Politics and the English Language – George Orwell

Politics-and-the-English-LanguageÉ a segunda vez que leio um ensaio de George Orwell e é a segunda vez que tenho a sensação de que a ideia é boa, mas pode ser levada para um lado que não me agrada muito – o primeiro foi “Books vs. Cigarettes”. Em “Politics and the English Language”, Orwell fala sobre o esvaziamento que a linguagem política pode trazer para uma língua, principalmente através da justificativa de eventos-limite. (Para quem quiser ler em português, encontrei essa versão traduzida, mas não cheguei a bater os parágrafos, então não tenho certeza se ele está todo ali.)

No começo, o ensaio parece uma aula antilinguística, uma tentativa de debochar do inglês moderno (lembrando que esse moderno trata de 1946, ano em que o ensaio foi escrito). Mas, depois de retirar cinco trechos de textos variados escritos por professores diferentes, percebe-se que a ideia é debochar de um inglês “balofo”, pouco direto e muito metafórico.

Orwell enumera alguns dos erros mais comuns desse inglês que ele tenta combater: metáforas que não cumprem mais o seu papel (ou seja, que não transmitem mais ao leitor algum tipo de correlação entre o texto e o mundo), uso de frases verbais no lugar de verbos (acredito que isso seja mais comum no inglês do que no português), palavras pretensiosas (normalmente usadas para conferir um ar de cientificidade ou imparcialidade ao texto) e palavras sem significado (acessórias, que poderiam ser cortadas sem prejuízo ao texto). Assim, ele afirma que um escritor que estivesse preocupado com seu leitor faria sempre quatro perguntas ao escrever uma frase (e mais duas se estivesse realmente preocupado):

  • O que estou tentando dizer?
  • Quais palavras expressariam isso?
  • Qual imagem faria isso mais claro?
  • Essa imagem é suficientemente nova para causar uma impressão no leitor?
  • Eu poderia escrever isso em um texto menor?
  • Eu disse alguma coisa feia que poderia ser evitada?

Assim, “a writer who stopped to think what he was saying would be aware of this”. Mais a frente no texto, Orwell ainda vai dizer que sua intenção não tem nada a ver com arcaísmo, gramática e sintaxe “corretas” ou falso simplismo, ele está correndo contra as frases prontas (readymade phrases) que “like cavalry horses answering the bugle, group themselves automatically into the familiar dreary pattern”.

E, para fechar o ensaio, ele elabora seis regras para fugir do decadente inglês moderno:

  1. Nunca use uma metáfora, símile ou outra figura de estilo que esteja habituado a ler. (Never use a metaphor, simile or other figure of speech which you are used to seeing in print.)
  2. Nunca use uma palavra grande quando uma pequena servir. (Never use a long word where a short one will do.)
  3. Se for possível cortar uma palavra, corte-a sempre. (If it is possible to cut a word out, always cut it out.)
  4. Nunca use a voz passiva quando pode usar a voz ativa. (Never use the passive where you can use the active.)
  5. Nunca use uma expressão estrangeira, uma palavra científica ou jargão se conseguir pensar num equivalente inglês corrente. (Never use a foreign phrase, a scientific word or a jargon word if you can think of an everyday English equivalent.)
  6. É preferível violar qualquer destas regras a dizer algo obviamente bárbaro. (Break any of these rules sooner than say anything outright barbarous.)

Bem, as ideias da simplicidade da linguagem e da preocupação com o leitor me agradam, mas também me inspiram desconfiança. Várias vezes já pensei que o discurso quase incompreensível de algumas correntes filosóficas não passa de um recurso de poder para manter pessoas indesejadas fora delas, mas também já passei pelo embaraço de tentar escrever sobre um problema abstrato e não conseguir colocar as palavras em uma ordem simples e ainda manter alguma fidelidade com o pensamento.

Também me sinto sempre um pouco incomodada com a escolha do vocabulário do texto, vejam bem, não tenho a menor ideia de qual era o vocabulário corrente na Inglaterra em 1946, mas palavras como “decadente”, “bárbaro”, “estrangeiro”, “certo” e “regras” me causam frio na espinha.

Depois de ler o ensaio, fui procurar comentários sobre ele na internet, e acabei encontrando esse de Steven Poole para o Guardian no começo desse ano. A primeira parte que gostei foi quando ele fala que descartar qualquer discurso político como nebuloso/errado nos deixa em maus lençóis, já que não é possível combater um argumento que não está claro. O que Poole sugere é que investiguemos sempre os discursos, por mais notadamente mascarados que eles sejam: “What is worrying, however, is that Orwell’s diagnosis of “cloudy vagueness” and “pure wind” might seem to sanction an impatient dismissal. Should we just assume that everything politicians say is hot air? To do so would be to let our guards down. […] Rather than waving it away as “pure wind”, it is necessary to listen all the more closely to this stuff, because you need to bring the buried argument out into the open in order to defeat it.”

A crítica de Poole continua, mostrando que existe uma xenofobia linguística nos argumentos de Orwell, principalmente quando não assume que diferentes vocábulos em diferentes línguas dizem respeito a diferentes formas de organizar o mundo. Portanto, escolher uma palavra estrangeira pode representar a escolha de uma forma diferente de categorizar o entendimento. Ele também chama a atenção para a falta de desenvolvimento na maioria dos argumentos de Orwell, claro, o ensaio é pequeno, mas ainda assim é preferível se destacar apenas um ponto e trabalhá-lo melhor do que elencar vários e deixar a sensação de incompletude.

Pedir que um escritor reflita sobre seu texto, a escolha de suas palavras e a forma que o leitor encontrará é justo. Mas fazer disso uma cruzada contra os hereges da voz passiva ou descartar qualquer discurso que venha nessa “casca” é uma saída muito petit bourgeois modernete (para descumprir mais duas das regras de Orwell).

Título original: Politics and The English Language
Coleção: Penguin Classics UK
Editora: Penguin
Ano original/edição: 1946/2013
Número de páginas: 32

PS: Nessa nova edição da Penguin, uma pequena “resenha” de Mein Kampf do Hitler acompanha o ensaio. Não falei nada sobre ela aqui, mas vale a pena ler e pensar.

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Um pensamento sobre “Politics and the English Language – George Orwell

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