Amada – Toni Morrison

12343_gSempre tive vontade de ler alguma coisa da Toni Morrison, mas achava que O olho mais azul seria a minha primeira leitura. Por bastante tempo tentei encontrar esse livro em sebos, sem sucesso; mandei e-mail para a editora perguntando sobre novas impressões e nada estava previsto. Depois que me conformei que teria que lê-lo em inglês, acabei recebendo Beloved de presente. Um presente mais do que especial que me proporcionou uma leitura incrível. Obrigada, Lia.

Segurei o quanto pude para ler os livros em inglês porque sabia que a linguagem era usada por Toni Morrison como uma ferramenta narrativa, ela era inovação. Quando comecei a ler Beloved vi que minha preocupação não estava infundada, existe toda uma estranheza inicial provocada pelo constante jogo com a linguagem[1]. O tempo vai e volta sem aviso ao leitor, só percebemos o que está acontecendo com quem por uma variação na linguagem da narrativa, palavras ganham novos significados quando utilizadas juntas, e por aí vai. A sensação que tive foi a de que o livro foi realmente pensado, nada daquela sensação de “jorro genial”, mas sim uma ideia de lapidação da narrativa. E é justamente isso que poderia deixar o livro frio, trabalhado demais, esforçado demais, mas não, a história de Beloved pula, joga o leitor no chão e passa por cima dele como um caminhão.

Talvez essa junção de cálculo linguístico e pulsão literária se deva ao tema do livro. Nos Estados Unidos no final do século XIX, Seth é uma ex-escrava que foge e se refugia em uma fazenda com sua sogra. Junto com a filha, Denver, Seth vai ter que lidar com o fantasma de outra filha, falecida ainda pequena. Uma casa com 4 mulheres – uma ex-escrava liberta, uma ex-escrava fugitiva, uma criança e uma fantasma – será o cenário de Beloved.beloved

Aos poucos, outros personagens aparecem na trama, como Paul D, também um ex-escravo que viveu na mesma casa que Seth por alguns anos, mas a carga emocional está claramente depositada nas mulheres da casa de número 124.

Através de uma intrincada utilização do tempo, Toni Morrison vai nos mostrando aos poucos o que levou a casa 124 a se tornar uma casa solitária, sem visitas e sem amigos. Onde antes todo negro era bem recebido e se sentia a vontade, agora paira o medo que só Seth, sua sogra e sua filha conseguem enfrentar. A marca da escravidão, presente em todos os personagens, mesmo os secundários, fará com que Seth tenha uma dura escolha a fazer. Mas isso não torna suas atitudes previamente determinadas ou maniqueístas, existe o mal e o mal menor.

Falar sobre a escravidão é um desafio poucas vezes enfrentado. Fazer literatura com isso, mesmo que utilizando um acontecimento concreto como ponto de partida, é uma empreitada de peso. É preciso construir personagens que não sejam comandados por suas condições mas que também as reflitam, é preciso construir personagens humanos, e o deslize do estereótipo pode ser ainda mais devastador. Toni Morrison constrói personagens humanos, marcados e humanos. Uma grande experiência de leitura.

Toni Morrison

Toni Morrison

  • Título original: Beloved
  • Tradutora: José Rubens Siqueira
  • Editora: Companhia das Letras
  • Lançamento: 1987
  • Lançamento dessa edição no Brasil: 2007
  • Número de páginas: 368

*Esse livro (a edição em português) foi enviado pela editora; não paguei nem recebi por ele, mas o escolhi com muito carinho :)*


[1] Só para esclarecer, li a primeira metade do livro em inglês e a segunda em português.

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14 pensamentos sobre “Amada – Toni Morrison

  1. Ei, Luara! Passei aqui para matar as saudades dos seus vídeos e me deparo com essa belíssima resenha! Esse livro foi tão especial para mim. Gostei do que você falou sobre a lapidação da narrativa: tive mesmo essa impressão de que eu estava diante de uma escultura de palavras! Durante os primeiros 2/3 do livro, eu tinha essa sensação constante de estar diante de uma obra de arte. :) Legal saber que a tradução foi corajosa (confesso que sou meio chata com esse negócio de tradução, preciso me tornar menos inflexível…;))
    beijos, Juliana.

    • Também adorei o livro! Fiquei encantada por ela.
      Quanto à tradução, eu acho muito importante. É uma forma incrível de divulgação e um trabalho muito bonito. Não é esse o caso, mas mesmo uma tradução mais ou menos tem seu mérito. Deve ser um trabalho muito difícil, e admiro quem se propõe a fazer.
      Uma maneira legal de começar a pensar mais nela é se inteirar sobre o estilo de cada tradutor, suas preferências e discordância. Vira e mexe eles dão entrevistas falando sobre isso :)

  2. Oi Luara, poxa vi essa semana comentários sobre esse mesmo livro no vlog da Juliana Brina, e o comentário foi parecido, principalmente relativo a escrita da autora.
    Você sentiu muita diferença entre o texto original e a tradução? Digo porque, foi um comentário quanto a poética da autora no original se perderia na tradução, o que achou?
    bjos

    • Oi, Melissa, como eu respondi antes, não achei que perdeu não. É um livro muito difícil e tem algumas coisas que eu não concordo com o tradutor, mas isso sempre vai acontecer (eu acho). De qualquer forma, o estranhamento que senti lendo em inglês continuou a aparecer lendo em português. Acho que já vale né? :)

    • Então, Ari, eu li nos dois exatamente por isso. Algumas pessoas tinham dito que a tradução não era muito boa, mas eu não achei não. Claro, é um livro muito difícil de ser traduzido, então não concordo com todas as decisões do tradutor, mas achei que a sensação de estranhamento não se perdeu durante a leitura da segunda parte.

  3. Esse livro é fantástico! O trabalho com a linguagem é lindo e ainda é combinado com uma narrativa que mesmo quando é triste, é cheia de vitalidade, energia… fantástico mesmo! E acho que super vale o esforço de ler em inglês, imagino que traduzi-lo deve ter sido uma missão muito difícil!

    p.s.: adoro seu blog e sou uma leitora quietinha dele, mas tive que deixar um comentário nesse post porque meu amor por esse livro é muito grande, hahaha!

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