Quando ela acordou – Hillary Jordan

Quando ela acordouEscolhi esse livro sem saber muito sobre ele. A sinopse fornecida pela editora parecia interessante, uma coisa meio ficção científica meio crítica social. Como alguns já devem saber, gosto muito de ficção científica, mas reconheço que é um gênero muito difícil – para cair em um mundo de clichês ou em uma sistematização quase robótica não precisa de muito esforço. Poucos escritores conseguem desenvolver uma prosa atraente, com personagens bem desenvolvidos e em um cenário diferente quando se trata de ficção científica. Não, poucos autores conseguem desenvolver uma prosa atraente, com personagens bem desenvolvidos em um cenário interessante. Escrever é um trabalho difícil, escrever ficção científica também é um trabalho difícil.

Voltando ao livro, o resumo mais comum sobre a história é: uma mistura de A letra escarlate com O conto da Aia, com menos graça que os dois, na minha opinião. Tudo isso porque Hannah, a personagem principal, vive em um mundo onde a fertilidade das mulheres foi comprometida por um supervírus (que já foi controlado, mas algumas vítimas não puderam ser tratadas) e o aborto é considerado um pecado legal, ou seja, ele é ao mesmo tempo pecado para a religião dominante e crime na legislação vigente. Nessa sociedade, os criminosos são punidos com uma transformação genética, sua pele passa a ser de uma cor representativa de seu crime. Por exemplo: assassinos tem a pele modificada para um tom intenso de vermelho, enquanto ladrões e outros que cometem delitos menores tem a pele amarela; o processo é reversível, então a sentença pode ser estabelecida por um período determinado de tempo.

Hannah, criada em uma família extremamente religiosa, começa a ter um caso com o representante de sua igreja e fica grávida. O aborto é a forma que ela encontra de não prejudicar o amante e a si mesma, mas uma denúncia anônima faz com que ela seja presa logo após realizar o procedimento. Decidida a não divulgar a identidade do médico e do pai da criança, Hannah recebe uma sentença severa: mais de uma década como uma vermelha.

Todo o processo de aceitação de sua nova condição, bem como do procedimento médico que realizou contra as crenças de sua religião, está no livro. E boa parte dele será focada em como viver em uma sociedade de faz de seus criminosos párias tão visíveis. Nesse mundo em que religião e Estado se confundem de forma tão profunda, os sentimentos de Hannah sobre o que é certo e o que é errado demonstrarão, de alguma forma, como é possível mudar esse sistema religioso-civil.

Bem, as ideias do livro não são ruins; a escolha de uma personagem feminina que decide lutar para escolher o que fazer com seu corpo e a integração entre religião e Estado são motes interessantes, mas o livro parou por aí para mim. Embora a leitura seja fluida e rápida, não consegui ver o nível de dedicação à escrita que encontramos nos livros de Margaret Atwood, por exemplo. No meio do livro, todos os personagens me pareceram usados para provar um ponto na trama, tudo esquemático e superficial demais. Mas a parte que me deixou realmente irritada, as outras me deixaram indiferente, foi quando o último presidente democrático da América Latina é derrubado por um golpe militar, ele é o presidente do Brasil e se chama Napoleón Cafuentes. Gente, se isso não for pensar que se fala espanhol no Brasil, eu não sei o que é.

No geral, achei que o livro tem uma ideia boa e não se mostra ressentido de usar livros anteriores de sucesso (a própria epígrafe já é de A letra escarlate), mas o desenvolvimento se mostrou insuficiente para a empreitada. Uma pena.

Hillary Jordan

Hillary Jordan

  • Título original: When she woke
  • Tradutora: Sonia Coutinho
  • Editora: Bertrand Brasil (Record)
  • Lançamento: 2013
  • Número de páginas: 434

*Esse livro foi enviado pela editora; não paguei nem recebi por ele, mas o escolhi com muito carinho :)*

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3 pensamentos sobre “Quando ela acordou – Hillary Jordan

  1. Pingback: Leituras e compras: resumo de setembro em vídeo | ao rés do chão

  2. Pôxa, que pena! Não é fácil encontrar livros bons de ficção científica, como você falou, mas o pessoal contemporâneo tem dado umas escorregadas que… Enquanto isso, fico com os “velhinhos”… Mas sempre procurando algo da época atual que valha a pena, mas não tá fácil…

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