Iniciantes — Raymond Carver

Captura de Tela 2014-07-01 às 21.05.14Descobrir Iniciantes foi uma grata surpresa. A primeira vez que ouvi falar do livro foi em um congresso de história no interior de Minas Gerais. A pessoa que falava sobre o livro tinha uma voz mole, que vai envolvendo o ouvinte aos poucos. No começo eu não estava dando nada nem pelo livro nem pela exposição. Que raios eu queria saber sobre a troca de cartas de um escritor americano com seu editor? O congresso já estava chato e tudo que eu queria era que a hora do bar chegasse logo. Não lembro muito bem como foi o processo, mas de repente vi que minha atenção estava toda direcionada para o que estava ouvindo: as cartas de Raymond Carver e Gordon Lish. Talvez tenha sido a mineridade do expositor, talvez tenha sido o silêncio da sala ou o frio de Minas Gerais, mas ali Raymond Carver tinha me ganhado um pouquinho. Saí pensando que Lish deveria ter sido muito canalha — vejam bem, isso foi coisa minha, o palestrante não teve nada que ver com essas conclusões —, editar contos a ponto de ficarem 40% menores e ainda mudar quase todos os títulos? Não era possível que fosse boa pessoa.

O congresso acabou em cerveja e lágrimas, e o Carver acabou esquecido em uma lista de leituras futuras. Foi só depois que um amigo voltou a falar nele (e o livro apareceu em promoção) que me rendi. Minha ideia inicial era começar a leitura por Do que estamos falando quando falamos de amor (que no Brasil está publicado na coletânea 68 contos de Raymond Carver), a versão editada por G. L. dos contos das décadas de 1970 e 1980. Mas lembrei da exposição do congresso e fui direto para Iniciantes, a versão sem-cortes.

Logo no começo o livro mostra a que veio. “Por que não dançam?”, “Visor” e “Cadê todo mundo?” têm a quantidade certa de non-sense, decadência e melancolia. Mas foi em “Coreto” que Carver me pegou de vez com o começo de conto mais legal de todos os tempos:

“Naquela manhã, ela derrama uísque Teacher’s em cima da minha barriga e lambe. De tarde, tenta se jogar pela janela.”

Não me aguentei e, antes mesmo de terminar Iniciantes, fui procurar a versão editada de “Coreto” (que foi um dos poucos que manteve o nome em Do que falamos). A frase ainda estava lá, começando o mesmo conto — “That morning she pours Teacher’s over my belly and licks it off. That afternoon she tries to jump out the window.” Pois bem, será que G. L. na verdade não era o vilão? Continuei a ler e deixei para responder meu questionamento depois.

“Quer ver uma coisa?” não me impressionou muito e cheguei a achar a versão Do que falamos melhor (ele chama “Eu conseguia enxergar as menores coisas”, também não é um título particularmente feliz). Mas então apareceu meu conto preferido, “O lance”, seguido de uma porrada, “Uma coisinha boa”.

“O lance” não foge da temática dos outros contos e nem é esteticamente muito diferenciado: Um filho conta o último encontro que teve com o pai em um aeroporto quando o pai resolve contar para ele sobre o caso que teve fora do casamento.  Mas a relação que o leitor estabelece com os personagens é incrível. Não existe exagero, não é melodramático, só é cru. Acabei o conto me sentindo como o narrador, “você não sabe de nada, não é? Você não sabe mesmo de nada. Tem trinta e dois anos, mas, mas não sabe nada, a não ser vender livros”.

Para esse conto, acabei esperando e lendo a versão Do que falamos só depois de terminado o livro. E não tenho outro jeito de dizer: não gostei da versão editada. Realmente não me apaixonaria pelo conto se só tivesse acesso a essa versão. Mas, como isso não aconteceu com todos os contos, deixo meu veredicto sobre a polêmica Lish para depois.

Acho impossível que alguém que tenha lido “Uma coisinha boa” possa ter passado incólume.  É brutal (como o próximo conto, “Diga às mulheres que a gente já vai”) e desesperadoramente impotente (como “Cadê todo mundo?”). A versão Do que falamos é muito mais enxuta e se chama “O banho”, mas não perde em brutalidade e impotência. Particularmente ainda prefiro “Uma coisinha boa”, mas não nego que a edição de Lish conferiu vigor ao texto.

Depois disso, eu já estava na metade do livro e completamente vendida. “Se vocês não se importam” e “Tanta água e tão perto de casa” só vieram confirmar minha admiração. A evidência da raiva e da brutalidade contidas apareceram como que em uma vitrine nesses contos.

“Mudo” e “Torta” vieram na sequência e me encantaram menos. A versão Do que falamos (“A terceira coisa que matou meu pai” e “Uma conversa séria”, respectivamente) é melhor. E é melhor do jeito que o trabalho de um editor é; o conto melhora e ainda tem o cheiro do autor, as frases impressionantes e o impacto. Tudo bem, em alguns momentos o editor pode exagerar, mas o trabalho dele é importante e especializado. Meio que como um analista, o editor trabalha junto com o autor para o desenvolvimento do texto, ele tenta ver as coisas de forma a alcançar um melhor resultado sem deixar que o self do autor se perca. No caso Lish-Carver sinto que algumas vezes a edição pesou a mão — talvez para manter a fama previamente conquistada de escritor minimalista? — mas que a total falta de edição também é prejudicial.

O livro ainda tem outros contos, inclusive o que dá nome aos livros e, nas palavras de Philip Roth: “intensidade, tom, ritmo, timing, clima, proporção, vocabulário, verdade, repetições — tudo na versão original do conto “Iniciantes” é perfeitamente medido e executado. Eis um conto que não demandaria edição alguma.” Mas meus preferidos já apareceram logo no começo, para arrebatar meu coração. A polêmica acabou me trazendo para esse livro em primeiro lugar, mas ainda quero ler Catedral, seu trabalho mais elogiado (que também está na edição brasileira 68 contos de Raymond Carver).

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Raymond Carver

  • Título original: Beginners
  • Tradução: Rubens Figueiredo
  • Editora: Companhia das Letras
  • Páginas: 304
  • Ano: 2008/2009
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3 pensamentos sobre “Iniciantes — Raymond Carver

  1. Pingback: Retrospectiva de leituras 2014 | ao rés do chão

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