Verão – J. M. Coetzee

Coetzee_Ver_oQuando fiquei sabendo que o livro do mês para o grupo de leitura dos Espanadores seria do Coetzee, fiquei muito animada. Li Desonra no ano passado e achei um livro incrível, queria ler mais do autor. Minha única ressalva foi ver que Verão era o terceiro livro de uma trilogia biográfica (composta também por Infância e Juventude). Confiando cegamente no julgamento do Menezes, resolvi começar pelo fim, já que a ordem importava menos que a leitura. Não me arrependi.

Verão é um livro biográfico, mas não é isso que melhor define o livro. Ele é também e principalmente uma reflexão sobre a relação entre pessoas em um período específico de tempo e espaço (a África do Sul do apartheid) e suas certezas morais. Contudo, o livro é escrito em um momento posterior ao evento, todos os pensamentos e explicações são feitos a luz do futuro. A África já mudou, bem como os personagens, o que não significa dizer que feridas foram cicatrizadas e brigas resolvidas.

Na construção desse livro, um biógrafo fictício encarrega-se de reconstruir a vida de um escritor ganhador do Nobel chamado John Coetzee. Esse escritor viveu na África do Sul e vem de uma família com raízes holandesas. Tudo se assemelha muito ao que conhecemos da biografia de Coetzee o autor de Desonra, mas não é possível (ou preciso) ver os dois Coetzee’s como um só.

O biógrafo resolve procurar algumas pessoas que tiveram uma relação mais íntima com esse escritor notadamente frio. Quatro delas são mulheres com quem Coetzee teve algum tipo de envolvimento sentimental. Somente um difere, Martin, um professor que concorreu a uma vaga na universidade junto com Coetzee.

Ao recorrer às companheiras sentimentais de Coetzee, o livro poderia se transformar em um livro sobre relacionamentos mal sucedidos (e algumas críticas dizem que o livro peca exatamente por dar voz demais às personagens femininas, fazendo com que a sensação de revanche seja muito presente), mas não é isso o quê acontece: o livro ganha força ao mostrar como diferentes pessoas em diferentes momentos se relacionaram com o escritor. Qualquer sentido que poderia ser extraído dessas narrativas é completamente rechaçado quando o leitor adentra o capítulo seguinte. Um livro que resiste ao sentido profundo nas “entrelinhas da escrita” já merece atenção, mas um livro, como Verão, que faz isso através de questões morais complexas, precisa de ainda mais crédito.

É um livro vaidoso? Sim e não. Toda autobiografia exige um grau de vaidade, mas o Coetzee descrito no livro é por demais negativado para ser considerado um retrato embelezador.

Todos os narradores são personagens secundários na vida do biografado, mas é através da história deles que teremos contato com Coetzee. Duas frases do biógrafo são bastante significativas dessa característica:

“Mas não estou interessado em chegar a um juízo final sobre Coetzee. Deixo isso à história. O que estou fazendo é contar a história de um estágio da vida dele, ou se não se pode ter uma história única, então diversas histórias de diversas perspectivas.”

.

“[…] examinei as cartas e os diários. Não dá para confiar no que Coetzee escreve, não como registro factual – não porque ele fosse mentiroso, mas porque ele era um ficcionista. Nas cartas, ele inventa uma ficção de si mesmo para seus correspondentes; nos diários ele faz a mesma coisa para os próprios olhos, ou talvez para a posteridade. Como documentos, são valiosos, claro; mas quando se quer a verdade, é preciso procurar atrás das ficções ali elaboradas e ouvir as pessoas que conheceram Coetzee diretamente, em pessoa.

“Mas e se todos somos ficcionistas, como o senhor chama Coetzee? E se nós inventamos continuamente histórias sobre nossas vidas? Por que o que eu disser sobre Coetzee haveria de merecer mais crédito do que aquilo que ele próprio diz?

Claro que nós somos todos ficcionistas. Não nego. Mas o que a senhora preferiria: um conjunto de relatos independentes de uma gama de perspectivas independentes, a partir das quais a senhora pode então tentar sintetizar um todo; ou a autopromoção compacta, unitária, compreendida na obra dele? Eu sei qual eu prefiro.”

Aqui o pobre do historiador-leitor chega a um êxtase completo. Ao problematizar a veracidade de depoimentos e escritos, ele também se pergunta se é possível sintetizar um todo moral. Esse não é um livro de respostas, mas um que traz perguntas e desconstrói certezas.

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  • Título original: Summertime
  • Tradução: José Rubens Siqueira
  • Editora: Companhia das Letras
  • Ano: 2009/2010
  • Páginas: 275

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10 pensamentos sobre “Verão – J. M. Coetzee

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  3. Nunca vi ninguém chamar um livro de vaidoso!! rsr Achei muito interessante mas não sei se leria! De qualquer forma adorei a resenha e gostei de conhecer o autor pelas suas palavras! Beijinho pra vc! Isa – LidoLendo.

  4. Luara,
    Terminei de ler esse livro ontem, para participar da discussão com os Espanadores. Ainda estou digerindo a leitura, mas já posso dizer que gostei da experiência.
    bjo

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