Crônicas marcianas – Ray Bradbury

tn_311_600_as_cronicas_030214Quando li Fahrenheit 451 me decepcionei um pouco. Para variar, acredito que a culpa estava mais em minhas altas expectativas do que no livro. Achei que leria a pedra filosofal da ficção científica, o livro que explicaria a possibilidade infinita de variações e adaptações do gênero, mas não foi bem assim. No final da leitura, sai com a sensação de que ali existia uma boa ideia que precisava de um pouco mais de atenção e cuidado. Claro, sei que as condições de escrita do livro não foram as melhores – parece que Bradbury alugava uma máquina de escrever na biblioteca e pagava pelo tempo de uso, já que não era possível escrever em casa, aquela era sua forma de fazer literatura – mas geralmente tenho essa sensação com a FC, parece que alguém poderia ter tido mais cuidado em alguma parte do processo de produção do livro. O engraçado é que isso quase não acontece com os livros do Philip Dick. Ele, que também escrevia freneticamente, me passa uma sensação de alguma coisa mais “ajeitada”. Talvez porque as histórias já tinham realmente acontecido em sua mente e eram só passadas para o papel. Enfim, acho que talvez os editores façam corpo mole quando o assunto é FC, chamem de síndrome de vira-lata se preferirem. Ao mesmo tempo, leio poucos contos de FC. Minhas experiências sempre partem mais para o lado dos romances, onde é possível utilizar diversos artifícios e se perder no meio deles.

Posso dizer, então, que fiquei surpresa com Crônicas marcianas. Esse romance em contos trabalhou com temas interessantes, criou personagens complexos, expandiu universos e foi uma leitura surpreendente. Alguns dos contos que compõem esse livro foram publicados separadamente em diferentes revistas de FC, somente na década de 1950 Bradbury os juntou em um livro único. Ele também escreveu contos mais curtos que entram no meio dos já conhecidos. Assim, temos um romance completo composto por contos.

Cobrindo os anos de 1999 a 2026, Bradbury conta como a exploração e colonização de Marte aconteceu. Diversas expedições são enviadas ao planeta em diferentes momentos, e cada uma delas enfrenta diferentes problemas em contextos imprevisíveis. Buscando terras novas ou uma fuga da guerra, os terráqueos encontram em Marte um cenário muito diferente do imaginário comum de pequenos homens verdes. Discutindo (em 1950, minha gente!) temas como imperialismo, trabalho, consequências ambientais e exploração nuclear, Bradbury constrói um livro coeso mas que, ao mesmo tempo, cria espaços vazios que o leitor pode preencher. Sem impor uma moral ou um destino, ele conduz questões complexas por terrenos criativos.

Por outro lado, senti falta de personagens femininas. As mulheres da exploração marciana são retratos da dona-de-casa entediada ou da figura materna. Infelizmente, não foi dessa vez que astronautas mulheres conquistaram o espaço da FC (mas ei! Se você quer ler alguma coisa assim, pode baixar o livro Universo desconstruído para Kobo ou Kindle, aqui).

A sutileza também perde seu lugar em alguns momentos. Algumas críticas se sobressaem aos próprios personagens (uma ocorrência frequente na FC). Acredito que isso não afete o desenrolar do livro, mesmo porque um dos “contos” mais bonitos usa isso em larga escala: “…e a lua continua brilhando” está na primeira metade do livro e traz a Terceira Expedição para Marte. Ao encontrar o planeta em condições diferentes das que esperavam, os tripulantes passam a investigar as causas da mudança e, ao ter contato com diferenças culturais significativas, uma dissidência é inevitável. O personagem que carrega mais claramente a bandeira da crítica à Terra é também o segundo personagem mais interessante, somente perdendo, na minha opinião, para o personagem que não sabe como agir, mas mesmo assim age.

Nessa edição da Globo/Biblioteca Azul temos também o prefácio de Jorge Luis Borges, que fala mais sobre o deslumbre involuntário que a FC traz do que do enredo do livro propriamente. Uma decisão acertada para prefácio, já que na maioria das vezes escrever sobre FC sem prejuízos ao encantamento do futuro leitor pode ser uma tarefa ingrata.

Ray Bradbury

Ray Bradbury

  • Tradução: Ana Ban
  • Editora: Biblioteca Azul (Globo Livros)
  • Ano: 1950/2013
  • 292 páginas
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8 pensamentos sobre “Crônicas marcianas – Ray Bradbury

  1. Pingback: Na Maré Montante da Vida Cosmológica | Questões Cosmológicas

  2. Realmente “As crônicas marcianas” é livro muito superior a “Fahrenheit 451”;
    este parece realmente inacabado, quase como rascunho de obra que tenha ficado inédita,
    sem incorporar as reflexões que o cenário político-social da obra sugerem.
    Já as “Crônicas” não poderiam ter sido melhor escritas, incorporando bom humor e reflexões humanísticas profundas.
    O filme “Fahrenheit 451”, nesse contexto, me parece superior ao livro, pois atende à finalidade de apelo anarquista, mas com qualidade da qual Truffaut era mestre.

  3. Oi Luara, li Crônicas Marcianas com um interesse e uma fascinação crescente porque em cada conto Bradbury é menos óbvio, e menos do que as expedições à Marte me encantaram os personagens humanos (mesmo os marcianos), é como se ele tivesse mais cuidado em construir as pessoas em suas histórias que qualquer outra coisa. E por esse mesmo motivo, Farenheit 451 me fascina, mais que um arauto da ficção científica tem personagens ali com os quais podemos nos identificar. Talvez por isso não fiquei muito surpresa enquanto, outro dia, lia “O zen e a arte da escrita” e em um dos textos ele afirma categoricamente que é um escritor de pessoas mais do que qualquer outra coisa.
    Te acompanho desde o Isaac Sabe e gosto muito dos seus textos e vídeos, têm me inspirado em muitas leituras. Parabéns pelo bom trabalho!

  4. Super me identifico com o que disse sobre Farenheit 451. Digo, gostei, e gostei muito, mas eu esperava algo que me impactasse um pouco mais. Acho que é difícil ter um impacto quando você o está esperando, e eu também estava com aaaltas expectativas, então pode ser realmente mais culpa minha que culpa do livro.
    Também acho bem difícil encontrar personagens femininas marcantes em ficção científica “clássica” – parece que isso aparece mais em esforços recentes do que nessa época, pelo menos do que eu li (o que se resume, bem, a alguns grandes nomes que circularam o cenário americano nos anos de 30-50), e ainda mais quando escrita por homens.
    Lembro-me de ter lido um ensaio de Asimov a respeito, no qual ele meio que justificava essa falta de personagens femininas características com a própria ausência de mulheres da “fandom”, e do fato dos escritores de FC não estarem lá muito acostumado com a presença feminina. Assim, quando vou ler FC clássica eu geralmente já não crio muitas expectativas de encontrá-las, mas é sempre bom ter uma boa surpresa. Pena que não foi dessa vez.
    Tenho interesse em ler As crônicas marcianas já há algum tempo, mas ainda não tive a oportunidade. Gosto particularmente de histórias que tomam um grande período de tempo, de acompanhar um processo evolutivo (por isso me amarro em Fundação, por exemplo), e, com os lapsos de tempo presentes entre cada conto, imagino que teria um prato cheio.
    Bom texto e fiquei mais curioso para perseguir essa leitura. Quem sabe daqui a algumas semanas? Parabéns pela resenha!

  5. Li As crônicas… em 2009 e tenho a sensação de que deixei ‘muita coisa’ passar batido, por isso decidi reler o livro esse ano. Também quero ler “Fahrenheit 451″.
    A falta de personagens femininas também me incomodou quando li, mas o livro em si foi uma experiência ‘diferente’ e me surpreendeu bastante na época :D
    PS: Vou baixar “Universo desconstruído” :)
    Beijos!

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