O cair da noite – Isaac Asimov

Asimov_Capa_baixaO cair da noite é o conto mais conhecido de Asimov. E falar isso sobre uma pessoa que escreveu mais de 400 livros (entre ficção e não-ficção) não é pouca coisa. Publicado em 1941, o conto entrou no auge da literatura pulp – as pulp magazines eram aquelas revistas que publicavam contos fantásticos, de terror e de ficção científica nos anos 1940.

Logo na introdução, escrita por Marcello Simão Branco, temos a informação de que o conto foi escrito por indicação de John W. Campbell Jr., editor da Astounding Science Fiction. A ideia, retirada de uma citação do filósofo Ralph Waldo Emerson, é: o que aconteceria se tivéssemos 2050 anos de dia e só então noite?

Partindo desse mote, Asimov cria o mundo de Lagash. Um planeta que orbita ao redor de 6 sóis, e há 2049 anos não vê a escuridão. Não existem lâmpadas, lanternas ou velas em Lagash, toda luz necessária pode ser obtida através dos seis sóis. Quando algum deles está encoberto, tudo que se pode perceber é uma variação da luminosidade.

– Dos seis sóis, só restou beta no céu. Vê?

A questão era puramente retórica. Beta estava quase no zênite, sua luz avermelhada inundava a paisagem com um laranja incomum enquanto os raios brilhantes de Gama morriam. Beta estava no afélio e menor, muito menor do que Theremon jamais vira antes. No momento, era o governante inconteste do céu de Lagash.

O sol principal de Lagash, Alpha, em torno do qual orbitava, estava do outro lado do mundo, assim como seus dois companheiros mais distantes. A anã vermelha Beta – a companheira mais próxima de Alpha – estava só, melancolicamente só.

Virado para cima, o rosto de Aron estava avermelhado pela luz.

– Em apenas quatro horas – ele disse – acaba a civilização como conhecemos.

Isaac Asimov

Isaac Asimov

E como a humanidade poderia reagir ao desconhecido? Uma religião tenta explicar os acontecimentos ligando-os à alma e ao divino, enquanto alguns cientistas de um determinado laboratório fazem cálculos, alertam a população e esperam uma histeria generalizada. Mas existem também aqueles que acham qualquer previsão motivo de chacota, que duvidam da possibilidade da loucura e mesmo da escuridão.

Mesmo com um caráter fortemente cientificista, o conto de Asimov nos faz pensar em como a humanidade encara o novo. Descrédito, religião e busca científica são as únicas formas de tentar entender o mundo em seus fenômenos naturais e mesmo sociais? Ou é possível alinhar partes disso em uma forma nova de conhecimento?

Os cientistas que acreditam no poder enlouquecedor da escuridão e do desconhecido criam alguns mecanismos para tornar o desconhecido menos desafiador, mas mesmo assim, a decisão final do entendimento cabe às pessoas. E pessoas com medo do que não conhecem e não entendem podem ser bem apavorantes.

Mesmo sendo um conto curto, nessa edição da Arte & Letra ele tem 80 páginas com uma mancha bem pequena, ele consegue criar um clima de tensão crescente. Desde o começo o leitor se sente envolvido pela trama, mas quanto mais nos aproximamos da noite de Lagash, mais nos damos conta de que também estamos apavorados. Realmente compreensível ser eleito um dos melhores contos de ficção científica de todos os tempos.

PS: O próprio Asimov, junto com Robert Silverbeg, transformou esse conto em um romance em 1990. Pelos comentários que vi, não ficou nada bom.

Tradução:   Ana Cristina Rodrigues
Editora: Arte & Letra
Ano de lançamento Brasil/EUA: 2012/1941
Número de páginas: 80
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18 pensamentos sobre “O cair da noite – Isaac Asimov

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  3. Adoro passar por aqui e ver suas resenhas. Sempre saio com mais um livro na lista de “vou ler”.
    Gostei da temática de como as pessoas lidam com o desconhecido.
    bjo

  4. meu comentário vai estar fora de contexto mas… como os comentários dos seus vídeos no youtube estão desativados, vou falar aqui mesmo. Cadê seus vídeos do rubro coletivo??? ahhh q pena q excluiu, eu adorava, assistia inúmeras vezes haha, e um video q eu mais gostava era aquele “o que tem na minha bolsa”. Volta com eles?????? !!!

    ano passado vc leu 1Q84 vol 1… Já leu o volume 2 ?? eu to terminando ele agora e to achando incrível o desfecho !!

    bju =)

    • Oi, Cintia, o rubro agora é só da Tatiana, mas continua lá, ok?

      Os meus vídeos do YT sumiram mesmo! Rs
      Eu ia selecionar alguns mas acabei apagando alguns… Mas continuo gravando ok? Só que eles vão ficar mais distantes um do outro.

      De qualquer forma, obrigada pelo carinho! :)

      Quanto ao 1Q84, ainda não comecei o 2, mas tô me mordendo de curiosidade!!!!!! Rs

      • Luara eu acho o 1Q84 simplesmente maravilhoso, gosto da narrativa envolvente, me identifico com os personagens… acho demais!!
        Gostaria de fazer um pedido, se um dia vc tiver tempo pra isso: indicações de livro no mesmo estilo de 1Q84. É que gostei tanto!!

        adoro o blog e o canal, já tô ansiosa pelo próximo video! ;)

  5. Oi Luara! Ótima resenha, como sempre (:

    Viu, saudades dos seus videos no youtube! E eu não consigo acreditar que você fez uma limpa na sua lista de uploads, fui louco esses dias pegar umas referências de uns livros que você tinha comentado e cheguei lá e cadê os videos? :(

    Bom, de qualquer forma espero que venham videos novos por aí.
    Um abraço, tudo de bom pra você! (:

    • Oi, Erick, na verdade eu ia deixar alguns vídeos em “privado”, até ter tempo de editar, mudar abertura etc. Mas fiz alguma coisa errada e acabei apagando todos dessa lista. :/
      Mas continuarei fazendo vídeos, só que com mais tempo entre um e outro…

  6. Luara, você viu o filme: “Eva Um Novo Recomeço”? É lindo e a história se parece muito com as dos contos sobre robôs do Azimov. Tenho certeza de que o filme teve como embasamento muito dos conceitos dele. Vale a pena ver!
    Abs!

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