Sua voz dentro de mim – Emma Forrest

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Emma Forrest (36) é, atualmente, uma roteirista de cinema que mora em Los Angeles. Mas, quando ainda tinha 22 anos, mudou-se da Inglaterra para Nova York depois de ser contratada como jornalista do Guardian. Seu primeiro romance seria lançado no mesmo ano. Era um ano anterior ao 11 de setembro, Emma entrava no sonho intelectual americano sem nenhuma ranhura. Mas sua sanidade se parecia pouco com o sonho.

Automutilação, bulimia e sessões de análise começam a fazer parte da vida da jornalista, que dedica ao dr. R (seu psiquiatra) seu livro. E realmente esse vai ser o tom do livro, um agradecimento ao profissional que foi capaz de dispensar o carinho e a atenção necessários à sua recuperação. Um livro de memórias de Emma poderia ter outros temas, e eles aparecem no decorrer da narrativa, mas o que fica é seu relacionamento e agradecimento ao médico.

O livro cobre os oito anos em que foi paciente do dr. R e, durante esse período, alguns flashbacks são indispensáveis. Aqui, a cena que servirá de fio condutor do livro e uma das primeiras a aparecer, é a de uma jovem Emma, com 13 anos, entrando na galeria Tate e observando por horas o quadro de Millais, Ofélia. Desde então, seus momentos de plenitude estão muito próximos aos de descontrole.

Ofélia, John Everett Millais - 1852

Ofélia, John Everett Millais – 1852

Seus namorados durante os oito anos aparecem como personagens importantes na narrativa. Relacionamentos que levam ambos ao fundo do poço, ou relacionamentos que trazem paz, eles aparecem como uma forma de mapear o desenvolvimento de sua doença e sua recuperação. Nessa área, o que gera maior frisson é o relacionamento com o Marido Cigano, ou MC, conhecido por nós como Colin Farrell. O nome de Farrell não aparece no livro e a própria Emma nunca disse com todas as letras que MC era Farrell, mas ao que tudo indica, ele é. O relacionamento dos dois dura por volta de um ano, e termina em um momento muito delicado para Emma.

Sempre achei complicado escrever alguma coisa sobre um livro de memórias, afinal, o que é possível dizer quando uma pessoa resolve abrir sua vida, o que é possível dizer sobre uma vida? Por isso, nesses casos, sempre tento pensar em termos de escrita e personagens. Mesmo em livros classificados como ficcionais, procuro não “julgar” aspectos morais de personagens, não me importa se tal personagem é bondoso ou se qual personagem é mesquinho, é a construção deles pela narrativa que me interessa. E no caso de memórias, isso me parece ainda mais importante.

Assim, posso dizer que, enquanto leitora, gostei da construção narrativa dos eventos do livro. Mesmo tratando de um tema duro e sombrio, Emma Forrest traz um alívio (nada de comic relief, é só comic sem relief) em alguns personagens. A menção honrosa aqui vai para sua mãe, que aparece como uma pessoa encantadora ao lidar com a doença da filha de forma carinhosa mas não castradora, disponível mas não impositora de presença. A forma de escrever também é muito característica, não me surpreende que os elogios colados à capa do livro sejam de Nick Hornby e Gary Shteyngart, todo um clima inglês está presente no livro.

Por fim, achei o livro sincero, não de uma sinceridade objetivista, mas a sinceridade possível quando falamos da nossa própria vida. Por volta da metade do livro, a própria autora coloca que o fato de ser uma mulher de classe média que conta com uma família que a apoia diz muito sobre sua doença; não existe uma relação de causa e consequência, mas existe uma condição social que possibilita não só o tratamento como a própria doença. Observar a própria vida não é tarefa simples, reconhecer aquilo que é possível reconhecer naquele momento é corajoso.

Partindo para um assunto mais geral, a capa brasileira do livro e as outras capas que pesquisei na internet me fizeram pensar nesse post da Iris, e se o livro tivesse sido escrito por um homem? Ele seria diferente? Acredito que sim. E esse é um padrão que entristece.

Tradução:   Maira Parula
Editora: Rocco; 191 p.
Ano de lançamento Brasil/EUA: 2013/2011
Título original: Your voice in my head
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15 pensamentos sobre “Sua voz dentro de mim – Emma Forrest

  1. Não achei o vídeo em que você falou desse livro no youtube, então vim comentar aqui. Li esse mês e fiquei impressionada com a capacidade da autora de falar de si mesma em momentos tão difíceis, mas de forma tão elucidativa que parecia que estava falando de outra pessoa. Adorei o livro, gosto de relatos que nos façam re-pensar a “loucura”, que quebrem os esteriótipos que temos e nos façam perceber que o que nos incomoda no outro pode estar causando um sofrimentos enorme pra ele mesmo.
    Beijo!

  2. Oi
    Tenho uma pergunta mas não tem nada a ver com o post.. desculpa!
    É sobre o kindle paperwhite. Quero adquirir um e queria saber se vc já testou mandar um livro que não tenha sido comprado na amazon pelo send to kindle, e se funciona.
    Estava quase pegando um kobo, mas são tantas reclamações que desanimei :(

  3. Gosto muito de relatos autobiográficos e sinto a mesma dificuldade que você em falar a respeito. A pessoa abriu sua vida ali, na maioria das vezes na tentativa de ajudar os outros a partir do seu sofrimento ou de ter um processo catártico com a escrita… Não consigo julgar. Vou lendo e gosto quando parece que estou ouvindo a pessoa ao meu lado contando sua história, o que parece ser o caso. Já tinha me interessado pelo livro quando você falou no video, agora ainda mais.
    Beijos,
    Tati

  4. Final de abril e todo o mês de maio me vi cercada por livros que, de um jeito ou de outro, falam de distúrbios psicológicos, loucura e afins. Comecei com Gonzos e parafusos, Ciranda de Pedra, Norwegian Wood [adorei!], Dez Mulheres, enfim… Eu fiquei tentada a ler esse também, mas acho melhor dar um tempo na temática! ;)
    Gosto demais da forma como escreve, e adorei a resenha! ;)

    Xerinhos
    Paty

    PS: Sou apaixonada pelas imagens que evocam à Ofélia!! ;)

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