Filhos do jacarandá – Sahar Delijani

Filhos do JacarandáFilhos do jacarandá conta a história das pessoas que passaram pela Revolução Iraniana, que derrubou o xá Reza Pahlevi e levou ao empoderamento do aiatolá Ruhollah Khomeini, e uma segunda geração, nascida nesse período e que passa pelos movimentos mais recentes. Para quem viu/leu Persépolis, começa no mesmo período. A narrativa começa com Azari grávida na prisão de Evin em Teerã. Sua filha, Neda, nasce enquanto sua mãe está presa, e passa os primeiros dias de vida em uma cela com várias mulheres. A descrição que Sahar Delijani faz do parto de Azari/Neda é angustiante, cheguei a pensar em deixar o livro para depois, mas persisti.

Logo nessa primeira cena, várias personagens são apresentadas – o que pode levar a alguma confusão momentânea, que se resolve no decorrer do romance – e o livro se constrói com suas histórias. Por mais que o par Azari/Neda seja o fio condutor para o leitor (e percebe-se isso com mais nitidez no final), todas as personagens contam sua história.

Um pai desaparecido, uma família separada, a avó que cuida dos netos enquanto os filhos estão presos (minha personagem preferida no livro), todas as personagens irão reconstruir um pedaço da história recente do Irã.

Cada capítulo tem como título um lugar e um ano: 1983, Prisão de Evin, Teerã; 1987, Teerã, República Islâmica do Irã; 2008, Teerã, República Islâmica do Irã e assim por diante. Percebemos logo que a autora deseja utilizar esse recurso narrativo como uma forma de contar e ainda assim permitir que o leitor forme as imagens pouco a pouco. As frases curtas também são um elemento de formação desses pedaços de imagem, como se a intenção fosse oferecer um pedaço do quebra-cabeça de cada vez, e com isso prender a atenção do leitor – o que de fato acontece.

Todas as tentativas e utilização de recursos já seriam louváveis em si, mas o que para mim foi mais desafiador é saber que a própria autora passou por situação semelhante à descrita. Sahar Delijani nasceu em Evin e lá passou seus primeiros 45 dias, seu tio foi executado pelo regime e seus pais presos. A autora diz que o romance “é uma tentativa de manter viva a memória de meu tio e de todos aqueles que foram mortos naquele verão sangrento, para além de colocar um pouco de luz nesse momento negro da história iraniana”. Para um romance de estreia como esse o é, tratar da história familiar e nacional conturbada, recorrer a um tipo pensado de narrativa e se posicioná-lo politicamente como uma “narrativa de violência, prisão e morte, que permaneceu inédita por muito tempo” é louvável.

Apesar disso, o romance tem problemas, principalmente de estilo. A tentativa de Delijani de utilizar o fluxo não cronológico prende a atenção do leitor mas não inova. Ainda se trata de uma narrativa fechada, de sentido único, só que trabalhada em capítulos não sequenciados. As frases curtas também não me causaram boa impressão; entendo sua serventia, mas fiquei o tempo todo esperando algo mais elaborado. Por último, a utilização exaustiva de metáforas compromete. Acredito que muitas pessoas discordem de mim nesse ponto, e cheguem a admirar as metáforas construídas (como o jacarandá que dá título ao livro e aparece em todas as histórias, como que justificando o título ao leitor), só penso que não foi meu tipo preferido de escrita.

As histórias contadas em cada capítulo são claramente emocionantes, e o sofrimento de cada personagem é descrito de uma forma muito pungente. Talvez, com uma narrativa mais tradicionalmente cronológica, fosse possível desenvolver mais essas personagens, principalmente a avó, minha preferida – uma senhora maníaca por limpeza que se encarrega dos netos com o país em ebulição.

  • Título original: Children of the jacaranda tree
  • Tradutora: Celina Portocarrero
  • Editora: Globo
  • Lançamento: 2013
  • Número de páginas: 232
Foto de Ornella Orlandini

Foto de Ornella Orlandini

Fonte da foto.

*Esse livro foi enviado pela editora; não paguei nem recebi por ele, mas o escolhi com muito carinho :)*

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10 pensamentos sobre “Filhos do jacarandá – Sahar Delijani

  1. Pingback: Leituras e compras: resumo de agosto em vídeo | ao rés do chão

  2. Esta é a segunda resenha que leio desse livro e serviu para confirmar o que eu já sabia: preciso conhecer essa história. Como a Bia, eu também acabei de ler Persépolis, então fiquei bem interessada por Filhos do Jacarandá.
    bjo!

  3. Voltei! Terminei a leitura e concordei muito com a sua resenha, principalmente em relação às metáforas! Achei um livro bom, mas com altos e baixos! Alguns capítulos excelentes e outros chatos. Alguns clichês me incomodaram tbm! No geral, gostei! Não tem como fazer uma critica ao livro sem levar em consideração a história de vida da Autora e claro, o contexto histórico do Irã e refletir sobre as tantas famílias que passaram por isso. 3 estrelas (e meia) pra ele! rsrs Bjão da Isa!

  4. Estou lendo, Luara! Até o momento, estou gostando! Depois volto para ler sua resenha! Bjo da Isa – LidoLendo. <3

  5. O Irã está me perseguindo! Acabei de ler “Persépolis”, já anotei aqui para encontrar o “Lendo Lolita em Teerã” e agora me interessei por esse… Que capa linda!

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