A caixa preta – Amós Oz

caixa pretaConheço e admiro Amós Oz de outros carnavais. Adorei a leitura de Contra o fanatismo e Pantera no porão. Assim, fiquei muito animada quando descobri que o grupo de leituras do blog Espanadores de abril seria sobre um livro dele. Já tinha A caixa preta aqui em casa, mas nunca tinha começado a ler. Minha ordem de leitura seria Meu Michel, Cenas da vida na aldeia e A caixa preta. Quando resolvi mudá-la por conta do clube de leitura, achei que seria positivo já que o livro é menor que Meu Michel e meu tempo estava mais corrido.

A caixa preta já começou me mostrando que o livro não seria nada parecido com Pantera no porão. A delicadeza, a sutileza e a inocência do menino Prófi foram substituídas pela amargura, rancor e angústia de Alex e Ilana. O livro “talvez seja [um]a misteriosa combinação de crueldade e desamparo” (p. 187).

Alex e Ilana foram casados há 7 anos e o divórcio foi extremamente doloroso para os dois; casos de traição, não reconhecimento da paternidade do filho e problemas com a herança foram expostos no tribunal. Deste casamento desfeito nasceu Boraz que, após a separação e a dúvida sobre a paternidade, passa a se valer de um comportamento violento para lidar com o mundo.

Sem saber como cuidar do filho no fim da adolescência, Ilana escreve uma carta para Alex, pedindo que ele a ajude de alguma forma. Alex já não mora mais em Israel, agora ele divide seu tempo entre a Inglaterra, os EUA e conferências pelo mundo. Além de ser um acadêmico reconhecido internacionalmente, Alex também é herdeiro de diversas propriedades no país natal.

Após essa primeira carta, o relacionamento é retomado, mas conta também com as intervenções do atual marido de Ilana, Michel Sommo, e do advogado responsável pelos bens de Alex em Israel. As particularidades do relacionamento de todos os personagens são reveladas aos poucos. O leitor é capaz de apreender um pouco mais sobre o contexto após cada carta, e tal recurso é utilizado de forma muito consciente e inteligente por Amós Oz.

Mesmo que o casamento de Alex e Ilana esteja no centro de quase todas as cartas, outras partes da vida dos personagens são abordadas. E é justamente durante essa abordagem enviesada que reconhecemos os temas mais caros ao autor. O conflito do estado judaico, a forma pejorativa como muitos deles veem os árabes e a própria rixa interna entre sefardistas e asquenazes estão presentes nas cartas trocadas entre Alex, Ilana e Michel.

Sei que perdi muitas informações do romance por não conhecer a cultura judaica — mesmo a forma como Michel (acredito que sefardista) encara Alex (acredito que asquenazi) só ficou clara para mim depois de uma pesquisa que fiz na internet —, mas acredito que o livro também forneça diversas informações sobre o conflito israelo-palestino que não consegui apreender. Meu conhecimento sobre a história do local é limitado, e tal falha se fez muito presente durante a leitura do livro.

Não estou querendo identificar a narrativa do livro somente como um verniz que deixa transparecer discussões e ideias mais profundas. O foco é o relacionamento de Alex, Ilana, Boaz e Michel. E ele é retratado de forma multifacetada e sem moralismos. Todos os personagens têm defeitos, inconsistências e problemas, mas também existem situações em que mostram seu caráter carismático e encantador. Contudo, tais personagens estão inseridos em uma lógica anterior a eles; família, tradição e história também são personagens do romance.

Amós Oz apresenta um romance extremamente envolvente, que faz o leitor descobrir a cada carta um pouco mais sobre o passado dos personagens. A habilidade narrativa e estilística são inegáveis, mas o livro me pareceu violento demais com o leitor. Assim como com Desonra de Coetzee, senti que com A caixa preta eu estava sempre sendo levada ao extremo, como se fosse possível mostrar a todo tempo a realidade crua e total. Diferente de Verão e Pantera no porão, respectivamente Coetzee e Oz, onde a crueldade e a totalidade apareciam mitigadas por delicadeza e felicidade, A caixa preta mostra uma crueldade e desamparo que não poderiam ser sustentados por mais do que as duzentas e poucas páginas do romance. Um livro intenso, sem pudor e clemência, mas não o melhor livro que já li do autor.

Amós Oz

Amós Oz

  • Tradução do hebraico de Nancy Rozenchan
  • Editora: Companhia das Letras
  • Ano: 1986 (publicação original) e 1993 (primeira edição brasileira)
  • Páginas: 244
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Um pensamento sobre “A caixa preta – Amós Oz

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