Anatomia de um julgamento: Ifigênia em Forest Hills – Janet Malcolm

Cena 1: Uma mulher, vestida de saia longa e blazer claro, com os cabelos compridos e soltos, está sentada no banco de réus de um julgamento. Acusada de encomendar a morte do marido, a imigrante russa fala bem inglês, mas não expressa emoções durante o julgamento.

Cena 2: Usando uma saia longa e com os cabelos jogados nas costas, a imigrante russa e judia bucarana está sentada, imóvel, no banco de réus. Acusada de planejar o assassinato do ex-marido e pai de sua filha, não demonstra emoções durante o julgamento. A filha, que assistiu ao assassinato do pai, agora mora com a família paterna.

anatomiakindleEm Anatomia de um julgamento, Janet Malcolm analisa o julgamento de Mazoltuv Borukhova, (médica, imigrante russa e judia ortodoxa bucarana) acusada de planejar o assassinato do ex-marido, Daniel Malakov, após ter perdido a guarda da filha, Michelle. Todos esperam um julgamento rápido, juiz – com férias marcadas –, jornalistas e a família Malakov, mas o caso se arrasta até o limite. Pela escrita de Malcolm, ficamos com a sensação de que Borukhova não poderia ter cometido o crime, mas tudo leva a crer que ela cometeu.

Sempre problematizando o trabalho do jornalista, a autora passa também pelo trabalho do advogado, do escritor e do próprio leitor. “Passamos a vida ouvindo mal, vendo mal e entendendo mal para que as histórias que contamos a nós mesmos façam sentido. Os advogados levam essa tendência humana a um nível superior. Eles estão fazendo apostas mais altas que nós quando remendamos a realidade, a fim de transformar a história contada por um idiota em uma narrativa ordenada, que sirva aos nossos interesses.”

O julgamento de Borukhova acaba abrindo espaço para pensar também o preconceito, como aquilo que queremos enxergar quando nossas ideias estão tão solidificadas que não queremos modificá-las a partir de um acontecimento. “Digamos que você torce para os Yankees ou para os Mets e eles estão jogando na World Series. É o nono inning e parece que poderia ser um home run, mas a bola chega muito perto da linha de falta. Você pode vê-la como válida ou pode vê-la como inválida – não porque você quer mentir, mas porque é o que você quer.”

Malcolm opta por uma escrita em capítulos curtos, as 200 páginas estão divididas em mais de 15 capítulos, que seguem as etapas do julgamento, ao mesmo tempo em que abrem espaço para digressões temporais que explicam elementos com os quais não estamos familiarizados.  Tal opção deixa o leitor com a sensação de estar lendo um thriller. Não conseguimos deixar de virar as páginas (li o livro todo de uma vez) e nos vemos cada vez absortos na trama, fato que nos leva algumas vezes a esquecer que o julgamento de fato aconteceu, que alguém de fato foi assassinado e que alguém de fato foi condenado.

A proximidade narrativa entre ficção e não ficção não passa despercebida pela autora. Ao final do livro, temos uma longa entrevista em que ela fala sobre os aspectos da narrativa, suas influências literárias e seu método de escrita.

Através da narrativa criada para o julgamento, no sentido da construção de uma linearidade que não pode ser reconstruída à medida que não existiu, o leitor pode pensar sobre os limites de outras narrativas cotidianas. Não só da narrativa de algo do passado, uma narrativa histórica, mas também da narrativa que organiza os acontecimentos presentes, que sempre está misturada a passado e futuro, como a descrição das cenas 1 e 2 no começo desse texto. A escolha de palavras, o posicionamento de adjetivos e advérbios, o próprio tom da frase demonstra algo. Precisamos de um discurso coerente e que produza sentido, essa é a nossa forma de lidar com o mundo, mas ao mesmo tempo é necessário lembrar que esse discurso é sempre uma escolha e, como toda escolha, nos obriga a abandonar opções.

A narratividade do mundo é levada a outro nível em um tribunal. As cenas são dispostas e orquestradas segundo indicações muito distantes do real. “Na vida, nenhuma história é contada duas vezes exatamente da mesma forma. À medida que o barro úmido da realidade passa de mão em mão, assume diferentes formas engenhosas. Esperamos que isso aconteça. Somente em julgamentos o fato de fazer isso é equiparado a inventar.” Meu conhecimento de direito é preocupantemente baixo, mas acredito que alguém familiarizado com os tramites legais possa ver detalhes ainda mais inquietantes na escrita da jornalista.

Conheci a escritora com A mulher calada: Sylvia Plath, Ted Hughes e os limites da biografia, um livro fantástico que deve aparecer por aqui em algum momento, e Anatomia não me decepcionou. A problematização da escrita em meio ao seu desenrolar (não no estado “puro” de uma teoria da narrativa) me agrada muito. Em breve devo ler O jornalista e o assassino, obra mais famosa de Malcolm e que está traduzida para o português.

Recomendo fortemente a leitura, não só para jornalistas, mas para qualquer um interessado em construções ficcionais.

Tradução:   Pedro Maia Soares
Editora: Companhia das Letras
Ano de lançamento Brasil/EUA: 2012/2011
Número de páginas: 200

Destaquei duas frases sobre a problematização da profissão “jornalista”:

“Qualquer jornalista que não seja demasiado obtuso ou cheio de si para perceber o que está acontecendo sabe que o que ele faz é moralmente indefensável.” – em O jornalista e o assassino apud.

“O jornalista e o psicanalista são connoisseurs dos pequenos movimentos desprezados da vida. Ambos garimpam a superfície – sim, a superfície – em busca do ouro do insight. A metáfora da profundidade – como na psicologia profunda – está errada,como o psicanalista Roy Schafer apontou. O inconsciente está ali na superfície, como em A carta roubada, de Poe.”

Li o livro na versão digital. A formatação estava muito boa, mas tive um grande problema com as siglas, durante todo o livro elas apareceram em caixa baixa. Pode parecer bobagem, mas ler fbi e cia por mais de duas páginas é realmente irritante.

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10 pensamentos sobre “Anatomia de um julgamento: Ifigênia em Forest Hills – Janet Malcolm

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  3. oi Luara, eu tenho o kobo e tenho problemas com ele para ler textos vem palavras emendadas uma na outra e separações na mesma linha e estou lendo nele “Um tempo entre costuras” – Maria Dueñas sugestão de “O batom de Clarice” um abraço glaucia

  4. Luara:
    Também li o livro. Impressionante como o futuro de uma pessoa depende mais de fatores como carisma, simpatia, boa oratória, do que dos próprios fatos. O julgamento mais parece um teatro em que os atores competem pela melhor atuação, independentemente da verdade. Mesmo sem termos certeza da culpa de Borukhova, não ficou com raiva daquele advogado (Schnall) contratado pelo Estado para defender os “interesses da criança”? Fiquei com a sensação de que uma pessoa mais adequada àquela função (uma assistente social) e realmente comprometida com os interesses da criança poderia evitar todo o episódio.
    Os outros dois livros da Janet Malcolm já estão na pilha de espera.
    Abraço.

    • Oi, Cristiano, entendo sua posição, mas acho importante lembrar que a própria autora problematiza o seu lugar de escrita. Desde o começo ela é simpática à ré, e é natural que, ao lermos o que ela escreve, nos identifiquemos com essa posição. Mas mais do que culpar as pessoas, acho que ela fala sobre a impossibilidade de seus papéis serem cumpridos, por elas ou por qualquer um.
      Abraços!

  5. Oi Luara!!! Que grata surpresa tive em ver que tinha post seu neste fim de feriado!
    O livro parece ser muito instigante…
    Nossa, a sua resenha tá maravilhosa! Vc escreve muuuito bem, Luara!
    Bjs!

  6. Adoro livros que me façam virar a página sem parar. Acabei há alguns minutos 1Q84 e foi exatamente isso que aconteceu. Uma vez vi um livro na Fnac que contava os 10 julgamentos mais famosos dos EUA e não comprei, me arrependi muito porque nem lembro mais o título do livro.
    Mais um pra lista de “quero muito ler”
    Bj

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