Histórias de Paris – Mario Benedetti

historias_paris_CAPA_altaOs quatro textos presentes nessas Histórias de Paris tratam do exílio. Mario Benedetti foi exilado político durante a ditadura uruguaia, mas esses quatro contos são ficcionais. Publicados em diferentes livros e épocas (“Cinco anos de vida” em 1968, “O hotelzinho da rue Blomet” em 1977, “Geografias” e “Só por distração” em 1984), todos os contos trazem uma aura semelhante, mesmo o último – “Só por distração”, no qual um viajante percorre diversos países sem perceber – que não se passa necessariamente na capital francesa.

A saudade de casa, a lembrança dolorida de lugares e pessoas e as mudanças são temas de “Geografias”, conto que abre o livro. Dois amigos conversam sobre a Montevidéu que foram obrigados a deixar para trás; comparando conhecimentos e lembranças. A sensação de saudade misturada ao não-pertencimento também aparece em “Cinco anos de vida”, quando o casal protagonista fala sobre sua dificuldade de adaptação à língua francesa, ao estilo de vida de Paris e a impossibilidade fazer amigos que não sejam latino-americanos.

Esse mesmo conto fala também do trabalho do escritor, de uma maneira bonita e simples. Um dos protagonistas tem uma ideia para um conto que é, na verdade, o desenrolar do próprio conto em que ele está. O amor também entra em cena em “Cinco anos”, quando o enredo nos deixa com dúvidas sobre a possibilidade de continuar amando depois de um determinado período de tempo. Exílio, metalinguagem, amor, tudo em um conto de 22 páginas com ilustrações.

Ainda questionando o amor no exílio, ou o amor um momento de exílio, “O hotelzinho da rue Blomet” é de uma tristeza comedidamente avassaladora. Acredito ser difícil ler o conto sem pensar em como é possível continuar vivendo quando as escolhas são tão duras.

Esse é o primeiro livro que leio do Benedetti, e a edição não deixou a desejar. Com ilustrações de Antonio Seguí, o livro fala menos de Paris do que o título pode dar a entender, mas fala muito sobre as possibilidades de amor: por um país, um ideal, uma pessoa, uma cidade.

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Pode parecer um pouco estranho depois do que escrevi, mas senti falta de alguma coisa. Os contos são muito bonitos, e a escrita é muito bonita e comovente, mas senti falta de um “pulo do gato”, daquele X que faz um conto ser memorável. Na maioria das vezes não consigo explicar o que é ou como se identifica esse fator, é uma forma de sentir a literatura. Muitas vezes usei a ideia de toque para falar disso, como “aquele livro me toca enquanto aquele outro não”, mas não sinto que seja esse o caso aqui. O livro sem dúvida é capaz de tocar o leitor, mas me pareceu faltar o X do gênio para transformar ainda mais a experiência.

Mario Benedetti

Mario Benedetti

  • Tradutores: Ari Roitmann e Paulina Wacht
  • Editora: Biblioteca Azul (Globo Livros)
  • Lançamento: 2013
  • Número de páginas: 63

*Esse livro foi enviado pela editora; não paguei nem recebi por ele, mas o escolhi com muito carinho :)*

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14 pensamentos sobre “Histórias de Paris – Mario Benedetti

  1. Pingback: Leituras e compras: resumo de outubro em vídeo | ao rés do chão

  2. Mario Benedetti sem duvida é um dos meus autores preferidos, os livros A Trégua e Primavera eu li tão rapido que fiquei voltando paginas para que a leitura durasse mais!
    Acho uma pena ter tão poucos livros dele publicado no Brasil.
    Já leu algo de Antonio Di Benedetto?
    Parabéns pela resenha!

  3. Lu, tem que ler Primavera… esse acho que é mais a sua!
    Eu amo as poesias do Benedetti também e A Trégua (Santomé será eternamente um dos personagens da minha vida!).
    Beijos!

  4. Eu também não sou muito fã de contos, mas já notei que isso é porque não é todo autor que consegue elevá-los o suficiente, é raro pra mim ler um contista que me encante, são poucos. Mas o livro parece bonito mesmo assim. =)

  5. Concordo em gênero, número e grau com o que a Pipa falou… Porque não faz sentido eu repetir tudo o que ela disse, né?! ;o)
    Benedetti é um dos amores que a De me apresentou!

    Xerinhos!

  6. Luara, ainda não li esse livro justamente por serem contos (não é meu gênero favorito) mas me apaixonei por Mário Benedetti quando li A Trégua e tenho certeza de que nele você encontrará o X do gênio que procura. Primavera num espelho partido, Correio do Tempo, A borra do café também são livros encantadores e a temática do exílio é muito presente na obra dele. Ele é muito famoso por suas poesias que infelizmente ainda não foram traduzidas e publicadas no Brasil, o que eu lamento muito.
    Gostei da resenha :)
    Um abraço,

    Pipa

  7. Oi Luara! Tou lendo A tregua desse autor e tou adorando! Vou marcar esse Historias de Paris na minha listinha! Obrigado pela indicação ;)

  8. Oi, Luara! Quando vi que se tratava de um livro desse autor vim logo conferir sua opinião, pois eu tenho vontade de ler alguns livros dele, um deles é “Correio do Tempo”.

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