Um romance russo – Emmanuel Carrère

alfaguara_capa romance f4Tenho medo da loucura. Não vejo filmes em que personagens enlouquecem e não leio livros que têm hospitais psiquiátricos como cenário. Mesmo assim, comecei a ler O bigode, conto de Emmanuel Carrère, e precisei parar no meio. Embora, até a parte que eu tenha lido, o livro trate mais de noções da realidade do que de loucura, achei melhor começar a ler o autor por outro livro. Me indicaram Um romance russo, e acredito ter conseguido um bom começo.

Por mais que seja partidária da tradução brasileira do título francês, Un roman russe, acho que a tradução norte-americana dá uma ideia melhor da obra: My Life as a Russian NovelO livro tem sim a Rússia como pano de fundo em algumas situações, mas acredito que a discussão sobre a pessoa do narrador (também chamado Emmanuel Carrère) seja mais importante. Ainda na edição norte-americana, o livro está classificado como “memórias”, uma jogada no mínimo complicada.

Emmanuel, o narrador, tem três histórias a contar: sua participação em uma reportagem sobre um soldado húngaro que ficou 50 anos em Kotelnich, Rússia, e agora volta para casa – sem falar uma palavra em russo; sua busca pelo paradeiro do avó, imigrante georgiano na França, que o levará também a uma busca pelo idioma russo; e sua relação com Sophie, uma relação apaixonada, patética e erótica.

Carrère vai trabalhando com esses três temas a fim de retratar dois anos de sua vida. Esses dois anos foram reais, a reportagem existiu (o filme, Retour à Kotelnitch, realmente foi produzido), sua mãe realmente é uma acadêmica francesa de renome e eu boto minha mão no fogo pela existência de Sophie, mas isso não significa que não estamos lendo um romance ficcional. E, pra ser sincera, não me importa muito pensar em quais acontecimentos do livro são “reais” e quais foram “inventados” por Carrère. É um bom livro, muito bom, e isso me bastou.

Classifiquei o personagem Emmanuel Carrère com diversos adjetivos durante a leitura, de arrogante a sensível, passando por pedante e inteligente, é esse personagem que prende a leitura. É com ele que pensamos sobre identidade, família, aquilo que queremos trazer e aquilo que somos obrigados a. Sem dúvida foi o desenvolvimento de seu personagem o que mais me chamou a atenção no livro. Seus medos, ciúmes e desejos são tão improváveis e ao mesmo tempo tão possíveis que me deixaram um pouco impressionada.

Toda narrativa do livro traz formas reconhecidamente literárias, mesmo ao trabalhar com temas “reais”, e, entre essas formas, podemos ver uma multiplicidade que se aproxima mais de uma construção humana (no sentido de construir o humano) do que uma narrativa mais tradicional, com início-meio-fim, seria capaz. Esse trabalho fragmentado mas ao mesmo tempo explorador de conteúdo me agradou muito. Carrère não só experimenta em formas, como também experimenta no que pode ser contado – a questão da construção da própria identidade aparece como local mais que adequado para a discussão.

Por fim, posso dizer que além de gostar muito do livro estou ansiosa para ler Outras vidas que não a minha (Alfaguara,  2010) e Limonov.

Li esse livro pouco depois de ter lido O céu dos suicidas, de Ricardo Lísias, e é impossível não pensar em algumas semelhanças. No livro de Lísias, o narrador também “é” o autor, e fatos de sua vida “real” são o mote da narrativa. Mas se tivesse que escolher, ficava com o brasileiro.

Tradução:   André Telles
Editora: Alfaguara
Ano de lançamento Brasil/França: 2008/2007
Número de páginas: 247

Para ler o começo do livro no site da editora, aqui.

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16 pensamentos sobre “Um romance russo – Emmanuel Carrère

  1. Pingback: Eu estou vivo e você está morto: uma viagem pela mente de Philip K. Dick – Emmannuel Carrère | ao rés do chão

  2. Pingback: Leituras e compras: março 2013 | ao rés do chão

  3. Saudades dos seus vídeos …
    uma vez falei com você pelo twitter sobre minha dúvida entre kobo e kindle, acabei ganhando o kindle e amei … não cheguei a experimentar o kobo, mas entrei nessa de e-book por causa das suas resenhas, e é viciante.
    beeeijos

  4. Interessante você falar que não gosta de uma determinada temática, ou algo do tipo. Já eu, detesto personagens cleptomaníacos e evito ver filmes e ler livros com eles (Parei de ler A visita cruel do tempo por causa disso). Mais uma das tuas indicações que vai para meus Desejados!

  5. Eu fiquei com uma dúvida: o que você acha que real e o que não é real no livro? Ou melhor, o que você avcha que é inspirado na vida dele?

    • Oi, Ju, o que eu escrevi é que não me importo com essa distinção. Embora alguns acontecimentos sejam “reais”, como o filme, o nome da mãe dele etc., outros podem ser ficcionais, não temos (e não acho interessante ter) como saber…

      • Acho que eu entendi agora…
        Quando eu li esse livro ele me impactou bastante modos que passei a ler tudo que podia sobre ele. Pelo que eu entendi, toda a base do livro é real. E eu gosto de pensar que tudo ali é mesmo verdade e que ele foi capaz de escrever esse livro sem se permitir qualquer concessão. Para mim, a ficção fica por conta do modo como a história foi contada. Gosto da ‘justificativa’ contida aqui nessa frase:

        “Eu queria merecê-la, ainda que saiba ser tarde demais. Eu queria escrever, na ausência e na saudade, um livro contando nossa história, nosso amor, a loucura que se apoderou de nós neste verão, e que esse livro a fizesse voltar.”

        Enfim, toda leitura é pessoal, né? E o fabuloso é isso, duas pessoas com vivências diferentes lêem o mesmo livro e para cada uma delas a historia se coloca de um jeito. A leitura é de dentro para fora mesmo, e isso é – para mim – o mais apaixonante em ler.

        Obrigada pela resposta.

        Um abraço.

  6. Eu consegui ler O bigode até o fim e achei-o incrivelmente impactante. A estória vai num crescendo até o fim que é no mínimo angustiante. Tanto assim que eu vinha em um ritmo veloz lendo a estória e tive que desacelerar drasticamente ao final senão não dava. Apesar da experiência desagradável ao final, quero ler mais Carrère.

  7. A primeira coisa que pensei quando abri esse post foi “Meu Deus, que capa é essa??!”, linda não?
    Eu sou contrária ao seu gosto quanto à loucura, sou formada em psicologia então a saúde mental é meu maior interesse, sempre! Mas você escreveu uma coisa que é o ponto básico de quem gosta, estuda e “entende” a loucura que foi: E, pra ser sincera, não me importa muito pensar em quais acontecimentos do livro são “reais” e quais foram “inventados”.
    Essa é a premissa dos psicólogos e psicanalistas, achei interessante você pensar assim ainda que queira se afastar do assunto.
    Estou tentando arduamente não aumentar minha lista de livros desejados pra ler, porque ela já está exageradamente enorme, por isso não vou ler o trecho do livro desse link….rs
    Bjo!

  8. Sua resenha me deixou com muita vontade de conhecer o Emmanuel Carrère – mais um na lista que só cresce.
    Sinto falta de vê-la em vídeos, mas é bom saber que continua com o blog.
    Um beijo!

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