A vida em análise – Stephen Grosz

AVidaEmAnaliseÉ importante que eu comece esse texto dizendo que não sou particularmente partidária da psicanálise. Esse método de análise do indivíduo é muito mais comum em grandes centros entre a população de determinada renda, e, sendo criada em uma cidade do interior, nunca tive contato com ele até os 20 e poucos anos. Para mim, todo psicólogo seguia a mesma “cartilha” e foi somente na universidade que tive contato com os escritos psico-analíticos (já na parte da crítica à psicanálise). Só depois de conhecer algumas pessoas que fazem ou fizeram um acompanhamento com psicanalistas, pude perceber que esse método tratava o paciente de forma distinta e por isso possuía seu valor. Ainda não fico completamente a vontade com a ideia de contar seus sonhos para outra pessoa, mas já entendo seu valor e sua ajuda.

Assim como a psicanálise, é preciso não se deixar enganar pela capa e título do livro de Stephen Grosz. Os títulos dos pequenos capítulos (de 3 páginas em média) são ainda piores: “Sobre não estar num casal”, “Por que cambaleamos de crise em crise” e “Como a paixão nos impede de amar”, por exemplo. Tudo parece transportar o leitor ao universo de desenvolvimento pessoal. Não é bem assim. Stephen Grosz é psicanalista há mais de 25 anos. Nascido nos Estados Unidos, ele atualmente vive e trabalha em Londres; A vida em análise é seu primeiro livro.

Cada capítulo traz um pedaço da história de algum paciente: eles chegam ao consultório com algum problema e conversam sobre ele com Grosz. Por mais que os textos sejam curtos, é possível perceber logo de início que o processo de entendimento da questão não é simples; analista e paciente passam diversas horas conversando sobre um único problema, ou então, passam diversas horas fugindo do problema até que consigam encará-lo.

Já no começo, o livro traz uma situação bem bonita da Karen Blixen (que é também a epígrafe de um dos capítulos da Condição humana da Hannah Arendt): “Todos os sofrimentos podem ser suportados se os inserimos numa história ou contamos uma história sobre eles.” E são essas histórias, contadas sobre os sentimentos e misturadas a eles, que compõem o livro. Como os personagens são os mais diversos, é quase impossível não se auto-diagnosticar ao ler o livro; interações com as neuroses e paranóias alheias serão comuns durante a leitura. Todos os nomes e detalhes pessoais são, obviamente, inventados para proteger a privacidade dos pacientes.

Por mais que a identificação entre leitor e paciente aconteça, acredito que um dos méritos do livro tenha sido alcançar uma forma de narrativa em que cada caso seja exclusivo, e não o reflexo de alguma teoria ou diagnóstico preciso. Os pacientes de Grosz são tratados todo o tempo como indivíduos completos e não como casos de estudo. Parte disso pode se dever ao pouco uso de jargões da área; mesmo quem, como eu, nunca tenha lido nada sobre o processo analítico conseguirá entender as histórias contadas.

Um homem que não consegue mais se concentrar em nenhum assunto pois só pensa em sua casa na França (na cor das paredes, na mudança que fará na entrada, na decoração etc.) chega ao consultório de Grosz disposto a repensar sua vida; uma mulher que não quer entender que seu namorado nunca abandonará a esposa para se casar com ela; um burocrata que consegue entediar todos a sua volta, incluindo seu psicanalista; e uma mulher que só consegue descrever seu marido como “um doce” são alguns exemplos de casos tratados por Grosz.

Uma coisa porém me incomodou: o livro demora um pouco para mostrar um caso que não deu certo. Por mais da metade do livro lemos sobre os acertos de Grosz, seu relacionamento com os pacientes e um entendimento de sua condição. É só mais para o fim do livro que veremos uma situação em que ele sente raiva do paciente, sente sono, erra, passa o paciente para outro analista etc. Mesmo para o analista é difícil falar de seus casos menos brilhantes.

Outro ponto que vale a pena trazer é que muitas resenhas estrangeiras viram o livro como uma amostra de poderosa escrita literária, como se alguns dos capítulos mostrassem um cuidado especial com a linguagem. Não pude concordar com isso; cada capítulo é escrito de forma cuidadosa e envolvente, mas não percebi uma aptidão narrativa além do normal. Entretanto, Grosz trabalha bastante com personagens literários para descrever alguma situação. De Dickens a Tchékhov, é interessante ver como a literatura (tão universal) traz um entendimento particular para cada caso.

Através da combinação de relatos e soluções, Grosz faz um livro interessante sobre como o processo da psicanálise pode ser uma forma de entender a vida individual.

  • Título original: The Examined Life
  • Tradutora: Maria Luiza X. de A. Borges
  • Editora: Zahar
  • Ano: 2013/2013
  • Páginas: 207

*Esse livro foi enviado pela editora; não paguei nem recebi por ele, mas o escolhi com muito carinho :)*

Stephen Grosz (divulgação BBC)

Stephen Grosz (divulgação BBC)

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6 pensamentos sobre “A vida em análise – Stephen Grosz

  1. Oi Luara,
    adorei a resenha e quero ler esse livro o quanto antes.
    Adoro teu canal no You Tube e estou me deliciando com teu blog.
    Bjão,
    Suelen

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