Eu estou vivo e você está morto: uma viagem pela mente de Philip K. Dick – Emmannuel Carrère

9780312424510A tarefa da biografia é sempre ingrata; como trabalho ficcional, como relato histórico e como contato com o indivíduo biografado. Um dos livros mais bonitos que li sobre o fazer da biografia foi, sem dúvida, A mulher calada de Janet Malcolm. Nesse livro, Malcolm trata da vida de Sylvia Plath, mas também – e principalmente –, ela trata do como fazer da biografia. É possível chegar a um veredito? É possível falar sobre a vida de alguém? Quais são os limites éticos nos assuntos que envolvem outras pessoas? E quais aspectos da vida individual não envolvem ninguém? O livro é lindo. Tanto como biografia quanto como reflexão teórica. Recomendo fortemente. Mas, como seria possível escrever a biografia de um autor que acredita que suas produções ficcionais podem ser reais? Como escrever a biografia de um autor de ficção científica que, entre o vício em remédios controlados e descobertas religiosas, passa a considerar a possibilidade de realidade em sua ficção?

Carrère não escolheu uma tarefa fácil. Reconhecido autor de ficção, Carrère já tinha escrito sua novela O bigode (1986) quando publicou a biografia de Philip K. Dick, em 1993. Um autor francês escrevendo a biografia de um, no mínimo, peculiar escritor de ficção científica (um gênero que cresceu nos EUA mais do que em qualquer outro país) já seria inusitado. Mais ainda se esse autor é reconhecido por seus romances literários. Por mais que O adversário (2000), Um romance russo (2007) e Outras vidas que não a minha (2009) tenham sido publicados após a biografia de PKD, é difícil lê-la hoje sem pensar nesses romances em gestação.

Mesmo que não tenha escolhido fazer uma reflexão direta sobre a biografia, ou mesmo sobre o romance ou a ficção, Carrère não deixa espaços para certezas. Durante todo a biografia, a vida de PKD é apresentada juntamente com seus livros, e a escrita deles muitas vezes se mistura com seus acontecimentos cotidianos. Temos, inclusive, dois capítulos do final da biografia baseados em Valis, o último livro de Philip Dick – mesmo que depois Phil Dick ou Horselover Fat* tenham publicado algo.

Ao falar sobre a vida constantemente atormentada de PKD, Carrère mostra uma sensibilidade narrativa incrível, em nenhum momento as neuroses e suspeitas de PKD são motivo de piada, suas dúvidas e perseguições são escritas não como verdade ou possibilidade, mas como uma faixa da realidade.

Philip+K+Dick

Philip Dick

Philip Kindred Dick nasceu em 1928 e foi um dos maiores escritores de ficção científica de todos os tempos. Suas formas de trabalhar a realidade ainda hoje são capazes de exercer um efeito mais do que perturbador em diversos tipos de leitor. Philip teve uma irmã gêmea, Jane, que morreu ainda bebê. E é essa morte que, de uma forma ou de outra, guiará Eu estou vivo. Sempre que a psique de PKD se altera ou confronta, a figura de Jane aparece na narrativa de Carrère.

De aspirante a escritor literário até porta-voz da contracultura, passando por overdose de medicação controlada e uma única viagem de LSD, a vida de Dick é mostrada de forma linear e tradicional em Eu estou vivo. Não existem invenções narrativas ou viradas temporais. Uma concentração nos anos de maior produção literária de Philip Dick, sem dúvida, mas nenhum tiro mais ousado estilisticamente – o que me parece um acerto, uma vez que a vida do biografado já apresenta “narratividade” suficiente.

Para interessados em ficção científica, o livro é um prato cheio para discussões sobre realidade e autoria. Mas já aviso, se você é sensível a spoilers, é melhor ler algumas obras de PKD antes de encarar a biografia (O homem do castelo altoUbikFluam, minhas lágrimasO caçador de andróidesValis). Para quem gosta de biografias, um bom exemplo de como uma vida passada “dentro da própria cabeça” pode ser posta em capítulos. Já para quem se interessa por assuntos psicológicos, as palavras “esquizofrênico” ou “esquizóide” são usadas pouquíssimas vezes, e menos ainda para descrever PKD. Faz pensar.

*Horselover Fat é uma “tradução” do nome Philip Dick. Dick em alemão significa gordo, fat em inglês, e Philip significa adorador de cavalos ou Horselover.

Trechos:

If he could only come and go as he pleased, moving in and out of the world of illusion, and continue to play his role in it but without losing his precious clarity and insight, it would be… How would it be? Nice? Definitely not. But who care about what was “nice”; what he wanted was to know, to not be fooled. Yet already he could feel that what he had foreseen was now happening: illusion was crowding out reality and it was no use fighting it – he had already stopped believing what he knew to be true. His last conscious wish was that the clarity and insight would return someday, if only briefly. p. 86

.

Three decades of psychoanalysis – Jungian, it’s true – couldn’t rid Fat of his magical, primitive conceptions of the nature of dreams. Refusing to see them as a brown-bag meeting where the only lunch you get to eat is the one you’ve brought with you, he kept looking for messages in them, messages from outside himself. p. 263

.

There’s nothing more pathetic than the mistrust of immediate reality by people who never stop splitting hairs over Ultimate Reality. They always think they’re getting to the bottom of things, whose surface they turn away from as unworthy of their attention; they end up never knowing the flesh of the world, the softness and resistance it offers to the touch. They manage to bypass their own lives. p. 308

Emmanuel Carrère

Emmanuel Carrère

Título original: Je suis vivant et vous êtes morts
Tradução: Timothy Bent
Editora: Picador
Ano França/EUA: 1993/2004
Número de páginas: 315
Anúncios

7 pensamentos sobre “Eu estou vivo e você está morto: uma viagem pela mente de Philip K. Dick – Emmannuel Carrère

  1. Gostei bastante das suas impressões ^_^ Pelo que entendi, Carrère escreve sobre Dick de forma sincera, sem julgá-lo, mostrando unicamente os fatos?!
    Bem, um dia lerei “Eu estou vivo e você está morto”. Valeu pela dica, Luara! ;D
    Beijos!

    • Oi, Lulu,
      O livro é ótimo e vale muito a pena, mas não vá procurando “unicamente os fatos”. Carrerè escreve com paixão, é possível sentir a admiração. E bem… acho que nem o PKD via unicamente os fatos, não é?
      Beijinhos!

      • Oi Luara! Tudo bem?
        Bom saber que Carrère escreveu a biografia com paixão. Estou mais empolgada!
        “(…) acho que nem o PKD via unicamente os fatos, não é?” Pois é ^_~
        Beijos!

  2. Pingback: Leituras e compras: resumo de junho em vídeo | ao rés do chão

  3. Ei, Luara,
    Bela resenha. Do Philip K. Dick, “Do Androids Dream of Electric Sheep?” é meu livro predileto. Acho que li em algum lugar (talvez algum blog literário…) que esse livro será traduzido e lançado no Brasil. Sabe se a informação procede? :-)

  4. Em me lembro de ter lido, na sinopse, que o mote para O bigode aconteceu durante a escritura dessa bio. E justamente o personagem mistura ficção e realidade em um nível que até para nós, leitores, fica difícil separar uma coisa da outra, se há como separar… Esse foi um dos livros mais angustiantes que já li, literalmente de tirar o fólego.
    Gostei, anotada a dica.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s