O livro amarelo do terminal – Vanessa Barbara

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Confesso que peguei o livro sem grandes esperanças, no maior estilo “vamo ver qual é”, alguém está arrumando seu computador, você não tem muita coisa para fazer fora dele… bam! Pega o livro.

Já comecei a ler ali mesmo, mas as páginas amarelas me incomodaram e resolvi parar. Talvez fosse a luz, ou o cansaço, era melhor continuar em casa.

Foi em casa que percebi que, por mais que as folhas fossem muito transparentes, as linhas não se embaralhavam com as da página de trás. Parei de ler e fui conferir página por página, elas realmente não se encontravam! Incrível! Encontrei esse texto, que explica tudo. Fui correndo até a página de carbono pra ver se conseguia deixar uma marquinha.

Terminada a experimentação papelística, voltei a ler. E poderia ter lido de uma tacada só, de tão interessada que estava, mas resolvi esperar. Depois de uma noite de sono, aquele filme pode virar uma bomba. Separei a leitura em três dias; e continuei gostando.

Bem, eu não sou de São Paulo; sou paulista e já passei algumas vezes pela rodoviária do Tietê, mas estou longe de gostar/entender tudo que acontece no coração paulistano. Então acho que o livro não é só para quem mora na cidade. Vanessa Barbara escreve sobre o terminal Tietê, sobre sua construção, seu funcionamento e sobre as pessoas que fazem tudo aquilo continuar existindo.

O livro amarelo do terminal é uma monografia de conclusão do curso de jornalismo, a pesquisa e a redação foram feitas em 2003 e o livro saiu pela Cosac Naify em 2008. Mas o jargão acadêmico, felizmente, não faz figuração no livro: não existem notas de rodapé. Não sei se isso é comum em jornalismo, nem sei se todos os textos de conclusão de curso são escritos em forma de reportagem, mas sei que gostei da fluência e do estilo de texto que li.

Sendo formada em história e estudando a parte mais teórica do meio, sei que nossos trabalhos precisam de referências e notas, mas também acho que existe um exagero nesse sentido. Dificilmente um artigo de vinte páginas vai precisar de cem notas de rodapé.

Mas, deixando as desilusões acadêmicas de lado e voltando ao livro-reportagem, o texto de Vanessa Barbara não passa pela “objetividade” distanciadora nem pela falsa inserção do observador. Durante todo o livro, é possível perceber a sinceridade de alguém que quer saber sobre algo que não conhece, mas que não passa a se sentir pertencente ou pertencedora depois do estudo.

O terminal começa a ser descrito pelas pessoas que chegam no desembarque; passamos pelas pessoas que esperam, pelas pessoas que ajudam dando informações ou carregando malas e pacotes, pelas pessoas que embarcam; voltamos a configuração espacial do local, o quê fica em qual lugar, o porquê; flertamos com a burocracia que impede as informações, mesmo as mais simples; as pessoas que chegam em São Paulo voltam à cena. Uma multidão de pessoas passa pelo livro, mas o leitor não se sente perdido. É possível viajar pela 2ª maior rodoviária do mundo com uma boa guia.

Nem tudo são amores. Racionalmente, sei que algumas passagens chegam a ser piegas, mas de coração, não consigo achar ruim. Também pode ser Carrère demais na mente, mas senti falta de um “eu comecei a fazer isso porque”, ou “saindo de casa e pegando o ônibus X”.

Para quem tem algum problema de visão e não consegue encarar as páginas amarelas, só nos resta torcer pela versão digital – imagine o desespero do produtor para colocar todas aquelas letrinhas diferentes no ePub.

  • Editora: Cosac Naify
  • Lançamento: 2008
  • Número de páginas: 253
  • Leia um trecho aqui.
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11 pensamentos sobre “O livro amarelo do terminal – Vanessa Barbara

  1. Eu não li esse livro ainda, e não conheço São Paulo além do que ouço por aí, mas confesso que fiquei com vontade de comprar só pelo design. Valorizo demais e gosto de ter como referência. Se for bem escrito como você diz, valerá ainda mais a pena, uma vez que um pouco de história nunca é demais.

  2. Oi, Luara:
    Eu adorei o livro. A partir dele passei a acompanhar os textos da Vanessa Bárbara. Gosto do jeito que ela escreve. Achei uma grande sacada fazerem com que as páginas lembrassem os antigos bilhetes das passagens. Aliás, a Cosac sempre tenta, com o design do livro, acrescentar algo importante ao texto, completando-o artisticamente. Neste e em outros livros, a associação faz tanto sentido que parece que o diretor de arte planejou todo o livro e depois encomendou um texto na medida (háháhá). Já faz alguns anos que li, mas a imagem surreal das freiras com pranchas de surf não saem da minha mente. Abraço.

  3. Adorei a arte gráfica do livro, achei que ficou bem bonito, porém não muito ergonômico já que um designer ESTUDA ergonomia… deve ser muito estranho para ler mesmo, eu acho que se é feito um pouquinho mais de pesquisa antes de projetar é possível chegar em um resultado bem bom como este mas sem as linhas atrapalharem, é como você disse, quem tem problema de visão vai encontrar bastante dificuldade :(

  4. Comprei esse livro no escuro na Black Friday (e QUE black friday! Vi que você não comprou nada. Quanto controle! hahahah) e fiquei super feliz quando vi sua postagem sobre ele hoje. Sempre levo super em conta tudo que você fala – que, aliás, foi o primeiro canal de livros em que me inscrevi e me deu um empurrãozinho para começar o meu blog (que teve sua primeira postagem hoje) ♥.
    Beijos

  5. Oi Luara! O livro é uma delícia mesmo! Bom, quanto à parte monografias de jornalismo: sou formada na área e, em geral, as monografias são um misto entre teoria e prática. Em geral, temos que fazer algum produto jornalístico (livro reportagem, nesse caso, mas pode ser programa de tv, jornal impresso, rádio, revista… enfim, várias opções) e um artigo/monografia teórica que dê base ao produto (com todas as referências acadêmicas de estudiosos do tipo do produto, estudos de viabilidade e pesquisas de público). Claro, especificações dependem de cada universidade, mas em geral elas são assim mistas! Beijos

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