Higiene do assassino – Amélie Nothomb

hygiène de l'assassinPor anos após seu lançamento, 1992 na França, Higiene do assassino foi destaque nas livrarias. O primeiro romance de Amélie Nothomb vendeu milhares de cópias pelo mundo e foi trazido para o Brasil em 1998 (bem antes da primeira edição nos EUA, de 2010). Desde então, Nothomb, belga filha de diplomatas, escreveu mais de 20 livros. A experiência de morar em vários países por conta da profissão dos pais também aparece em suas obras, Medo e submissão, por exemplo, mostra sua experiência como estagiária em uma grande empresa no Japão.

Em Higiene, Nothomb nos conta a história de Prétextat Tach, um escritor de sucesso, ganhador do prêmio Nobel de literatura, que descobre sofrer de um tipo raro de câncer nas cartilagens. Aos 83 anos, Prétextat Tach resolve conceder cinco entrevistas antes de sua morte. Todo o livro se dá por forma de diálogos, na orelha da edição brasileira um comentário muito pertinente chamou minha atenção: “Higiene do assassino é um romance quase inteiramente dialogado, pois nenhuma forma de escrita se aproxima tanto da tortura.”

Tach tortura todos os jornalistas. Os quatro primeiros conseguem ficar um curto tempo na presença do autor obeso e amargo, juntas suas entrevistas ocupam metade do livro. Já a quinta jornalista, uma mulher que não sabemos o nome, confronta o romancista com mais do que suas obras, ela também pergunta sobre seu obscuro passado.

Nas quatro primeiras entrevistas é possível perceber como Tach é desagradável. O autor é tão preconceituoso e rancoroso que por vezes fica difícil não achar aquilo tudo exagerado. Ele duvida da capacidade do leitor, duvida que alguém tenha “realmente lido” seus romances, e considera todos os jornalistas detestáveis (o que, infelizmente, não está tão longe da nossa realidade). A repulsa pela personalidade de Tach é a que primeiro aparece para o leitor, mas logo a descrição de seu corpo e hábitos alimentares se junta a um cada vez mais grotesco personagem.

Mas é a partir da última entrevista que veremos o assassinato do título entrar em cena. A jornalista é também uma leitora-detetive, ela investiga a “veracidade” dos romances, lê e absorve todos os livros de Tach, além de pesquisar como a infância do escritor influenciou sua escrita. Assim descrito, pode parecer que a jornalista só fez um trabalho pobre de biografia, mas durante a entrevista, veremos como o passado de Tach provoca reações em sua interlocutora.

O último romance de Tach é uma obra inacabada, chama-se Higiene do assassino e diz muito sobre ele. Também achei um pouco Houellebecq demais esse joguinho com o título, mas dá pra continuar.

Depois que a obra inacabada de Tach entra em discussão (mais ou menos aos dois terços do livro) o clima se desenvolve em uma tensão crescente. Existe o mistério do assassinato, mas mesmo depois que o assassino é revelado, a tensão não desaparece. Também existe a possibilidade de uma “saída fácil” para a personagem da jornalista, mas Nothomb não a pega e prefere fazer o leitor duvidar mais um pouco.

Como esse foi o primeiro livro que li em francês, tive que parar algumas vezes para ir ao dicionário. Também li a tradução brasileira em conjunto – depois de uma quantidade boa de páginas lidas em francês, recorria à tradução para ver se estava tudo bem – e isso pode ter contribuído para a minha impaciência. No geral, senti uma aura de pretensão durante a leitura, mas depois que descobri que era o primeiro romance da autora, gostei mais. Devo dar uma chance a Medo e submissão, pena que não existe o audiobook.

Amélie Nothomb

Amélie Nothomb

  • Edição brasileira: Record
  • Tradutor: F. Rangel
  • Ano: 1998
  • Páginas: 172

“Esta acumulação, por exemplo: fala-se em corrida armamentista, mas se deveria dizer também “corrida literária”. É um argumento tão forte quanto outro qualquer: cada povo empunha seu escritor ou seus escritores como canhões. Mais cedo ou mais tarde me empunharão também, e polirão meu prêmio Nobel.”

“[…] há um punhado de desocupados, vegetarianos, críticos novatos, estudantes masoquistas ou ainda curiosos que chegam ao ponto de ler os livros que compram. […] quando eu lhe dizia que liam sem ler! Posso me permitir escrever as verdades mais arriscadas, todos sempre irão ver nelas metáforas. Isso nada tem de surpreendente: o pseudoleitor, encouraçado no seu escafandro, passa de forma totalmente impermeável através de minhas frases mais sangrentas. De tempos em tempos, exclama, encantado: “Que belo símbolo!” É o que se chama leitura limpa. Uma invenção maravilhosa, muito agradável de se praticar na cama antes de adormecer; acalma e nem sequer suja os lençóis.”

“Se eu soubesse em que penso, provavelmente não teria me tornado escritor.”

“- Senhor Tach, o senhor alguma vez dirige a palavra a alguém que não seja para ofendê-lo?

– Eu nunca ofendo, senhor, eu diagnostico.”

“- Atenção, não confunda as coisas: escrever não é tentar se comunicar. O senhor me pergunta a razão para escrever, e eu lhe respondo muito estritamente e muito exclusivamente o seguinte: para gozar. Dito de outro modo, se não há gozo, é imperativo parar.”

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14 pensamentos sobre “Higiene do assassino – Amélie Nothomb

  1. Eu me interessei por “Higiene do Assassino” lendo o “Morte a Crédito” do Cèline, pois em algum momento do livro do Cèline ele é citado. Curiosa, fui procurar ler o livro, e para a minha surpresa, adorei desde a primeira página e li em uma sentada. Ótimo!

  2. Sallut Luara! ça va? , olha só sou estudante de Francês, mas estou aqui pra pedir um opinião sua sobre leitura, gosto muito de livros, mas nao tenho essa habilidade de ler um livro em pouco tempo, gostaria de saber se vc tem alguma técnica ou algo assim, pois compro livros mas acabo nao os lendo todo e outra coisa é como faço pra comprar na estante virtual? são mesmo aqueles preço que estão lá? tem livros que a despesa do correio são mais caras! estes livros são de proprietários ou da estante virtual? bom gosto muito do seu canal no you tube e principalmente do seu blog um grande beijo!

    Cássio Ricardo

  3. Pingback: Leituras e compras: resumo de agosto em vídeo | ao rés do chão

  4. Luara!! fiquei super feliz que vc vai ler a lista dos meus desejos!!!! eu já li!!!!! claro em português. se quiser saber o que eu achei do livro (se te interessar dá uma passada no meu canal) chama- se Devaneios Literários! bjos e até mais!

  5. Está aí um livro que certamente compraria pelo título! Gostei da proposta, esse clima de tensão me atrai bastante! Fiquei muito curiosa em relação ao seu sentimento de “pretensão” durante a leitura… acho que nunca senti isso em livro nenhum rsrs.”- Eu nunca ofendo, senhor, eu diagnostico” (adorei!!). Bjão da Isa – LidoLendo.

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