Assassinos sem rosto – Henning Mankell

IMG_0015Assassinos sem rosto é o primeiro livro da série do detetive Kurt Wallander. Escrito por Henning Mankell na década de 1990, esse livro traz o policial sueco como personagem principal. Ao ser chamado para investigar o assassinato de um fazendeiro e a agressão que deixou sua mulher em coma, Wallander entra em contato com uma questão cada vez recorrente na Suécia: os estrangeiros. Após perseguir algumas pistas, o detetive é levado a acreditar que o assassino possa ser um dos exilados político de um abrigo na cidade Ystad, não muito longe da fazenda. Mas qual seria o motivo do crime? O que é possível encontrar na casa de um pequeno fazendeiro?

Lidando com a imprensa oficial nacional e grupos neo-fascistas, Wallander precisa pesar muito bem quais aspectos do crime serão divulgados ao amplo público. Mostrar que um estrangeiro é o principal suspeito não pode levar a uma onda de xenofobia? E seus colegas policiais, o que pensam sobre a política de abrigo do governo sueco?

Nesse ponto, o próprio Kurt Wallander mostra ser um personagem complexo. Ele tem dúvidas quanto aos exilados e o direito deles de estarem no país, mas também sabe que demonstrar isso publicamente não será bem-visto. Nosso detetive não é exatamente um cidadão modelo – e não só em relação ao asilo político.

No decorrer da investigação, vamos descobrindo que ele passa por um momento de crise. Recém-separado da esposa, quase sem contato com a filha e tendo que lidar com o pai senil, Wallander não chega nem perto do exemplo de estabilidade. Sua relação com o mundo não é das melhores. Mesmo quando a nova promotora da cidade atrai sua atenção, ele não é capaz de lidar com os aspectos sombrios da própria personalidade e acaba agindo como um idiota.

Um dos pontos interessantes do livro é ver como o detetive é completamente fragmentado. Não existe uma identificação possível entre o leitor e ele, mas ao mesmo tempo é engenhoso ver como ele pensa em sua vida ao mesmo tempo em que pensa o crime. Sua ex-mulher, no entanto, aparece como uma personagem fraca e desnecessária, seria preferível que ela tivesse sido poupada para aparecer em um outro livro da série em um papel de maior destaque.

Já a relação do detetive com o pai é incrível. A vida dele se deteriora ao mesmo tempo em que a consciência de seu pai falha, e tendo que lidar com isso ao mesmo tempo em que os assassinatos acontecem é física e emocionalmente desgastante.

Também é muito interessante prestar atenção em como a polícia sueca é diferente do que estamos acostumados; desde horas de trabalho até porte de armas, nada parece muito policial na forma de agir. Como temos somente o ponto de vista de Wallander, é só através dele que vemos uma quantidade imensa de agressividade contida, como se a calmaria do mundo exterior acabasse refletindo em um acúmulo de carga negativa interna. O pacato cidadão que respeita os limites da lei pode ser completamente agressivo em sua forma de lidar com desilusões.

A reflexão sobre o que um estado como a Suécia pode e vai oferecer a outras pessoas que buscam ajuda está presente durante todo o livro. Mas, diferente de um panfleto jornalístico, não temos uma conclusão por parte de Mankell. Não é possível tirar uma moral única da narrativa. O que ela pede é que percebamos que existe algo de podre no reino da Suécia.

Ler isso como estrangeira é ainda mais intrigante. O senso comum sobre os países escandinavos pode nos levar a acreditar que existe um modelo a ser seguido, ou pelo menos um ideal a ser almejado; mas além de pensar em termos históricos (como um país que não precisou lidar frequentemente com o outro encara a ideia de mobilidade global), também é preciso pensar essa sociedade de bem-estar mais a fundo antes de projetar expectativas.

Em termo de narrativa e ritmo policial, esse livro é diferente do que estou acostumada. Talvez por ser o primeiro da série, algumas personagens parecem acessórias, enquanto outras clamam por mais atenção. Os aspectos da vida pessoal de Wallander também parecem um pouco confusos e espalhados, mas acredito que isso acabe mudando em outros livros.

Para emendar com a leitura do romance, vi o primeiro episódio da série Wallander da BBC. É mais provável se apaixonar pelo detetive da série de TV do que pelo detetive dos livros, mas ainda assim é uma série incrível (com o Tom Hiddleston de lambuja). Me arrependi de não ter lido o livro que deu origem ao primeiro capítulo (O guerreiro solitário), mas gostei muito desse episódio.

Na segunda temporada da série, temos um capítulo baseado em Assassinos sem rosto, quem quiser ver o trailer:

  • Título original: Mördare utan ansikte
  • Tradução de Beth Vieira
  • Companhia das Letras
  • 1991/2001
  • 304 páginas
Henning Mankell

Henning Mankell

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4 pensamentos sobre “Assassinos sem rosto – Henning Mankell

  1. Eu comecei a ler esse livro, mas não consegui entrar no ritmo de jeito nenhum na época. Como tu disse, são muitos aspectos diferentes do que estamos acostumados e o protagonista não é uma pessoa com quem se identifique fácil…Depois da tua resenha eu acho que vou dar mais um chance.

    Abraços,
    Tamara Costa
    http://www.doseliteraria.com.br/

  2. Li Assassinos sem rosto logo depois ficar apaixonada e me sentir órfã (tudo ao mesmo tempo) com a leitura da trilogia Millenium. Precisava de outro policial sueco para ontem. Mas confesso que eu precisava de outro Stieg Larsson e não me dei muito bem com Mankell. Não curti Assassinos sem rosto como quase todo mundo parece ter curtido, mas confesso que achei Kurt Wallander um personagem muito interessante!
    Esses dias descobri que a série está disponível no netflix e pretendo assisti-la em breve. Talvez leia O guerreiro solitário antes e dê mais uma chance aos livros ;)
    Gostei bastante da tua resenha!
    Bjs

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