias páginas são dedicadas ao “embate” entre a memória e uma “história como realmente aconteceu”. A própria contracapa do livro traz: “História é aquela certeza fabricada no instante em que as imperfeições da memória se encontram com as falhas de documentação”.

Não posso falar sobre a construção da memória, mas o pouco que posso falar sobre a construção da história é: qual história é certeza? Não a que eu conheço. Exatamente por não ser certeza a história é interessante. Ela muda com a descoberta de documentação? Claro. Mas ela também muda junto com o escritor e o leitor. Já sabemos disso há algum tempo. A história e o passado que Barnes retrata no livro não podem ser buscados, e por isso o embate com a memória parece “forte” demais.

Em um momento do livro, Tony relê uma carta que enviou aos amigos quando era mais novo. Ele, obviamente, se choca com o conteúdo, não se reconhece naquelas palavras e isso desestabiliza suas “certezas” em relação ao julgamento que fez do comportamento dos amigos. E isso é história. Tanto a construção quanto a desconstrução. A história vê isso, prevê isso, precisa disso. Porém, outra coisa que a história precisa não está presente em O sentido de um fim, a história precisa que o observador se identifique, que ele assuma aquilo que lhe é permitido conhecer de si mesmo, mas que também esteja aberto para mudar essa visão durante o processo (Weber já sabia de tudo, mais uma vez). Isso é sempre difícil, mas é o esperado. Mais uma vez, não há certeza, é sempre o caminho da dor e do sofrimento do desconhecido.

Julian Barnes, foto de Ellen Warner

Julian Barnes, foto de Ellen Warner

Ao longo do livro temos vários diálogos, ou pensamentos de Tony, com um “tom filosófico-universal”, e esse foi outro ponto que me frustrou durante a leitura. Sentia que Barnes estava o tempo todo tentando convencer o leitor que aquilo era certo, de que ele mesmo era inteligente, que suas reflexões estavam corretas, que sua escrita era universal, mas comigo não funcionou.

Li a versão traduzida publicada pela Rocco. Encontrei dois errinhos de revisão, um acento, “dúvidava”, e um verbo com terminação trocada. E isso não é nada demais! Super compreensível. Mas me deixou ainda mais com a sensação de que foi um livro apressado. Tanto na escrita quanto na tradução.

Sei que muitas pessoas gostaram muito do livro. Sinto muito por não ter tido a mesma identificação. Mas isso não significa que não podemos ser amigos, certo?

Tradução:   Léa Viveiros de Castro
Editora: Rocco
Ano de lançamento Brasil/UK: 2012/2011
Número de páginas: 159

[ATUALIZADO 18/03 – 21:23]: Esse livro foi escolhido para o mês de março no fórum Entre pontos e vírgulas.

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10 pensamentos sobre “O sentido de um fim – Julian Barnes

  1. Pingback: Leituras e compras: março 2013 | ao rés do chão

  2. Eu não tinha pensado ainda sobre isso de não conhecermos nada sobre o Adrian, mas sabe que vendo isso agora eu gostei disso? Reforça mais essas questões da lembrança, do que é verdadeiro, me deixou em dúvida sobre a índole do personagem, meio que leva o leitor junto nas incertezas do Tony.

    O livro tem muito de “filosofismo” mesmo, não gostei da forma de escrever em si, mas como me identifiquei pontos levantados pelo livro não me vi preso ao enredo simples. Os personagens são pseudo-filósofos achei que essas falas do Tony iam bem com isso.

    Mas isso tudo por que eu gostei da leitura =P rs

    Abraços!

  3. Eu também não gostei, espero que não me odeiem após meu video ir ao ar. Para resumir o livro em uma palavra: forçado.

  4. Oi Luara, acabei de fazer um post e estou carregando o vídeo, até citei você dizendo que foi alguém que não gostou muito do livro, mas eu amei! Adoro essa diversidade….rs

    Talvez porque memórias e esses conteúdos que tomam forma na velhice sejam assuntos pelos quais eu me interesso muito. O livro me remeteu imediatamente a um texto do Luigi Pirandello que se chama Os Aposentados da Memória, que é MUITO BOM!

    Apesar das opiniões contrárias adorei sua resenha e sei que você vai fazer os vídeos com um intervalo maior agora, mas quero dizer que estou com saudades de vídeos novos! =)

    bj

  5. Continuamos amigas, sim!
    Mas eu gostei. É um romance bem simples como tendem a ser os romances destes escritores britânicos contemporâneos (depois de leres Coe ou Lodge dás-me a tua opinião). Mas ao mesmo tempo são livros que não deixam os créditos literários por mãos alheias, estão bem escritos.
    Eu identifiquei-me com a história. Não tanto com a questão filosófica do suicídio mas com a questão principal: a memória e a forma como moldamos a nossa identidade por causa dela. Achei que em certos pontos ele se perdeu um pouco e tornou-se quase paternalista mas lançou para o ar questões muito válidas que ainda hoje relembro de vez em quando.

    • Ufa, Inês! Que bom que continuamos amigas! rs
      Mas quanto ao formato bem escrito, se fosse levar somente isso em consideração, prefiro o Ian McEwan. A escrita dele é muito fluída, difícil de parar. O Barnes me pareceu um pouco “pedante”, mas sem a parte de conteúdo do pedantismo, sabe?
      Mas gosto de saber que o livro faz algumas questões ficaram na mente. Isso é importante…

  6. Lu, eu encontrei mais pessoas que não gostaram do que gostaram. Mas eu achei muito bom! Simplesmente porque a leitura me deu prazer e eu não tinha expectativa nenhuma, achava até que não ia gostar. Mas eu entendo demais, vários livros muito elogiados por aí eu passei longe de gostar, rs. Beijinho!!! =)

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