O jornalista e o assassino – Janet Malcolm

o-jornalista-e-o-assassino-kindleO jornalista e o assassino foi primeiramente publicado, quase que integralmente, na revista The New Yorker em 1989. Explorando a relação entre um homem condenado por assassinato e o jornalista que escreve um livro sobre o caso, Malcolm toca em pontos centrais da relação do escritor com as fontes, a ficção e a própria sensibilidade.

O capitão Jeffrey MacDonald é acusado de matar a mulher grávida e as duas filhas em um acesso de fúria. Ele se declara inocente e é absolvido em um julgamento das forças armadas. O caso é reaberto a pedido de seu sogro, mas dessa vez o julgamento acontecerá em corte civil. Em uma estratégia duvidosa para arrecadar fundos e prestígio para sua defesa, MacDonald aceita que o jornalista Joe McGinniss participe da defesa como observador. Durante todo o julgamento, McGinniss estará “por dentro” da defesa, e o lucro do futuro livro (bem como o adiantamento já pago pela editora) será dividido.

MacDonald é condenado, vai para a prisão e McGinniss começa a escrever o livro, sem perder contato com seu “objeto” agora aprisionado. Os dois se correspondem por carta, e MacDonald não lê nenhuma parte do livro antes que ele seja publicado.

Quando Fatal Vision é publicado, em 1983, a figura de MacDonald aparece na obra como um psicopata narcisista incapaz de sentir compaixão. O condenado não fica nada satisfeito com o resultado, e processa McGinniss com base em uma frase do contrato que ambos assinaram no começo da “parceria”. Durante o julgamento desse processo, diversas cartas de McGinniss a MacDonald são mostradas como prova da conduta “mal-intencionada” do jornalista, que supostamente fingiu ser amigo de MacDonald para obter informações pessoais.

Bem, é com todo esse material que Malcolm vai construir um dos livros mais conhecidos sobre o trabalho do jornalista (que acho que pode ser aplicado a diferentes áreas das humanidades) e da relação entrevistado-jornalista-escrita. Ao contrário do que o odioso posfácio de Otávio Frias Filho (picão da Folha de S.Paulo) para a edição brasileira fala, não senti que a autora “toma partido” de MacDonald. Quando as cartas e a entrevista que McGinniss concede a Malcolm são descritas, não parece que estamos lendo um sacana que vai tirar vantagem de um condenado; parece que estamos lendo uma pessoa confusa, que se envolveu mais do que devia em um relacionamento, que teve sentimentos conflitantes sobre uma amizade, e que não soube passar isso para o papel.

E essa é a parte que mais importa no livro, o passar para o papel. Como expor os fatos do jornalismo? Como trabalhar com a “realidade”? O que Malcolm prega não é o fim do jornalismo, mas uma forma mais humana e aberta de jornalismo, onde o leitor saiba quais são as intenções e filiações do escritor para que isso ilumine sua leitura. Um jornalismo onde o que o escritor sente e acredita não fique escondido e, principalmente, onde o mito da imparcialidade não predomine.

No final do livro ela ainda faz uma distinção entre escrever ficção e não-ficção. Ela ainda separa o campo ficcional – onde o escritor tem mais liberdade – do campo dos “fatos”, ela nem fala sobre a narratividade inerente de qualquer trabalho de não-ficção, ou seja, ela nem vai no ponto mais extremo, e ainda assim o livro é revolucionário.

Na edição brasileira de Anatomia de um julgamento: Ifigênia em Forest Hill, temos uma entrevista-texto no final do volume que fala um pouco sobre as consequências profissionais que Malcolm enfrentou ao publicar O jornalista. Além de desagradar muito diversos colegas influentes, o livro também foi interpretado como forma de vingança pessoal por um processo que Malcolm sofreu de um entrevistado (o entrevistado acusou Malcolm de ter modificado as respostas que ele deu durante a entrevista). De um modo geral, a comunidade jornalística não ficou satisfeita com as colocações sobre a profissão apresentadas no livro.

A capacidade de pensar sobre o próprio ofício é uma das chaves das humanidades, não deveria ser possível realizar um trabalho sem pensar em como, por que, por quem e para quem ele foi feito. O próprio meio de expressão desse trabalho – o texto narrativo tradicional – confere essa possibilidade e demanda o questionamento, já que um texto sem questões não é um texto interessante e instigante para o leitor.

Pode ser o meu lado historiadora falando, mas gostaria que esse livro fosse mais longo para que o ritmo pudesse ser mais lento. A leitura é tão frenética que mais de uma vez precisei voltar a parágrafos anteriores para me impedir de correr os olhos pela página. Mas acho que talvez essa seja a intenção de um livro reportagem.

Agora estou com vontade de ler o livro dela sobre Tchékhov e todos os outros da coleção Jornalismo Literário da Companhia das Letras.

Nota rápida sobre o ebook: li esse livro no Kindle (então não sei se o mesmo problema acontece no Kobo, se alguém souber, avise ok?) e os parágrafos estavam todos sem o recuo inicial, além do texto não estar justificado. Uma pena.

Janet Malcolm

Janet Malcolm

  • Título original: The Journalist and the Murderer
  • Editora: Companhia das Letras
  • Coleção: Jornalismo Literário / Bolso
  • Tradutor: Tomás Rosa Bueno
  • Ano edição: 2011
  • Número de páginas: 176

*Eu procurei, mas não consegui encontrar nenhum texto sobre o livro que não fizesse uso de pelo menos uma “ ”, sei que é chato mas foi inevitável.

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9 pensamentos sobre “O jornalista e o assassino – Janet Malcolm

  1. Cheguei aqui através do Despindo Estórias, e adorei! A blogosfera é tão vasta que é muito bom encontrar blogs literários com boas resenhas de livros que importam. Parabéns!

    Coloquei esse no meu Kobo há um tempo, mas ainda não tive tempo de ler. Com certeza é um dos que estão no topo da lista.

    Beijos,

    Renata
    http://mardemarmore.blogspot.com.br/

  2. Pingback: Leituras e compras: resumo de agosto em vídeo | ao rés do chão

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