2001: uma odisseia no espaço – Arthur C. Clarke

Acho que, assim como a maioria das pessoas, eu só descobri o livro depois do filme. Primeiro achei que nem valeria muito a pena ler, já que achava que o livro tinha sido escrito depois do filme. Então descobri que o livro era parte de uma série com mais três livros (2010, 2061 e 3001) e a coisa começou a mudar de figura. Por último, descobri que o livro, na verdade, tinha sido escrito ao mesmo tempo em que o filme era rodado. Bem, ele foi pra listinha de “vou ler”.

Como muitos outros livros de ficção científica, as edições até então disponíveis de 2001 eram antigas, com uma tradução datada e de difícil acesso. Então vocês podem imaginar a minha felicidade quando vi que a Aleph <3 iria lançar o livro com nova tradução e projeto gráfico impecável.

2001_box

O livro é todo preto, como o monolito, é a caixa que traz as informações de título, autor, editora etc.

Bem, antes de começar a falar da história do livro: muitas vezes dizem que o filme foi baseado no conto A sentinela (também presente nessa edição da Aleph), mas o próprio Arthur C. Clarke diz que não, ele foi um ponto de partida, não exatamente uma inspiração. Vocês podem discutir com ele se quiserem, eu fico satisfeita com essa afirmação.

Acredito que duas coisas façam esse livro ter uma característica em especial, a descrição técnica: (1) Arthur C. Clarke era formado em Matemática e Física, então ele sabia como as coisas poderiam funcionar hipoteticamente no espaço, não que eu possa julgar já que não sei nada disso, mas ele me convence, (2) o livro estava sendo escrito em conjunto com o filme, embora ele não seja um roteiro, ele é uma espécie de visão do escritor sobre o que poderia ser o filme, e isso necessita de uma construção de imagens forte e sem muito espaço para dúvidas.

Quem não lê ficção científica com frequência pode achar um pouco estranha a forma como o livro é dividido. Nas primeiras 160 páginas somos apresentados a elementos fundamentais, eles se desenvolvem em nosso imaginário e nos afeiçoamos a determinados aspectos desse mundo construído. Temos o primeiro tronco, onde nossos ancestrais, os homens-macaco, são apresentados a uma primeira versão do monolito – uma unidade alienígena que, através de estímulos mentais, forma um novo tipo de inteligência e a própria humanidade. Depois somos levados a um futuro em que a Guerra Fria acabou reunindo um tipo de inteligência espacial, Estados Unidos e Rússia exploram a Lua, cada um com seu espaço, mas juntos.

Finalmente, somos apresentados à viagem da Discovery a Saturno/Júpiter. A nave, totalmente automatizada e operada pelo supercomputador Hal 9000, leva 5 passageiros, dois despertos e 3 hibernados. Sua missão é iniciar um processo de reconhecimento do planeta, pela primeira vez o homem será capaz de viajar tão longe, e é esperado que eles voltem com alguma informação.

Chegamos à página 160. Já estamos habituados ao clima do livro, a seus personagens e missão, então, basicamente, o autor pode fazer com que nosso coração exploda. Os pequenos problemas na nave, a relação com Hal, a monotonia do espaço, tudo isso é narrado por Clarke. Não temos imagens, mas sabemos que elas estão sendo fabricadas ao mesmo tempo que o livro, então toda a narrativa ganha uma força imagética muito grande.

O cuidado de Clarke ao descrever todos os procedimentos (escolha muito criticada por alguns) traz um dos elementos característicos da FC tradicional, a possibilidade existente. As bases para as afirmações do autor existem “objetivamente”[1].

Duvido que seja possível ler o livro sem nenhum conhecimento prévio da história, mas se pelo menos faz um tempo desde que você viu o filme pela última vez, acho que posso parar por aqui. Depois da página 160, suas emoções estarão espalhadas por todos os lugares.

O filme é, claramente, um momento especial no cinema internacional. Mas ler o livro me causou outro tipo de sensação. Não quero e nem acho que valha a pena comparar os dois, já que são produtos simultâneos com características próprias.

Agora, falando um pouco sobre o sexo dos anjos, é interessante pensar em como a figura do criador tem uma vida cíclica no livro: ela começa com o monolito alienígena que ensina a inteligência humana, depois é o homem que cria e constrói Hal e por fim é a inteligência que “resgata” o homem destruído por Hal. Fiquei curiosa para saber se isso se estende aos outros livros da série, será que existe um criador vencedor em 3001?

Um último parágrafo só para falar mais uma vez como essa edição está linda. O cuidado com a capa, com o livro, com a abertura… tudo muito lindo. Aleph ganhando meu coração definitivamente. O projeto é, mais uma vez, de Pedro Inoe – responsável pelas novas capas de Philip K. Dick e pela edição comemorativa de Laranja mecânica. O livro traz os contos A sentinela e Encontro no alvorecer, além da carta que Clarke escreveu quando soube da morte de Kubrick, e a nota escrita para a edição comemorativa do milênio. Um primor.

Arthur-C-Clarke

  • Título original: 2001: A Space Odyssey
  • Tradutor: Fábio Fernandes
  • Editora: Aleph <3
  • Lançamento: 1968
  • Lançamento dessa edição no Brasil: 2013
  • Número de páginas: 336

[1] Não sei até que ponto uma possibilidade de existência pode ser “objetiva”, mas não encontrei forma melhor de explicar.

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23 pensamentos sobre “2001: uma odisseia no espaço – Arthur C. Clarke

  1. Poxa… Eu queria essa edição! Li no Kindle mesmo. Eu amo os livros da Aleph, mas o dinheiro é curto e os livros são muitos.
    Adorei a resenha! Só falta eu assistir o filme agora.
    Beijo!

  2. Sinceramente, essa edição da Aleph foi uma bola na trave. A concepção é genial: um livro-monolito. Um achado de metalinguagem editorial. Mas a execução…

    Creiam-me: esse livro não mantém sua integridade em uma estante por muito mais do que cinco anos, se tanto.

    Primeiro, essa luva devia ser de um material mais rígido, porque, do jeito que foi feita, vai descolar as abas ou amassar com muita facilidade para uma edição dita especial. Pra se ter uma ideia, quando terminei de ler o livro e fui recolocá-lo na luva, ela já tinha criado uma barriga, e não ficava justinha na lombada do livro. Se fosse usado um cartão mais grosso, não haveria esse problema.

    O livro em si, também não é grande coisa. Papel de baixa gramatura no miolo assim como falta de orelhas e de um bom revestimento plástico sobre o papel cartão da capa, que também é fino demais.

    Enfim, ficou bonito na livraria, mas ficará em frangalhos já, já, na estante de qualquer um que não o conserve num redoma de vidro.

    A Aleph mostrou que sabe fazer uma bela edição com a versão capa dura de Laranja Mecânica, mas parece que quis inventar demais e gastar de menos nesse aqui.

    • Oi, Fábio,
      Eu realmente não consegui concordar com você. Logo que peguei a caixa comentei com o meu marido o quanto eu tinha gostado dela ser menos resistente e menos “justa” no livro do que as caixas da Cosac. Os meus livros da Cosac com caixa já estão com orelha por conta disso.
      E a gramatura do miolo eu achei ótima. O livro não ficou grosso nem pesado, mas as folhas não apresentam transparência. Achei ideal mesmo.
      E por último, o material da capa. Eu gostei dela não ter orelha (mesmo pq o monolito com orelha ia ficar um pouco estranho) e gostei também da laminação fosca, quase sempre prefiro ela à brilhante.
      Bem, o Laranja Mecânica ed. especial foi um que não me agradou muito… Sou contra o couché, acho que ele deixa o livro pesado e sem jeito. Prefiro o pólen, mesmo em 4 cores.

      Enfim, acho que temos opiniões diferentes. Mas pelo menos a Aleph conseguiu agradar os dois em livros diferentes.
      Abraços,
      Luara

      • Eu adoro os livros enluvados da Cosac! rsrs

        Quanto ao couché, realmente fica pesado, assim como o papel bíblia, mas eu acho bem bonito. Tenho sempre o cuidado de guardar os livros com couché e papel bíblia na horizontal, porque, na vertical, o corpo do livro acaba pesando e soltando da lombada. Isso é especialmente complicado nos encadernados de quadrinhos, que às vezes medem 20 x 30 ou até mais.

        Falando de editoras, você já viu algum livro da Darkside Books? Sensacionais!

        Voltando ao 2001, achei a continuação fraquíssima. Fico até imaginando se a profundidade da história do primeiro livro não é mérito da mente do Stanley Kubrick, porque a diferença é abissal. Confesso que ficção científica não me interessa especialmente, então não conhecia nada do Arthur C.Clarke. Mas, a julgar pelo segundo livro da série, que ele escreveu sozinho, me pareceu um escritor bem fraquinho. Parece oportunismo continuar e querer explicar uma obra cujo maior encanto talvez seja exatamente a inconclusão e o mistério. Ainda mais porque, uma das leituras possíveis do final do livro é que a terra acaba destruída pela criança-estrela.

        Não vou nem continuar a ler a série. Já li por aí que ele ressuscita o Frank Poole no último livro da série, depois de 1000 anos hibernando pelo espaço, pra ser o amiguinho do passado que vai fazer nascer a compaixão pela humanidade no coração do Bowman.

        No 2001 ele descreve os desgastes sofridos pela nave em poucos meses da viagem até Saturno, por causa do detritos cósmicos se chocando contra ela. E depois vai querer dizer que um ser humano, num simples traje de astronauta, durou mil anos? Ah, tenha dó!

        Também diz no livro que os astronautas da Discovery mal se conheciam antes da viagem, não tinham uma ligação especialmente fraterna. E depois o que salva o mundo é a amizade entre os dois? Ah, tenha dó! De novo!

        Mas, enfim. 2001 é ótimo, e o seu site também.

      • Da Darkside eu só tenho o Psicose (mas o brochura) e é bonitão mesmo!

        Que pena que a continuação é fraca… Eu fiquei com vontade de ler, mas primeiro vou ler os outros dois dele que eu tenho aqui (Encontro com Rama e Fim da infância).

  3. E eu ainda não terminei de ler Eu, Robô…….. e_e” não sei se ”2001” seria um bom livro para ler de ficcção científica :/ como vc falou na resenha, o começo parece meio que uma introdução D:

  4. Eu estive por pouco pra trazer esse livro pra casa na Primavera dos livros. Mas, por fim acabei não trazendo porque queria muito outros livros da Aleph. *-*
    Luara, suas impressões de leitura me deram mais vontade ainda de ler o livro, e sim, realmente a edição está linda! Me recomendaram ler desse mesmo autor o livro “O Fim da Infância”, já leu?

  5. Arthur Clarke é jóia, ficção científica hard, um dos melhores. O grande diferencial é que ele era a um só tempo um homem de ciência e um escritor talentoso e imaginativo (como seu amigo Asimov). Não deixe de ler, dele, além de 2001, Encontro com Rama, O fim da Infância, A cidade e as Estrelas e As canções da terra distante. Maravilhosos.
    “Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia” (A.C.C)

  6. Oi Luara,
    Gosto muito do seu blog e resolvi comentar agora que você está falando do livro que, pra mim, é o primor da ficção científica. =)
    Eu já li a quadrilogia (todos comprados em sebo e vou só esperar a Aleph lançar os 4 pra comprar bonitinho) e gostei bastante. Infelizmente, o teor filosófico do primeiro livro se perde pra algo mais político no segundo (2010), mas que mantém a qualidade.
    Já 2061 e 3001, na minha opinião, não fazem jus à saga…
    Estou lendo a quadrilogia de Rama agora (indo para o último livro) e é outra saga que vale a pena ler. Vamos esperar que a Aleph faça um trabalhinho com esses livros também!
    Beijos

      • Já li, sim!
        Valem a pena =)
        Os dois lidam de maneira diferente o contato com seres extraterrestres. A saga de Rama é mais difícil de imaginar, sendo tudo muito diferente da nossa realidade (muitas descrições do ambiente da nave, dos diversos seres existentes dentro dela, etc).
        O fim da infância aborda muitos temas interessantes. E ainda tem aquela música legal do Pink Floyd Childhood’s End =)
        Beijos

  7. Oi, Luara!

    Estava esperando sua resenha de 2001. Como fã do filme, tão imagético, fiquei curiosa para saber como essas imagens se desenvolveriam na narrativa e há pouco tempo comprei o meu, estou esperando chegar. Como leio em inglês, não me permiti comprar essa edição da Aleph, mas não tenho dúvidas quanto à qualidade. 2001 é um livro imenso, sem dúvida.

  8. Essa edição é um prato cheio para os amantes de ficção científica, Kubrick, Clarke e cultura pop no geral. 2001 É um filme tão forte, que é impossível não se interessar pelo livro também(que ao meu ver é um complemento fundamental para a obra). Aleph mirou e acertou bem no meio do coração dos leitores <3

  9. Como assim você já leu o livro?? rsrsr Que linda resenha! Fui lendo e quando percebi, a famosa trilha sonora estava na minha cabeça! Adorei! Bjão!

  10. Ah que legal Luara, estava super curiosa para ler uma resenha sobre esse livro, acabei muitas pessoas comprarem ou receberem da editora e a curiosidade estava grande.
    Confesso que não tenho muita familiaridade com leituras de ficção científica, acabei me interessando mais pelo gênero depois de ver você falando sobre o Asimov, enfim comprei uns livros mas ainda não engatei na leitura deles, mas me deu a impressão que este livro não é daqueles “para começar a se aventurar” pelo gênero.Porém, é claro, não sei se tive uma impressão correta sobre isso. Mas de qualquer forma, está aqui na agendinha de compras :)
    abraços !!

    • Oi, Melissa, não é que ele não seja bom para quem está começando, é só que seria bom ter em mente que existe um período de adaptação dentro do livro. Mas acho que isso acontece em todos os de FC…

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