Fluam, minhas lágrimas, disse o policial – Philip K. Dick

E se um dia você acordasse e todos os registros da sua vida não existissem mais?

Sei que a capa é linda, mas me dá um pouco de tontura

Sei que a capa é linda, mas me dá um pouco de tontura

Jason Taverner é o apresentador mais popular da TV, mais de 30 milhões de espectadores assistem seu programa semanal; tudo que ele toca, vira sucesso. Mas em 12 de outubro de 1988, ele acorda como um desconhecido. Nada relacionado a ele pode ser encontrado. Nenhum fã, nenhum amigo, nenhuma lembrança, nenhum documento. Em um planeta dominado por policiais onipotentes, não ter registro é um crime gravíssimo.

Preocupado em manter-se longe dos pols, Taverner anda pelo submundo dos EUA, comprando documentos falsos, rastreadores e passes-livres. Algumas vezes, chega a ser confundido com um estudante revolucionário – todas as universidades estão sitiadas por professores e alunos que não concordam com o regime policial –, pela falta de documentação.

Cada vez mais, as respostas às perguntas de Taverner parecem distantes: ele já foi algum dia famoso? Ele realmente namorou Heather Hart? Dúvidas tão existenciais deixariam qualquer ser humano em um estado, talvez permanente, de loucura mas Jason Taverner é um Seis. Ele e mais cinco pessoas foram escolhidos para uma experiência de melhoramento genético. Seus sentidos foram aguçados, juntamente com o poder de atração que podem exercer em outras pessoas.

Através das dúvidas desse personagem, Philip K. Dick vai construindo uma narrativa que questiona os limites da percepção e da realidade. Juntando manipulação genética, regime opressor, drogas recreativas experimentais e conflitos humanos (um quadro de incesto aparece de forma um tanto surpreendente no meio do livro), ele consegue lançar questionamentos sobre o que é o real, o perceptível e o sensorial.

Sempre me sinto inquieta ao ler sobre desvios de percepção e influência no real, acho que é um medo crônico, e imemorial, da loucura. Mas até a loucura como possibilidade de criação de uma nova realidade está presente em Fluam.

O futuro próximo da data de escrita do romance, 1974, pode levar alguns leitores à pergunta do que caracteriza a ficção científica: é possível fazer FC sobre o presente? Acredito que sim. A ficção científica pouco tem a ver com uma “ciência dura” e muito com percepções de realidade. Não nego que seu traço mais comum seja a exploração do futuro, mas todos sabem que isso está muitas vezes ligado – algumas vezes com infelizes fatores de causa/efeito – ao presente.

Ultimamente, os livros de PKD estão sendo adotados em escolas/universidades americanas (não que ele precisasse de um reconhecimento extra, mas enfim) e alguns autores da “alta literatura” já se pronunciaram sobre sua obra (pelas bandas de cá, Roberto Bolaño e Ricardo Piglia). Acredito – ou quero acreditar – que a FC está sendo vista, cada vez mais, como um gênero relevante não apenas comercialmente.

Tradução:   Ludimila Hashimoto
Editora: Aleph ♥; 255 p.
Ano de lançamento Brasil/EUA: 2013/1974
Título original: Flow my tears, the policeman said

*Só para informar: os livros do Philip Dick estão sendo relançados pela Aleph com esse projeto gráfico diferente. O nome do livro é, na verdade, um adesivo, e dentro do livro você encontra mais dois com formatos diferentes. A ideia é que cada leitor pode colar e mudar a “cara” do livro como quiser. O projeto é do Pedro Inoue.

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20 pensamentos sobre “Fluam, minhas lágrimas, disse o policial – Philip K. Dick

  1. Oi Lu, adorei esse post! Ainda não li esse livro mas adoro os livros do PKD, o meu favorito ainda é o “Do Androids…” que estou relendo no Kindle, da Aleph só li mesmo a coleção de contos “Realidades Adaptadas”, mas tem obras do PKD que eu simplesmente detestei como “Mary and the Giant”, que foi uma obra encomendada, talvez por isso tãooo extremamente chata.

  2. Comecei a ler o livro ontem e confesso que ainda estou beeeem perdido.Tenho que ler mais de uma vez algumas passagens,para conseguir pegar o gancho.Rs.Confesso que pensei que seria outro tipo de ficção científica…mas,vamos lá,ver no que dá!hahahaha.Obrigado pela resenha!Beijos!

  3. Pingback: Eu estou vivo e você está morto: uma viagem pela mente de Philip K. Dick – Emmannuel Carrère | ao rés do chão

  4. Eitaa so falta esse pra mim ^.^
    essas ediçoes da Aleph estao lindas ^.^
    Lu comprei o cair da noite do Asimov graças a vc ^.^
    Ja li, nossa muito bom, sou viciada em Asimov tambem ^.^

    Grande beijo

  5. Ainda não li nenhum livro do Philip Dick, mas sinto que vou gostar muito. Até já comprei O Homem do Castelo Alto, graças à sua resenha. Preciso ler logo…
    bjo

  6. Pingback: Leituras e compras: maio de 2013 | ao rés do chão

  7. Por esses dias comprei um livro chamado Os Enamoramentos, de Javier Marías, e ele veio com um outro de brinde que, soube depois, é muito citado nesse Os Enamoramentos. O livro se chama O coronel Chabert e eu li logo depois de ler esse post aqui. Achei parecidíssimo com o início da sua descrição do Fluam minhas lágrimas. Não se trata de ficção científica mas é sobre um homem dado como morto que se acha numa vala junto a vários cadáveres, quando consegue sair passa um tempo doente e desmemoriado, vagando como mendigo até recobrar a memória e se dar conta de que é uma importante personalidade da França. Então vai atrás de seu título, sua esposa (que já havia se casado novamente) e seus bens, que lhe são negados. O livro fala dessa busca pela identidade, pelo seu nome e, apesar de curto, é um livro fortíssimo. Se tua lista de livros a ler não estiver muito grande, indico fortemente. :)

    • Oi, Olga,
      Não existe tal coisa como “lista muito grande de livros para ler”, sempre cabe mais um! rs
      Tenho o “Enamoramentos” no Kindle, e não sei pq ainda não comecei a ler…
      Beijos!

  8. A capa dá tontura mesmo! Só de ver pela internet já dá, imagine com o livro em mãos! rs. Isso deve ter um prósito né, algo ligado a ilusão em oposição à realidade…

  9. Oi Luara!
    Gostei muito do teu post e estou pensando em ler a obra do Philip K. Dick. Mas tenho uma dúvida. Você sabe se existe alguma relação entre os livros que indique uma ordem a ser seguida? Seria a ordem de publicação a melhor a ser seguida ou são todos independentes?
    Um Abraço!

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