Carol – Patricia Highsmith

Price-of-Salt“A hora do almoço no refeitório dos funcionários da Frankenberg’s chegara a seu auge.” É a primeira frase de Carol (também publicado como O preço do sal); assim mesmo, solta, seguida por outro parágrafo. Uma história de amor, obsessão e road trip que começa em um refeitório apertado, abafado e pouco apetitoso. Patricia Highsmith cria ambientes de forma muito viva, e é possível se sentir dentro da loja Frankenberg’s em uma fria véspera de natal em Nova York.

Therese Belivet é a mente que o narrador descreve; uma jovem cenógrafa que procura um trabalho temporário de fim de ano. A loja tem tudo aquilo que Therese não quer, desde uma vida já traçada até uma bolsa cara demais. E em todas as cenas que se passam dentro da loja, é possível sentir o ar pesado de aquecimento artificial e vapor. Mesmo o primeiro encontro de Therese e Carol não conseguiu me desvencilhar da ideia de sufoco que a loja e todos os casacos de pele me passaram.

Mas é a loja que traz a personagem que possibilita a mudança de Therese. A senhora que trabalha há anos naquele lugar e convida a jovem para um jantar em sua casa. Destituída de expectativas e lembranças — mesmo a época em que seus vestidos faziam sucesso parece não evocar desejo —, a velha atendente assusta e fascina Therese, mas a jovem sabe que não quer ter aquela vida.

CarolA cena em que Therese é vestida pela velha, aliás, é uma das minhas preferidas. Se pensarmos em termos estritamente de desenvolvimento, ela não adiciona nada à personagem de Therese ou à trama, mas cria um clima de irrealidade que parece fazer parte da vida da Srta. Belivet. Therese é pastosa como a preguiça de verão e mesmo quando se apaixona, rende-se à imposição da inércia mais de uma vez. Ainda na temática do figurino, Therese é vestida pelo menos três vezes durante o livro (pela senhora da loja, pela sogra e por Carol), como uma boneca que obedece e observa. É só no final do livro que percebemos uma atitude mais intencional — que não me agradou muito[1].

Quando comecei a ler, realmente não sabia o que esperar. Sabia que existiria um romance entre Carol e Therese e que o final seria relativamente feliz, mas acreditava que um “crime” (não entendendo o relacionamento das duas como um crime para a época) aconteceria em algum momento. Tal impressão não foi refutada pela forma como Highsmith escreve. Até o meio do livro, é possível ter a impressão que se está lendo um romance policial. Algumas estruturas narrativas e trejeitos do policial continuam presentes nessa história de amor, e é realmente muito interessante ver como eles contribuem para a formação da narrativa. A própria road trip não teria o mesmo sabor elas não estivessem sendo seguidas por um espião — mas a forma como ele é descartado da trama seria inaceitável em qualquer trama detetivesca.

Junto com a road trip vem o comentário que mais li sobre o livro: ele foi a fonte de inspiração para a viagem de Humbert Humbert e Lolita. The Price of Salt foi publicado pela primeira vez em 1952 sob o pseudônimo de Claire Morgan; Lolita teve sua primeira aparição em 1955. Não sei. Quero dizer, a viagem está lá, a obsessão está lá, mas tudo muda tanto de um lugar para o outro, de um registro para o outro, que realmente não sei se tem alguma importância.

Ainda no terreno da inspiração, a própria Patricia Highsmith trabalhou no departamento de brinquedos de uma grande loja em 1948, e fica difícil não ver semelhanças entre a autora e Therese, mas o livro nunca foi descrito como biográfico. Ainda não li a biografia A talentosa Highsmith, então posso mudar de opinião[2] a qualquer momento.

Gosto de Therese mais do que gosto de Carol, embora seja perceptível a aura de fascínio de Highsmith quis passar com a segunda personagem. Carol parece mais complexa que a jovem, seu casamento fracassado, sua filha, seus relacionamentos anteriores, ela parece ter uma história que Therese não tem. Mas nem isso conseguiu afastar a sensação de que era Therese quem realmente importava.

“Instantly, I love her. Instantly, I’m terrified.”

3estrelas

OBS: Um filme sobre o livro já está sendo filmado (com estreia prevista para 2015). Cate Blanchet e Rooney Mara.

_______________

[1] Mas tenho consciência que sinto esse desconforto por ser uma leitora de 2014. Em 1952, a importância do final feliz para a história deve ter sido muito grande, algo a ser almejado como possibilidade.

[2] Aliás, eu sempre posso mudar de opinião. Mesmo as minhas impressões sobre os livros que leio mudam com o tempo. Isso ainda vai virar um texto aqui no blog.

Anúncios

3 pensamentos sobre “Carol – Patricia Highsmith

  1. Oi Luara!

    Esse livro já estava na minha lista mas não tinha nenhuma prioridade, mas como não passá-lo na frente depois que você disse que terá filme com a Cate Blanchett? <3

  2. Eu nem sabia que “O preço do sal” era um livro gay :/ Acho que você tem razão, deve ter sido importante pra época, o final feliz. Aqui no Brasil, pelo que eu sei, o primeiro romance lésbico que “termina bem” foi lançado faz poucos anos. O que é muito bizarro. Enfim, em 98 as pessoas ainda estavam explodindo lésbicas nas novelas pq o público não aprovava. Imagina em fuckin 52 ter um livro que não detona a situação. Fiquei curiosa. Vou acrescentar à minha lista infinita de leituras. :)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s